Historicamente, práticas econômicas cooperadas e autogestionadas, segundo Motchane (2003), têm raízes na idade média, quando eram percebidas práticas que correspondem ao que hoje denominamos de EcoSol. Por volta do século XIII, as guildas, confrarias e corporações de ofícios constituíram formas remotas de autoajuda, de organização do trabalho solidário. Tais práticas passaram a ser mais fervorosamente discutidas como uma alternativa social à exploração dos trabalhadores no mundo a partir da ascensão de uma nova classe burguesa, em face da expansão econômica e das mudanças no mundo do trabalho.
Conforme Santos (2002), a intenção de construir alternativas, em razão das consequências excludentes do capitalismo, com base em teorias e experiências de associação com fins econômicos entre iguais e em produção solidária, não é um anseio novo. As ideias e a prática cooperativista moderna são contemporâneas ao próprio capitalismo industrial. As primeiras cooperativas foram criadas aproximadamente em 1826, na Inglaterra, como reação à difusão da pauperização decorrente da conversão em massa de camponeses e pequenos produtores em empregados das primeiras fábricas do capitalismo industrial. Ainda em 1844 foram fundadas cooperativas de consumidores em Rochdale, na Inglaterra, onde outras foram instituídas e serviram de modelo para o cooperativismo contemporâneo. O objetivo, na época, foi resistir à miséria derivada dos baixos salários, bem como contestar as condições de trabalho insalubres e perigosas às quais os indivíduos eram expostos. Buscou-se, assim, por meio do agrupamento para a produção coletiva disponibilizar bens de consumo baratos e de boa qualidade aos trabalhadores.
O surgimento de uma classe proletária, produto da Revolução Industrial, ocorrida entre o fim do século XVIII e início do XIX impôs transformações nas relações sociais: as décadas de 30 e 40 do século XIX, particularmente, foram marcadas por uma profunda crise decorrente da transformação do trabalho corporativo em concorrencial (SINGER, 2000). Em paralelo e de forma reativa, foram criadas sociedades de socorro mútuo, balcões alimentícios e cooperativas de produção, por iniciativa dos operários e artesãos, em virtude das poucas possibilidades de ascensão profissional face à dificuldade de mobilidade entre classes sociais impostas pelos burgueses, interessados
em manter uma hierarquia rígida na distribuição do capital e das funções na sociedade. Portanto, as iniciativas de agrupamento de trabalhadores assumiram o propósito, inicialmente, de amenizar os sofrimentos trazidos pelos acidentes, pelas doenças e pelas mortes que assolavam os trabalhadores, submetidos a ambientes insalubres e a jornadas exaustivas, mas também tinham o condão de criar resistências às imposições às quais eram submetidos.
O autoritarismo dos detentores dos meios de produção, por sua vez, reprimiam as organizações obreiras, criminalizavam reuniões de trabalhadores, a fim de gradativamente dissolvê-las (LECHANT, 2002, p. 5), para enfraquecer a coalizão entre os operários. Este contexto de ações e reações semeou o surgimento das ideias acerca do que hoje se denomina de economia solidária.
Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier (SOUSA, 2015), contemporâneos, foram responsáveis por lançarem as bases das ideias de cooperativismo e autogestão, que se propagaram ao longo da história, sobretudo por terem sido referências para as propostas de Karl Max e Friedrich Engels.
O primeiro, Owen, era um industriário britânico, filho de artesãos, que começou a trabalhar aos dez anos de idade, como alfaiate. Entendia que o caráter humano era decorrência não só dos vínculos biológicos ou hereditários, mas do meio, ou seja, das condições locais do ambiente em que o indivíduo teve acesso no seu processo de formação. A partir dessa premissa, defendeu a adoção de práticas sociais que prestigiassem a qualidade de vida humana, o investimento na saúde dos trabalhadores e vínculos de cooperação social. Segundo ele, tais valores viabilizariam a superação dos desarranjos humanos e sociais implantados pela economia capitalista, na medida em que seriam estratégias de superação da desigualdade social decorrente da difusão do capitalismo, que se propagou com base na ideologia de que todos teriam liberdade para ascender socialmente, embora a história tenha demonstrado que um percentual irrisório da sociedade mundial tenha confirmado esta hipótese (LESSA, 2013).
