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1.3 Summary of gaps and recommendations

1.3.3 Current description

A apresentação dos procedimentos envolveu três etapas: a constituição do corpus, a construção da grade de análise e sua aplicação, a sistemática da análise e organização dos resultados.

O corpus é o conjunto de documentos sobre o qual se efetua a análise. Para esta tese o corpus é constituído da transcrição em textos de discursos captados a partir de entrevistas semiestruturadas realizadas com quatro negros, titulados mestres, - duas mulheres e dois homens – (preto/as e/ou pardo/as), residentes na cidade ou região metropolitana de São Paulo, filiados à ABPN, sobre suas trajetórias educacionais até o mestrado, bem como de informações dos respectivos currículos localizados na Plataforma Lattes.

A escolha do corpus teve como intuito, dar visibilidade aos pesquisadores negros da pós-graduação sobre suas trajetórias educacionais. A titulação de mestre se justifica pela evolução do número de programa de mestrado e títulos concedidos no país, bem como no Estado de São Paulo60. Embora os números sejam expressivos, o mesmo não se pode dizer com relação à categoria cor/raça.

Mas, para chegar ao corpus foi necessário percorrer um longo caminho de buscas e tomada de decisões. Para a seleção de nossos entrevistados, era nossa intenção recorrer inicialmente ao “Catálogo ABPN de docentes universitários”, onde constam informações de seus pesquisadores por regiões brasileiras. Tal escolha deveu-se a quatro fatores associados ao Catálogo da ABPN: pesquisadores; homens/mulheres; região de origem; titulação. Apesar desses argumentos favoráveis à escolha do Catálogo, encontramos dificuldades no que se refere ao título do mesmo (docentes universitários) que não se encaixou na categoria que procurávamos (mestres). Diante deste cenário, nossa atenção voltou-se para alternativas.

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No ano de 1965, o Conselho Federal de Educação (CFE) identificou a existência de apenas 27 programas. Em 1975, já existiam 429. Em 1996, o número desses programas chegou a 1.187. A expansão continuou ao longo dos anos seguintes, apresentando um crescimento de 126% entre 1996 e 2009, quando o número dos programas chegou a 2.679. Segundo o Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE, 2012) foram concedidos 332.823 títulos de mestrado stricto sensu no Brasil no período 1996-2009. Somente no Estado de São Paulo, 155.834, representando, 30,14% do total da população de mestres no país (CGEE, 2012). A Extração de dados da base de Currículos Lattes em 31/01/2015 aponta 329.621 mestres cadastrados, sendo 74.360 no Estado de São Paulo. Mas sem informações disponíveis sobre a cor/raça dos pesquisadores brasileiros cadastrados.

Uma opção encontrada seria realizar a pesquisa a partir de informações que constavam no site da Associação (associados da região sudeste), datado de 31/08/2009 e atualizado em 4/06/2010. Porém, ao revisitarmos o site da associação em 27 de julho de 2014, observamos que esses dados não estavam mais disponíveis.

Outra alternativa seria a consulta ao banco de castrados da ABPN, que disponibilizava cadastros de pesquisadores, mas o mesmo não estava disponível na ocasião da consulta, em julho de 2014. Assim, entramos em contato com representantes da Associação, mas obtivemos a informação de que o banco de currículos havia sido temporariamente desativado, o que inviabilizava o acesso ao cadastro.

Diante do exposto, optamos por outro caminho para obter acesso ao cadastro da Associação. A ABPN forneceu uma lista com 30 pesquisadores de diversas titulações no Estado de São Paulo, sendo oito titulados mestres aos quais apresentamos nossa proposta de estudo. Para tanto foi redigido um comunicado com o seguinte texto:

Você está sendo convidado para participar de uma pesquisa de doutorado cujo objetivo é descrever e interpretar discursos proferidos por mestres, autodeclarados negros (pretos e/ou pardos), residentes na cidade ou região metropolitana de São Paulo, e associados à ABPN sobre trajetórias educacionais, bem como sobre as barreiras enfrentadas e os apoios recebidos relacionados à sua pertença racial para terem terminado o mestrado. O autor é Marcos Antonio Batista da Silva, doutorando em Psicologia Social do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social (PUC-SP). Esta pesquisa acontecerá a partir de entrevistas individuais semiestruturadas. Caso você se autodeclare negro (preto ou pardo), de acordo com as categorias do IBGE e aceite participar da entrevista, peço que retorne o contato por e-mail, informando sobre a disponibilidade. Entrarei em contato em curto prazo para discutirmos os possíveis agendamentos. Desde já agradeço sua colaboração. Marcos Antonio Batista da Silva - Doutorando em Psicologia Social – PUC- SP, [email protected].

