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6 Representation, consultation and mobilization

FIGURE 1: ILLUSTRATION OF THE PROPOSED PHED

6.3 Cultural and environmental impacts

espaço que os traduz, a sensação de pertencimento é essencial (FLORISSI; LEITE, 2008, p. 59)134.

O aparecimento de novas formas de significação das identidades e a sensação de pertencimento e de diálogo são dados pelos fragmentos dos espaços nos quais residem os vetores de interação, conformando seu enraizamento dinâmico. Em qualquer caso, o mais importante é o imaginário de uma convivência não institucionalizada, ligada a um local (ou vários), fundamental por assegurar a circulação das emoções, dos afetos e dos símbolos: “um lugar que faz laço, constrói e se dissemina na multiplicidade de metrópoles contemporâneas” (FLORISSI; LEITE, 2008, p.60). Posto isso, explicitamos que, tal como os lugares, os estilos configuram formas de agregação societal.

2.3.1 A moda de rua como tribalismo

Erner (2010) explica que a sociedade é um mosaico de comunidades baseada em relações sociais, motivadas ou não , mas o termo “comunidade” permanece de toda forma polissêmico e fonte de diferentes interpretações, pois agrupamentos diversos têm sido chamados de comunidades, sejam conjuntos habitacionais, bairros, vilas, vizinhanças, cidades, segmentos religiosos ou sociais, redes de relacionamentos na internet, entre outros, e com outras nomenclaturas: tribos urbanas, comunidades virtuais etc.

Em seu sentido mais comum, costuma-se classificar comunidade como unidades sociais que vivem em áreas geográficas limitadas, com os mesmos objetivos, que interagem e comungam da mesma realidade ou se identificam com experiências semelhantes, além de caracterizar-se pelas instituições criadas para satisfazer às suas necessidades e ter um senso comum de integração (QUESADA, 1980). Enquanto a sociedade é de ordem racional, Tönnies (1995) elucida que a comunidade baseia-se em relações sociais (seja em função do território, da

134 Tradução livre da autora do trecho: “Aujourd’hui, alors que la recherché de l’individualité est exacerbée par

l’expression individeulle, le besoin d’espaces où cette expression est exposée et partagée augmente aussi. Peut-être cette exposition est-elle amenée par le besion de se sentir proche des individus avec lesquels on partage la même langage. De cette façon, il existe un dialogue, une communication – “nous nes sommes pas seuls!”. Les espaces urbains sont des espaces de l’expression sociale par excellence et la mode un canal de communication. Dans ce dialogque entre les individus d; un groupe et l’espace qui les traduit, la sensation d’appartenance est essentielle” (FLORISSI; LEITE, 2008, p. 59-60).

105 língua, etnia, crença, profissão), em uma vida real, ao direito natural e até a uma vontade comum: “aonde quer que os seres humanos estejam ligados de forma orgânica pela vontade e se afirmem reciprocamente, encontra-se alguma espécie de comunidade” (TÖNNIES, 1995, p. 239).

Entretanto, na sociedade contemporânea, as noções tradicionais, como espaço, têm sido questionadas, também em função das complexas realidades e dos avanços tecnológicos e socioculturais. Consideramos abordagens que têm evitado tentar formular um modelo estrutural de comunidade, e concentram-se, em vez disso, no significado. Para Palácios (1991), a territorialidade assume novo sentido, na medida em que a comunidade proporciona aos seus membros um senso de identidade, a partir de um sentimento de pertencimento.

A comunidade “[…] deve ser vista como toda forma de relação caracterizada por situações de vida, objetivos, problemas e interesses em comum de um grupo de pessoas, seja qual for a dimensão desse grupo e independentemente de sua dispersão ou proximidade geográfica. […] Uma comunidade também é uma identidade coletiva. É uma maneira de dizer quem nós somos” (PALÁCIOS, 1991, p. 18-19).

A noção de comunidade, nessa via, sendo da ordem do afeto, se aproxima ao entendimento de tribo, do latim “tribus” (“one of the three tribes of Rome” – uma das três tribos de Roma), conceito que pressupõe um grupo coeso de indivíduos com interesses ou costumes comuns. Nesse entendimento, a noção de tribos de estilo se aproxima ao conceito de subcultura, porque o estilo tem papel de elemento agrupador na vida dos indivíduos (BOLLON, 1993; POLHEMUS, 1994).