Após uma bem sucedida trajetória profissional, Owen passou a ser detentor de meios de produção e tentou praticar as propostas sociais que defendeu durante a sua vida. Reduziu a jornada de trabalho dos seus empregados, além de ter construído moradia para as famílias dos seus operários e escolas para seus dependentes, vez que entendia a educação como uma prioridade. Foi o criador da primeira cooperativa de que se tem notícia no mundo, onde eram vendidos produtos de boa qualidade a preços módicos, o que fez com que fosse alcunhado como “o pai do cooperativismo”. Defensor
de uma ampla reforma pública na produção britânica, migrou para os Estados Unidos da América e fundou uma colônia socialista que terminou não subsistindo como uma experiência exitosa (SINGER, 2002).
Na mesma perspectiva, Charles Fourier teceu duras críticas às práticas empresariais burguesas e defendeu uma sociedade sustentada por ações cooperadas, na qual o talento e o prazer individual permitissem a construção de uma comunidade bem- sucedida. A sociedade burguesa, tipicamente caracterizada pela produção em massa, com linhas de produção que exigiam trabalhos repetitivos e padronizados, era o oposto das propostas de Fourier. Além do mais, ele defendia ideias inovadoras no mundo do trabalho, como, por exemplo, ao assumir publicamente a perspectiva de que não deveria haver distinções que diferenciassem os papéis assumidos entre homens e mulheres (UFCG, 2015).
Entendia que o cooperativismo, aliado à vocação e à liberdade de escolha seriam requisitos indispensáveis para a sociedade criar condições para o alcance do socialismo, quando, segundo Fourier, haveria uma comunhão entre os indivíduos de maneira plena. Sem almejar desigualdades ou disputa, idealizou a construção de grandes moradias comunitárias autossuficientes, onde as famílias de trabalhadores contribuiriam mutuamente para a convivência coletiva, a partir do desempenho cooperado de tarefas, conforme as suas vocações. Tal imóvel foi denominado por ele de “falanstério”. Estas construções comunais, conforme Fourier, deveriam ser reproduzidas, pois seria a base de uma transformação social capaz de gerar um novo mundo (UFCG, 2015).
Saint-Simon, por sua vez, acreditava que uma sociedade dividia-se entre produtores e ociosos. Defendeu, assim, um trabalho no qual a oposição entre operários e industriais deveria ser reconfigurada. Pregava a manutenção dos privilégios e do lucro dos industriais, desde que assumissem os impactos sociais causados pela prosperidade que usufruíam, inaugurando o que hoje se denomina de “responsabilidade social”. Nesse sentido, acreditava que o industriário poderia contribuir para o equilíbrio dos interesses sociais por meio do cumprimento de ações de responsabilidade social (SOUZA; OLIVEIRA, 2005).
As pressões decorrentes do protagonismo assumido pela burguesia na revolução industrial fizeram com que as monarquias absolutistas dos países europeus, nas quais igreja e estado concentravam poder, se transformassem em repúblicas liberais ou democracias liberais, a partir de quando a burguesia acumulou poder político (MUSTO, 2011). Por conseguinte, foram feitas reformas sociais e estruturais no Estado,
desvinculando-o do pensamento extremamente religioso e do autoritarismo monárquico. Mas a ascensão da burguesia foi acompanhada da organização do operariado - uma "nova" classe social, objetificada pela classe burguesa em nome do crescimento econômico (MUSTO, 2011) - que criou inclusive a Associação Internacional de Trabalhadores, em 1864, liderada por Marx. O operariado, então, amparado pelas teses socialistas marxianas, se articula para desmobilizar o estado burguês, e implementar a ascensão do proletariado, a fim de constituir uma sociedade mais justa e mais solidária.
A Revolução Soviética de 1917, com liderança de Lênin, tenta colocar em prática as teses marxistas, o que dá novo entusiasmo ao movimento proletário internacional. Busca-se expandir o socialismo no mundo, unir a classe operária e os partidos comunistas em nível internacional.
A primeira guerra mundial, eclodida em razão da luta pela conquista de territórios e domínio de mares, fomentou o desenvolvimento dos Estados Unidos, grande exportador para os países europeus. Uma vez reconstruídos das sequelas da primeira guerra, reduziram-se significativamente as exportações de produtos industrializados e agrícolas, o que resultou na desvalorização de ações de grandes empresas e na “quebra” da bolsa de valores em 1929 (BRENER, 2015). A crise econômica dos EUA se converteu em uma crise do capitalismo liberal, pois todas as nações capitalistas que tinham trocas com este país foram afetadas, inclusive o Brasil. A União Soviética, porém, por sua economia fechada e por não participar de trocas capitalistas, não foi atingida por este contexto econômico negativo.
Diante do cenário mundial desfavorável, França e Espanha elegem governos esquerdistas. Em resposta à expansão socialista ao longo do mundo, porém, foram instituídos os regimes totalitários fascista e nazista, que irrompe a 2ª Guerra Mundial, maior conflito bélico da história da humanidade (BERTONHA, 2016).
