• No results found

Current Marketing Mix

In document Born sustainable (sider 31-35)

A medicina tradicional africana é um método de intervenção na relação saúde- doença que envolve a transmissão oral de conhecimentos de pai para filho, de práticas de cura que são guardadas zelosamente como um bem precioso. Em África, segundo Barros (2006, p. 1):

A grande distinção que se faz é entre a medicina ocidental racionalista moderna e aquelas religiosas ou mágicas. Estas últimas englobam os sistemas populares de interpretação e tratamento das doenças e a medicina de povos não ocidentais. No âmbito da medicina tradicional distingue-se a medicina popular e aquela iniciática. A primeira é constituída de um arsenal de remédios, interpretações da doença e de técnicas, patrimônio de uma vasta população, que não requerem para serem utilizadas uma preparação particular do terapeuta. A segunda é patrimônio de poucos indivíduos especializados e cuja história, características pessoais e iniciação resultem particulares.

Todavia, em ambas as formas de medicina tradicional, estão presentes o uso de recursos da natureza, pois os médicos tradicionais possuem uma capacidade de domínio do sistema sócio-cultural do povo e uma condição plena de manipulação de elementos da natureza.

Os componentes utilizados na medicina tradicional africana incluem as plantas, as ervas, os minerais, os animais, os jejuns e/ou as dietas terapêuticas, a manipulação da coluna vertebral e as massagens, as terapia de cura radiante, a hidroterapia, a psicoterapia, o ocultismo terapêutico, como maneiras de tratamento preventivo e curativo. Tudo isso associado a orações, invocações e encantamentos para a restituição e/ou fortalecimento do Asè (força vital) que traz saúde e reconecta a pessoa no plano material à sua ancestralidade.

No pensamento ocidental o conhecimento científico foi apartado da arte, a razão da emoção, causando um reducionismo ao campo material no entendimento do homem e da natureza. Absorvido e reproduzido pela ciência bio-médica, esse pensamento criou as pesquisas experimentais, que não consideram as experiências sensíveis, do vivido e do sagrado, as experiência no mundo do sagrado. Diferentemente da medicina tradicional africana, que trabalha em conjunto com os valores culturais e ancestrais da comunidade, que lhe conferem logicidade e legitimidade sócio-cultural, quando do reconhecimento das relações do mundo visível dos homens (Àiyé) com o mundo invisível dos ancestrais (Òrún), com isso:

Os conceitos fundamentais de saúde e doença na medicina africana são ligados à ideia de equilíbrio e interdependência dos elementos constitutivos (visíveis ou não) que se influenciam entre si, segundo Koumaré [...] desde o nascimento, o ser

humano está sujeito ao controle de elementos naturais e a sobrevivência depende da capacidade de encontrar um equilíbrio em um ambiente que contém elementos favoráveis e desfavoráveis. O conhecimento destes elementos confere poder de conservar ou alterar aquele equilíbrio que representa a saúde. (BARROS, 2006, p. 7).

No que concerne ao campo da saúde mental em África-negra, onde a pessoa é concebida como uma unidade indissolúvel de corpo material (Ara), corpo imaterial, espírito (Orí Inu) e sua ancestralidade, a introdução do pensamento da medicina psiquiatria ocidental causou um estranhamento para esses povos, como relata Barros (2006, p. 8):

No final do século XIX e início do século passado, missionários e militares médicos em missão de exploração e conquista descreveram fenômenos considerados desordem psíquica, assim como as terapêuticas em sociedades africanas, americanas e asiáticas. Em suas observações, os preconceitos, as categorias morais, o paternalismo e o eurocentrismo reduziam a diferença ao absolutamente outro e ao exótico. A religião foi considerada, muitas vezes, como esquizofrenia organizada; a magia como doença da cultura e o especialista da cura negro-africano descrito como epilético, histérico ou doente dos nervos.

Essa leitura feita pelo pensamento ocidental acerca das manifestações culturais e religiosas de povos negro-africanos, perdurou durante muitos anos, influenciando na criação de representações sociais sobre as importantes contribuições dessas culturas em África e no próprio Brasil, sobre isso afirma Cunha Júnior (2010, p. 83):

O eurocentrismo ocidental reza tudo aquilo que ele desconhece que não tem grande importância para o conhecimento racional. O ocidente não conhece, portanto não existe. Dado ao desconhecimento ocidental, às vezes acidental noutras proposital [...], grande parte do conhecimento da humanidade não existe como conhecimento racional. Reduz os povos não ocidentais a povos que não pensam de forma lógica. A ignorância ocidental sobre os não ocidentais (ou pelo menos conhecimento parcial) produziu a arrogância e desta ao eurocentrismo, em se considerar única fonte dos únicos pensamentos lógicos racionalizados pelas lógicas do seu conhecimento.

Em pensamento similar ao de Cunha Júnior (2010), sobre o pensamento ocidental acerca da Cosmovisão Africana, nos relata Barros (2005, p. 77):

A África tomada como objeto, destituída de história e de saber, tem sido ainda em nossos dias terreno constante de investigações em diversas disciplinas. No campo particular da chamada etnopsiquiatria, a discussão sobre o que é a alteridade é ferida aberta, pois a psiquiatria se debate com a visão da loucura como o outro da normalidade desejada e a etnologia conforta-se com formas mais ou menos sutis da herança colonial, nas quais o africano, o indígena ou o não-europeu ocupam o lugar de um outro do qual se desconhecem os limites da diferença. Essa é uma problemática crucial assinalada por Piero Coppo [...], pois a psiquiatria, setor da medicina convencional de origem europeia, erigiu seu saber com base na separação entre corpo e espírito, disjunção estranha no pensamento negro-africano. Verifica-se, assim, um distanciamento epistemológico profundo entre a medicina psiquiátrica de origem europeia e a medicina negro- africana. No entanto, muitos esforços têm sido

realizados no sentido de superar os obstáculos teóricos e políticos. Pesquisas importantes têm resultado, muitas vezes, do esforço conjunto de vários especialistas: antropólogos, psiquiatras, sociólogos, psicólogos,inscrevendo-se no quadro de formulação de uma revisão crítica da própria constituição do saber dominante nas sociedades ocidentais.

Porém a despeito das críticas e formulações teóricas acerca do pensamento negro- africano, de suas práticas no campo saúde-doença, seus modelos de cura pautado numa lógica de envolvimento com a ancestralidade, uma coisa é inconteste: com a diáspora africana no período expansionista do capitalismo mercantilista, esse pensamento viajou nos tumbeiros, foi trazido em forma de memórias coletivas dos povos escravizados e re-significou-se em terras brasileiras, através das Religiões de Matriz Africana ou os Terreiros como ficaram conhecidas e vem se legitimando como conhecimentos e práticas de acolhimento, cuidado, tratamento, prevenção e promoção de saúde.

Esse conjunto de conhecimentos africanos preservados nos terreiros ficou conhecido como complexo Jêje-nagô e partilham uma herança comum, segundo Pessoa, com:

Significados transmitidos historicamente, incorporados em símbolos, um sistema de concepções herdadas, expressas em formas simbólicas, por meio das quais os homens se comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida [...] intitular-se Jêje ou Nagô significa ter adotado uma identidade através de um processo de socialização, que implica na internalização de uma ideologia específica que, entretanto, possui características marcantes de ambos os grupos – jêjes (ewe) e nagôs (yorùbá)”. (BARROS, 2010, p. 6).

In document Born sustainable (sider 31-35)