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Chapter 4. Theoretical and Conceptual orientation

4.1 Culture and international management

Abordamos aqui a Peregrinação de Barnabé das Índias como obra exemplar para o estudo de Vasco da Gama enquanto tema, cuja composição mantém uma interlocução entre a narrativa literária e a narrativa histórica. A singularidade dessa obra reside no uso do arquetípico da narrativa mítica que é vivaz no inconsciente coletivo dos portugueses, elaborando dessa forma uma memória onírica que esteve sempre presente tanto na produção histórica, quanto na produção literária acerca desse episódio. No romance, é evidente que as mentalidades dos personagens históricos fazem a narrativa cruzar espaços mais subjetivos e mais populares de representação.

A recriação encetada pelo romance aponta para o preenchimento de vazios e lacunas deixados pela extensa tradição de obras que recorreu a esse tema. Nesse vazio, a subjetividade ganha força por meio da manifestação do maravilhoso que, por sua vez, contribuiu para danificar a imagem de reis e capitães e exaltar a figura de Barnabé, um dos cozinheiros da expedição. Esse eixo representativo revela muito da originalidade e da genialidade de Mário Cláudio e permite que nossa análise, sem sair da essência crítica de sua geração de escritores, não seja equivocadamente interpretada sob o funcionamento de estratégias narrativas que apontam somente uma construção de sentenças antitéticas, formando as tradicionais paródias e ironias em detrimento do discurso oficial.

Como destacamos ao longo do capítulo anterior, vimos que na Peregrinação de

Barnabé das Índias esse estágio de representação da memória portuguesa imersa em

mitos é atingido para iniciar, porém, a representação de uma lenta e gradual transformação dialógica na forma e no conteúdo do texto literário que reescreve essa memória onírica da tradição. O delicado traçado de Mário Cláudio que faz atuar os personagens na linha imaginária dos bestiários para posteriormente substituí-la por uma

165 representação mais centrada em sua negação, revela a dimensão da experiência do sujeito, como a de Barnabé, contra qualquer forma de mitologia.

Nessa estratégia semântica, o maravilhoso que atua sobre o imaginário da tripulação é significativa em termos de memória e identidade porque implica, sobretudo, em um reposicionamento historiográfico, pelo viés cultural do tratamento do episódio histórico em questão, um reposicionamento literário, pela forma complexa que sua narrativa manifesta tais imaginários, e, por último, um reposicionamento sociológico, pelo alto teor crítico em que a presente imagem da nação é colocada, pois tudo se passa como se estivéssemos cegos, acostumados ao mundo que nos circunda, enquanto a verdadeira vida está ausente. Mas, se a verdadeira vida nos escapa nas estradas da existência, ela poderá ser reencontrada sob o signo da memória.

E é exatamente pelos percursos da percepção e da memória que a literatura esquematiza e reaprende a ver o mundo. Nela a vida não é representada sob o signo do entendimento, mas de imagens ou metáforas que possibilitam lançar novas luzes sobre o mundo. Temos com isso, a realização dessa viagem mediante a apropriação e reinvenção de Vasco da Gama como um personagem intenso, crítico e repleto de contradições ideológicas. Tal personagem é submetido a certas visões maravilhosas das quais não consegue se desprender, modificado desse modo o caráter positivo das funções do maravilhoso proveniente do texto épico tradicional.

Desse modo, para alcançar a travessia de oceanos menos fantasiosos revela-se através do personagem Barnabé a construção de outro tipo de peregrinação. Inicialmente, sua viagem é marcada pelos espaços da subjetividade, da psicologia e do imaginário maravilhoso como toda tripulação. Vimos, contudo, que há em Barnabé um movimento de negação gradual desses fascínios míticos e sobrenaturais, fazendo da sua peregrinação uma profecia que figura a reposição de seu olhar em face dos símbolos da tradição épica glorificadora da nação.

Vimos ainda que a representação desse maravilhoso não opera somente em função de apresentar imagens sobrenaturais pertencentes à cultura de variados grupos. Sua manifestação requer, também, formas específicas de representação, cujo acabamento verbal adquire suporte em discursos homogêneos variados. Esse imaginário, portanto, proveniente de formas anteriores de representação, age no sentido de empreender inicialmente no texto um discurso homogêneo para transformá-lo, posteriormente, em um discurso heterogêneo e dialógico que no romance é sedimentado pelas experiências determinantes de Barnabé, negando as fantasias que lhe pregavam as

166 autoridades antigas.

Ademais, averiguamos essa questão através do estabelecimento dos aspectos sobrenaturais da tradição como convenção literária a partir do iluminismo. Em oposição a essa convenção, vimos também que o mito foi tomado como fenômeno literário diferenciado a partir do século XX, representando uma tomada de consciência da crise da cultura burguesa que se encontrava frustrada com o racionalismo positivista e com o evolucionismo erigido gradualmente durante toda a Idade Moderna. Essa retomada pôde aqui ser verificada no caso específico de Portugal, onde o mito também surge como representação de uma crise cultural, se readequando, muitas vezes, a um ―contradiscurso‖ que se autodestrói mediante a necessidade de reavaliação da representação da cultura e identidade nacionais.

Na contemporaneidade, ―persiste essa mesma problemática no centro da dramaturgia cultural portuguesa‖ (LOURENÇO, 1999, p. 125). Grande mediador dessa causa é o romance português que, por sua vez, a partir da década de 1980, tem como finalidade principal o contrabalanceamento dessa memória épica institucionalizada há séculos, aproximando-a sempre a outras possibilidades mais críticas de compreensão e representação cultural.

Nesse fim de século, inundado pela vaga cultural ―de todas as formas de irracionalismo ou de obscurantismo triunfalistas, recalcada ou contrariada durante séculos pela exigência de um espírito crítico, [...]. uma evocação do destino português em perspectiva mítica ou mitológica seria uma afronta ao conformismo universal.‖ (LOURENÇO, 1999, p. 92). Com base nesse ―conformismo universal‖, as maravilhosas errâncias dos portugueses apontam uma contínua sociedade em ruína, representada no romance por um narrador que conta a viagem de Vasco da Gama no final do século XX e ainda se mostra encantado pelo mesmo nível de magicações e monstruosidades que perturbavam a mentalidade dos navegadores dos séculos XV e XVI.

Para Mário Cláudio é no domínio da estética e através da mediação entre as obras de arte e o sujeito, que o indivíduo pode se transformar em plenamente humano e manter-se, assim, no nível desse gênero de maneira autoconsciente. Toda essa questão entre vida empírica e sentido nos remete para a compreensão de que se uma vida mais humana é impossível, essa impossibilidade é compensada pela vivência propiciada pela arte e especificamente pela literatura.

Fixa-se, desse modo, um passado ficcional determinado por uma imaginação em que o real é deturpado. É partindo desse problema de mentalidade que chegamos ao

167 nível mais sociológico da obra, em que persiste na atualidade certa anulação do presente em prol ainda da representação mitológica do passado. Em face desse problema é que a

Peregrinação de Barnabé das Índias melhor se corresponde com o seu contexto, em

uma narrativa que acompanha o pedagógico livramento de Barnabé do sítio onírico no qual os portugueses se sentiam e ainda se sentem confortáveis.

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