A literatura comparada surge na América Latina em razão de uma incompletude. Em um ensaio titulado Literatura Comparada Antônio Candido (2004c, p229) afirma que "estudar literatura brasileira é estudar literatura comparada". Candido se refere à necessidade dos escritores brasileiros de buscar modelos fora do pais, principalmente na literatura europeia. Esta busca está relacionada com a consciência de que, ao sermos países dependentes, somos incompletos e atrasados.
Para Ángel Rama (2008) a literatura latino-americana é uma resposta criativa dada pelos intelectuais à situação de dependência econômica da região. Nossa literatura tem que lidar com um contexto social onde a modernidade não termina de se completar. O impasse é permanente23. A literatura europeia funciona então como modelo e complemento. Complemento porque expressa uma modernidade que por aqui está chegando de forma problemática. Lukács (1965a, p.167) analisa esta situação de complementaridade entre literaturas nacionais quando estuda a recepção da obra de Tolstoi na Europa Ocidental na segunda metade do século XIX. Tolstoi é bem recebido na França e na Inglaterra, quando a decadência do grande realismo se aprofunda nestes países, porque ele mostra a vigência da atitude realista no tratamento dos problemas do seu tempo, atitude que a literatura ocidental europeia estava perdendo. A literatura comparada funcionaria assim, pensada desde o realismo, como um espaço onde os leitores buscam em produções de outras literaturas, atitudes similares ou que não encontram na produção do seu próprio país. É interessante ver que Tolstoi também foi modelo para a primeira grande escola do realismo argentino, o grupo Boedo com Roberto Arlt como principal representante. Com respeito ao diálogo entre nossas literaturas Antonio Candido (1989) considera que o maior ponto de contato entre os intelectuais latino americanos tem a ver com o grau de consciência alcançado sobre a condição periférica. Ana Pizarro (2004, p.111) identifica grandes espaços de intercâmbio e de produtividade entre o Brasil e os países hispano americanos. Estes espaços são produtos de
23 Para uma discussão mais ampla sobre o tema Ver a este respeito o trabalho de PILATI. A condição de autor periférico em
Ferreira Gullar. Tese de Doutorado disponível em: http://www.alexandrepilati.com/blog/wp-content/uploads/2010/03/a- condi%C3%A7%C3%A3o-de-autor-perif%C3%A9rico.pdf. 2008
coincidências mais do que contatos efetivos. Existem, segundo a autora, centros de produção simbólica comuns (os grandes centros urbanos, as regiões interiores), que articulam processos próximos; que vão formando operações culturais na direção de um território comum de imaginários.
"...núcleos de productividad simbólica que articulan la producción en ambos bloques, incorporando tensiones propias de nuestra cultura en su condicionamiento periférico. Su funcionamiento organiza sus mecanismos y sus operaciones generan espacios de especificidad estética. Es lo que otorga un sentido de “unidad” a la relación entre los espacios culturales hispano y lusitano, unidad que es en realidad articulación, paralelismo, convergencia. Pero es también el marco en donde se ponen en evidencia las divergencias y las disparidades...” (PIZARRO, 2004, P.112)
Neste território comum de imaginários é onde pretendemos entrar neste último capítulo do estudo, tentando aproximar as leituras críticas dos dois romances. Recentemente alguns autores como B. Abdala Junior (2003) destacam o papel da crítica nessa aproximação. Para o autor os estudos contrastivos fortaleceriam o que ele chama de literatura da Solidariedade. Seria uma forma de enlaçar carências e similaridades históricas:
“...é necessário pois que descentremos perspectivas: vamos observar as nossas culturas de um ponto de vista próprio...”(ABDALA, 2003, p.67).
Veremos a continuação alguns tópicos contrastivos relacionados à análise crítica nos dois romances.
5.1.1 Semelhantes e diferentes. Alguns elementos para uma comparação
Antonio Callado e Juan José Saer abordam literariamente realidades ao mesmo tempo parecidas e diferentes. Eles nos revelam esteticamente uma das épocas mais difíceis da história da América do Sul: o período das ditaduras.
Os pontos de contato são muitos e de relevância variada. Em primeiro lugar vou destacar que os romances analisados têm uma natureza experimental, que se afasta da lógica narrativa e que é contraditória, o que os aproxima do conceito de Literatura do Contra tal como apresentado por Antonio Candido. Esta característica, além de ser uma tendência neste
período, domina a literatura latino-americana como um todo. Cornejo Polar (apud PALERMO, Z, 2002.p.1) afirma que a literatura de países periféricos tende para o plural porque a sociedade que a produz é complexa. O texto literário “entrama” literariamente os discursos da sociedade, e da conta das diferenças e contradições, das tensões. Neste sentido eles são uma imagem completa do mundo e de uma época, como pensava Lukács (2011, p.36), a imagem de um mundo catastrófico, decadente, e de uma derrota.
