B. CYBER SECURITY FOR CPPS
VII. CURRENT ISSUES AND RESEARCH DIRECTIONS
Ao ler tudo o que se escreve sobre a juventude e em particular sobre as suas esperanças e juízos, é espantoso, por exemplo, avaliar o ínfimo lugar dispensado ao que ela pensa sobre o trabalho. Essa indiferença contrasta com a excessiva atenção a qualquer outras das suas opiniões.
Incessantemente chamados a emitir juízos sobre as necessidades atuais ou futuras, os jovens são, na verdade, muito menos interrogados acerca do sentido da sua existência futura de trabalhadores do que acerca da droga, do erotismo ou da violência.
Mesmo quando tal ocorre, é principalmente numa perspectiva concreta de orientação profissional e não para os convidar a refletir sobre o conteúdo e os objetivos de uma atividade laboriosa à qual, todavia, estão condenados a consagrar, amanhã, tanto tempo e tanto de si próprios. (CARMO [1992] cita Jean Rousselet, A alegria ao trabalho)
A partir das considerações colocadas a cerca do lugar e do papel que o trabalho ocupa e exerce na vida do homem, tanto no âmbito individual como social, é de se questionar e problematizar o que avalia Carmo em relação ao menor interesse sobre o que o jovem pensa em relação ao trabalho.
E o trecho acima (Carmo, 1992) expressa muito bem uma das motivações para a produção dessa pesquisa, tendo como interesse o estudo do jovem e sua relação com o trabalho. Essa população é pouco convidada a refletir sobre o mundo do trabalho, no sentido de preparar-se para o que está por vir, e repentinamente são forçados a responderem expectativas como mão-de-obra economicamente ativa, sendo inseridos forçosamente no mercado de trabalho, sem que antes tenham pensado a respeito de suas escolhas e sobre o papel que o trabalho possui na vida do homem e da sociedade de maneira geral.
O estudo de Bock e Liebesny (2003) sobre projeto de vida dos adolescentes propôs-se à investigação nesse sentido e revela que a realização da escolha profissional não vem acompanhada de um processo que considere a coletividade, mas somente centrados no próprio indivíduo e ainda assim, com uma percepção limitada sobre suas capacidades e sua relação de pertinência com o social. O jovem, portanto, dotado de condições para concretizar ações transformadoras, é desviado de suas possibilidades e para além disso, é estigmatizado como um ser gerador de conflitos, como um adolescente problema que precisa ser extirpado.
Cabe aqui refletirmos sobre a situação destes jovens: têm condições plenas de inserção no mundo do trabalho, pois estão com seu corpo, sua cognição
e seus afetos desenvolvidos, aproximando-se dos adultos. Poderiam por isto ocupar um lugar no mundo adulto, bastaria que um ritual os iniciasse. Mas não: estarão fora deste mundo adulto do trabalho, que possibilita independência financeira, ainda por algum tempo ou por muito tempo. Esta contradição entre as condições que possuem e a falta de autorização para o ingresso no mundo social adulto será responsável pelo surgimento da maior parte das características conhecidas hoje como dos adolescentes: rebeldia, conflito geracional, indefinição de identidade e onipotência. (BOCK e LIEBESNY, 2003, p. 211)
A consideração das autoras citada acima denuncia e desvela as circunstâncias sociais, culturais e históricas que condicionam o jovem numa condição de limitação e distanciamento diante da realidade da qual fazem parte, mas ainda não estão autorizados a participarem ativamente.
Bock e Liebesny (2003) explicitam a condição de moratória destinada aos jovens, e apontam suas consequências, o que nos permite antever um cenário e intervir com responsabilidade e compromisso, promovendo a ressignificação e a desconstrução desse processo de condenação do jovem a expectadores, pois revertendo essa equação é possível torná-los protagonistas e parceiros, uma vez que possuem condições para tal.