Bollon privilegia uma perspectiva militante e contracultural. Segundo o sociólogo (1993, p. 124), “sempre existiram indivíduos que se expressaram através de um estilo e que, rompendo com as normas socialmente aceitas, insurgiam-se contra a visão dominante de sua época”. O autor fala em movimentos, o que nos leva a: a) avaliar a “dimensao imagética presente na ideia de estilo enquanto marca, configuração de um traço identitário através de uma forma, apresentando a força da aparência e, sobretudo, da composição do look, desse ato de se dar a ver” (CIDREIRA, 2005, p. 126); b) por outro, a pensar que o estilo é identidade em processo e que sua constituição é a manifestação da(s) identidade(s) enquanto exercício dessa dinâmica,

106 dessa maleabilidade que se exibe numa forma exterior (quer dizer, a subjetividade e a identidade se revelam enquanto estilo).

Em contrapartida ao período medieval em que se seccionavam as coisas pela materialidade e pelo território e, ao contrário da estabilidade sugerida pelo tribalismo clássico das tribos de estilo supracitadas, na contemporaneidade, os grupos sociais são demarcados, sobretudo, em termos simbólicos. Ou seja, é o sentimento de pertença, os valores e as práticas, dinâmicas que levam a uma forma societal. Nesse caso, o neotribalismo defendido por Maffesoli (2006) tende a ser mais adequado para situar certas formas simples de sociação, caracterizadas por juntamentos pontuais, contornos indefinidos, fluidez e dispersão. Esse contexto afetual retrata “o tempo das tribos” como espetáculo da rua nas megalópoles, nos quais “o adepto do jogging, o punk, o look rétro, os ‘de bom-tom’, os animadores públicos nos convidam a um incessante travelling” de identificações, conforme elucida Maffesoli (2006, p. 132).

Constatamos que os indivíduos estão cada vez mais ligados pela cultura, pela comunicação, pelo lazer e pela moda, o que não deixa de ser uma comunidade. Trata-se de uma processualidade da realidade social, segundo o autor, cujos laços são mantidos por situações oportunas e dinâmicas. “Daí a metáfora: dinâmica da tecelagem, e estática do tecido social” (MAFFESOLI, 2006, p. 140). O conceito de tribalismo evidencia esse vai-vém constante que se estabelece entre a massificação crescente e o desenvolvimento de micro-grupos na sociedade, ressaltando o sentimento de pertença dessas relações. Para o sociólogo, os sujeitos, ao executar diferentes papéis no cotidiano de suas atividades, podem existir em grupos por afinidades e preferências (ainda com mais liberdade de viver e criar novas personas como queiram no ciberespaço, assim como pertencer a vários grupos, mesmo dissonantes).

As condutas individuais “tornaram-se cada vez menos limitadas socialmente, cada um tendo liberdade para compor e recompor suas orientações e modo de vida através da oferta crescente de referências” (LIPOVETSKY, 2004b, p.71) e produtos em função do consumo de massa e da cultura hedonista vinculada ao presente e a uma lógica da sedução. A volubilidade dos indivíduos é compatível com a volubilidade da moda, pois sua lógica pressupõe sujeitos maleáveis como ela e, nesse ponto, o campo contribui para socializar os indivíduos na mudança, preparando-os para a reciclagem permanente.

107 Maffesoli (2006) argumenta que a moda é elemento fundante, pois, mudando o seu figurino, a persona vai, de acordo com seus gostos (sexuais, culturais, religiosos, esportivos, de estilo), assumir o seu lugar, a cada dia, num continuum, dentro ou fora da web nos grupos. Como as cidades pós-modernas, as pessoas são dinâmicas e em perpétua ebulição. “Circulam de um grupo ao outro a fim de exercer a pluralidade de suas máscaras, de onde a agitação multifacetada aprofunda ainda mais a vida urbana135”, segundo Maffesoli (1990, p. 220).

Nesse viés, compreender o street-style como tribalismo, corresponde também a situá-lo no âmbito da sensibilidade de uma época, como uma perspectiva social que distingue novas linguagens estéticas e visuais comunicando algo novo e, também, incluindo e qualificando sistematicamente pessoas em torno de gostos, afinidades comuns e novas práticas. O street-style digital é, de alguma forma, um novo tribalismo, como imitação, reconfiguração e reprodução de estilos de vida multifacetados a partir das ruas.

A questão pressupõe uma estrutura íntima entre consumismo e hedonismo: uma mudança estruturada no princípio tanto da economia material como da economia psíquica. Ao mesmo tempo em que envolve grupos de consumidores, contempla questões que envolvem a subjetividade dos sujeitos, a autoestima, o lazer, o prazer espiritual. Os indivíduos, hoje, não resistem às solicitações externas do consumo, tampouco aos impulsos internos. Há, nesse contexto, uma lógica de consumidores que passaram a valorizar cada vez mais a autenticidade, o estilo e, por conseguinte a moda, já que é a oferta desse sistema que traz variações ao estilo. É sobre o que tratamos no próximo tópico.