Dos oito comunicados enviados recebemos quatro retornos. Os outros quatro mestres convidados para participarem da pesquisa não responderam ao e-mail enviado. Assim, foram selecionados os respondentes dos quatro e-mails enviados, que expressaram o desejo de participação e correspondiam ao perfil proposto (homens e/ou mulheres, negros, residentes na cidade ou região metropolitana de São Paulo).

Definido o corpus entrei em contato com os entrevistados selecionados para agendar as entrevistas, as quais ocorreram de acordo com as disponibilidades dos mesmos, ou seja, deixei a cargo dos entrevistados a escolha do local, dia e horário de melhor conveniência.

Os procedimentos da entrevista consistiram em: apresentação do pesquisador; entrega do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE); a leitura do Termo

pelo entrevistado. Logo após a concordância do entrevistado solicitei a assinatura em duas vias do TCLE, assim, entreguei uma delas para o entrevistado e fiquei com a outra. Coloquei-me à disposição dos entrevistados para responder às indagações acerca do procedimento, caso os tivessem.

Todas as entrevistas foram gravadas com o consentimento dos entrevistados, o nome próprio foi mantido por orientação de três deles. Um entrevistado optou por não ser identificado, assim adotamos um nome fictício. As entrevistas seguiram um roteiro pré-estabelecido apresentado a seguir:

§ Dados pessoais do entrevistado: Qual a sua idade? Qual é a sua naturalidade? Qual é o seu munícipio de nascimento? Qual é o seu estado civil? Qual é a sua cor/raça, de acordo com a categoria do IBGE? Por que você se classifica assim? Qual a sua área de formação? Qual é a sua ocupação? Você estuda atualmente? Caso sim, Qual o curso? Qual área do curso? Você participa ou participou de algum programa de ação afirmativa?

§ Currículo Lattes: Você possui Currículo Lattes? Você atendeu a solicitação da Plataforma Lattes para preencher autodeclaração de cor ou raça, no Currículo Lattes? O que você pensa sobre a inclusão da categoria cor ou raça no Currículo Lattes?

§ Trajetória familiar: Você poderia falar um pouco sobre as suas origens? Seus pais, sua família, sua infância e adolescência. Você poderia falar um pouco da sua trajetória educacional até a universidade, o mestrado? Eu gostaria de conhecer um pouco mais a sua trajetória educacional. Fale um pouco sobre o relacionamento com os professores e colegas, e o desempenho escolar. Quais foram às estratégias que você utilizou para terminar o mestrado? Você teve algum tipo de apoio para terminar o mestrado? Caso sim, quem apoiou? Você teve que superar barreiras para terminar o mestrado?

§ Raça e racismo: As instituições em que você estuda/estudou discutem/discutiam sobre a questão do negro na sociedade brasileira? O que você pensa sobre as politicas de ação afirmativa no Brasil? O que você pensa sobre a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Qual é a sua concepção de raça? Qual a sua concepção de racismo?

§ Desigualdades educacionais: Quais intervenções você considera que podem contribuir para diminuir as desigualdades educacionais entre negros e brancos? § Pesquisador (a): Você se considera uma pesquisadora? Gostaria de ouvi-la

sobre o que é ser uma pesquisadora, e uma pesquisadora negra no estado de São Paulo, e no Brasil.

§ Outros: Como foi para você participar dessa pesquisa? Você gostaria de acrescentar algo à entrevista?

Concluído o processo introdutório, iniciamos as entrevista, que poderiam ter sido interrompidas pelos entrevistados a qualquer momento, se assim o desejassem. Ao término, agradeci a eles pela contribuição à pesquisa. Assim, esta pesquisa contribui para a constituição de um campo de estudos, dando visibilidade ao tema das relações raciais e desigualdades sociais no contexto da educação brasileira, e voz aos entrevistados.