Há uma enorme passividade na construção das possibilidades sociais. São ativos na construção do futuro pessoal; estudarão, trabalharão e constituirão família. O restante do mundo, inclusive as mudanças que algumas vezes desejam que ocorra no mundo do trabalho e do estudo, não parece estar ao seu alcance produzi-las. (BOCK e LIEBESNY, 2003 p. 218)
Ou seja, todo o terreno se torna desfavorável para o jovem, fruto disso, é a incorporação pelo adolescente de um modo de pensar o mundo e se pensar, descolado do real, reproduzindo a própria lógica de descrédito e desresponsabilização que o constituiu, e que consequentemente se materializa por meio de suas escolhas, inabilitadas para embrenharem-se no social. Pois a formação destinada a esse jovem não o propiciou a reflexão sobre si e seu mundo, não incentivou a apropriação dos determinantes sociais, econômicos e culturais que o constituem, velou as condições que o permitiriam reagir sobre o real modificando de maneira consciente, entravou sua relação de pertencimento e conseqüentemente sua escolha profissional se dará meramente para si.
Em suma, os projetos de vida parecem centrados nos indivíduos. Não se encontram projetos que pensem o futuro considerando a coletividade social. Além disso, buscam adaptação à realidade que está dada. Não se percebem como agentes de transformação ou mudança. Devem buscar construir o futuro a partir das condições e demandas da realidade atual. Apesar de serem uma geração que vivencia mudanças rápidas do mundo
moderno, das tecnologias que se aperfeiçoam e se tornam obsoletas no dia seguinte, dos descartáveis, do progresso incessante, são jovens que não percebem qualquer influência da sua presença no mundo sobre estas transformações. Elas acontecem independentemente deles. Fazem, de certa forma, um raciocínio mágico sobre a transformação do mundo: afinal, não pensam sobre quem transforma o mundo?
(...) Não valorizam a coletividade; não se percebem pertencentes a ela; não a incluem em seus projetos. Às vezes se queixam do que está estabelecido, mas são pouco propositivos. (BOCK e LIEBESNY, 2003, p. 217/218)
A crítica apontada denota a distância do adolescente em relação ao meio social, o jovem que idealiza um projeto de vida e de futuro pautado na satisfação de suas necessidades meramente particulares, sendo assim afastado do coletivo.
Ainda que pese essa realidade, é importante constatar uma perspectiva que aparece entre alguns jovens, como nos revelam mais uma vez Bock e Liebesny (2003) no estudo sobre o projeto de vida dos jovens. Suas considerações apontam a possibilidade presente no discurso de jovens que contestam o trabalho tal qual como está posto, bem como incluem na sua decisão profissional anseios que abarcam o conjunto social.
As nossas pesquisas mais recentes (2001-2002) mostram que os jovens, quando são críticos em relação ao trabalho, pedem transformação da situação de trabalho para o futuro. Não querem o trabalho apenas como fonte de renda, mas como algo que os realize e que permita um vínculo com a sociedade. Fazem críticas à forma como o trabalho tem se apresentado em nossa sociedade. Aparecem alguns jovens que almejam fazer algo importante para o conjunto social através do trabalho, mas são exceções no conjunto maior dos sujeitos. (BOCK e LIEBESNY, 2003, p. 216)
Esse registro é um indicativo trazido pela própria juventude de que existe uma inquietação sobre o mundo real, e o reconhecimento da possibilidade de modificá-lo através do trabalho. Dessa forma, questões como o trabalho desvinculado da sociedade, descomprometido com o futuro, ou seja, determinantes que acentuam a desigualdade social, que acirram a divisão de classes e que contribuem para a manutenção do poder pela ideologia dominante que possui interesses muito particulares distantes da coletividade, poderiam ser revistos, repensados, questionados e reestruturados pela concretização da mão-de-obra de jovens conscientes e comprometidos com sua ação no mundo através do trabalho.
Para tanto, cabe dotá-los de condições para que reconheçam tais determinantes, favorecer a construção do jovem protagonista, que tem sua importância no presente e não só no futuro quando ingressará no mercado de trabalho, e ainda com o legado de superar todas as dificuldades reservadas à sua condição de distanciamento da realidade concreta, condição fomentada pelas
vontades e imposições de uma classe, da qual também faz parte, mas da qual não está plenamente permitido a participar e construí-la ativamente.