Enquanto aos elementos compositivos, ambos textos estão ambientados no interior profundo dos dois países: Brasil e Argentina. O interior da periferia é lugar do atraso, e é o lugar onde as contradições são mais fortes. Esta característica tem uma significação diferente em cada um deles.
Outro aspecto em que encontramos coincidências é no tratamento particular do tempo. O fluxo temporal aparece alterado. Há paralisações, idas e voltas no tempo. Em Nadie Nada
Nunca o tempo é visto como um eterno presente (uma espécie de paralisia toma conta do relato e a história entra numa circularidade que compromete o desenvolvimento da ação). Em
Sempreviva há uma detenção parcial do tempo na primeira parte, uma espécie de longa espera para a execução da vingança e a reviravolta final. Esta quebra da linearidade compromete a ação nos romances. Um panorama sombrio de derrota e de catástrofe unifica também os dois textos. A narrativa se estagna em vários momentos. Em Sempreviva a trama demora a arrancar, o medo a indecisão de Quinho, leva a um desenvolvimento vagaroso do relato. Em
Nadie Nada Nunca o relato parece girar sempre em torno do mesmo.
Ambos os romances nos trazem, portanto, uma derrota. A derrota de projetos igualitários de país, mas o lugar da esquerda nos romances é diferente. A esquerda que ainda tem esperanças em Sempreviva, aparece como animalizada e ausente, em suspense em Nadie
Nada Nunca. Estas duas realidades parecem mostrar duas formas diferentes de pensar a derrota em cada um dos romances. Também problematizam de forma diferente a relação entre a consciência subjetiva e as condições objetivas de realização de um conjunto de ideias.
Com respeito aos personagens há um contraste entre os que têm um alto grau de consciência da situação (torturadores, assassinos, militantes de esquerda), e os que aparentam indiferença ou desconhecimento do lugar e da situação histórica na que se encontram (o povo). No primeiro grupo temos os que agem guiados por uma razão cínica (Juvenal Palhano em Sempreviva, o assassino de cavalos em Nadie Nada Nunca). Os dois se valem da
impunidade e da falta de justiça, uma espécie de caos irracional, onde o que domina é a astúcia para dominar e eliminar o adversário.
A categoria da ação, que unifica os interesses humanos à possibilidade de concretizá- los, está comprometida nos romances. A prosa perde a lógica narrativa, aparecem vários narradores e nenhum deles, em princípio, consegue restabelecer o relato. Porém alguns narradores em primeira pessoa (o narrador empolado, poeta barroco associado a Juvenal Palhano, e el Gato Garay quando oficia de narrador em primeira pessoa em Nadie Nada
Nunca), revelam dissimuladamente um controle da situação e da trama. Porém estes narradores, a diferença daqueles do romance burguês decimonônico, não tem uma postura épica, ou seja, que esteja pensada em função de uma comunidade. Defendem interesses particulares e mesquinhos.
Com respeito à forma de vivenciar o mundo por parte configuração dos personagens, temos algumas diferenças fundamentais nos dois romances. Enquanto em Sempreviva temos intermitências entre uma vivência chamada de trágica e uma plenitude épica principalmente no personagem Quinho, em Nadie Nada Nunca uma negação da ação toma conta do relato levando-o a uma quase dissolução da forma conhecida como romance.
Enquanto aos elementos que se contrapõem a esta estagnação e que mostram alguma perspectiva de saída desta situação ou de retomada do relato, eles são diferentes nos dois romances. Em Callado temos a consumação da vingança como uma esperança de justiça por parte da esquerda principalmente, e a figura de Herinha como a vingadora e como uma promessa de futuro. Outro elemento que tenta dar fluidez estética ao romance é a retomada de alguns traços da tradição literária (o pessimismo machadiano, a elaboração literária de três elementos: o homem, a terra e a luta de Euclides da Cunha) como uma forma de relocalizar o relato dentro da história (literária em princípio). Em Saer a centralidade do texto, do retrabalho textual, o recontar desde diferentes pontos de vista chamam a atenção para o trabalho intelectual e principalmente dos intelectuais, e sua responsabilidade neste momento de impasse. Aos intelectuais, não só por serem o setor pensante da sociedade, mas também por terem saído menos machucados, terem conseguido se resguardar (no exílio, na clandestinidade), cabe o comando no processo de saída do caos e da destruição e a través deles, aos leitores, ou àqueles que compartilham esse espaço de produção livre que é a arte, ainda capaz de se opor à imobilidade.
A continuação procederemos a ampliar estes comentários comparativos.