Observa-se, diante do breve esboço histórico apresentado, que as ideias de Robert Owen, Saint-Simon e Charles Fourier representaram, ao longo da história da humanidade, um contraponto importante à disseminação hegemônica da lógica capitalista de maximização dos lucros, que alcançou o seu auge após a II Guerra Mundial. Assim, a partir do pressuposto de que deve haver limites éticos para o crescimento econômico, tal como o respeito aos direitos humanos, Fourier, Saint-Simon e Owen assumiram importância significativa para o lançamento das bases do que hoje se denomina de “economia solidária". Cobravam dos detentores dos meios de produção
uma maior responsabilidade com o bem-estar dos seus trabalhadores e com as repercussões sociais decorrentes de suas cadeias produtivas.
Igualmente, reconheceram a importância de um crescimento econômico que fosse compatível com ideias como cooperativismo, solidariedade, responsabilidade social, proteção à saúde do trabalhador. A própria proposta de Fourier de convivência coletiva dos trabalhadores e suas famílias nos falanstérios estimulou a preocupação mútua entre os que compartilham uma vida social. O objetivo era alimentar o senso de coletividade, a preocupação com o bem-estar alheio, o sentimento de pertencimento grupal, uma ética do cuidado que, segundo as perspectivas socialistas, deveria ser assumida também pelos burgueses.
Num momento seguinte, estas ideias embasaram o denominado “socialismo científico” ou “marxiano”, desenvolvido precipuamente por Karl Max e Friedrich Engels, que se inspiraram nos mesmos objetivos de Owen, Saint-Simon e Fourier, uma vez que criticavam as perspectivas de transformações sociais com vistas à gradual e lenta implantação do socialismo. Mais críticos, entendiam que não seria possível conceber a formação de uma sociedade ideal por meios pacíficos, a partir de uma postura passiva do proletariado. Suscitavam o desenvolvimento de uma nova consciência e postura social da burguesia; uma evolução do ponto de vista humano, a qual seria convertida em favor dos trabalhadores no ambiente profissional.
Com essa expectativa, reconheciam a necessidade real de mudança dos próprios princípios que orientaram o desenvolvimento do liberalismo e do capitalismo implementados a partir da Revolução Industrial, calcados na autorregulamentação do mercado, em decorrência da abstenção do Estado nas relações privadas, inclusive diante da exploração dos trabalhadores, mal remunerados, sujeitos a exaustivas jornadas de trabalho e expostos a ambientes de trabalho insalubres e perigosos.
A ideologia marxiana propõe uma grande reforma social baseada na luta de classes e na extinção do proletariado, através de uma reação revolucionária das camadas populares, que promova o fim da propriedade privada e das classes sociais. O socialismo científico identifica a centralidade do trabalho ao longo da história da humanidade, entendendo a dinâmica produtiva como elemento constitutivo da base da vida social e, por isso, propõe a socialização dos meios de produção, a qual deveria ser comandada por acordos com os interesses dos próprios produtores.
A partir destas premissas, a ideologia marxiana influenciou os mais variados setores da atividade humana ao longo do século XX e continua a servir de fundamento
para propostas que visam criar alternativas à lógica hegemônica capitalista, a exemplo da economia solidária, além de contribuir na teoria e prática política, especialmente no âmbito sindical e para os movimentos revolucionários.
O pensamento marxiano, no sentido prático, foi o principal combustível para a consolidação do sistema sindical brasileiro e para as principais experiências revolucionárias da história da humanidade. Como teoria, contribui para a fundamentação de políticas sociais importantes, especialmente as redistributivas4, suscitando discussões relevantes em torno da (des)igualdade, um desafio transversal e universal. A sua importância, contudo, consiste especialmente no fato de que tal proposta revelou-se capaz de, ao mesmo tempo, funcionar como teoria científica e como prática política a fundamentar a criação e atuação de movimentos sociais de variadas vertentes.
Assim, Owen, Saint-Simon e Fourier lançaram as bases do que hoje se compreende por economia solidária, e se destacaram, dentre outras coisas, por não delegarem ao poder público o dever exclusivo de promover relações sociais mais equânimes, do ponto de vista trabalhista, econômico ou ambiental. Talvez por isso, o que se concebe por EcoSol, em tese, seja materialmente a realização de princípios plantados por aqueles socialistas em detrimento dos marxianos, que entendiam o controle e participação do Estado como uma estratégia de estabilização do socialismo. Se a EcoSol entende importante a autogestão, ou seja, a autonomia das organizações