TRANSPORTES E O ATO DE TRANSPORTAR
Ao lidar com o tema transportes, faz-se necessário definir o significado da palavra “transporte”. Aqui se define18 transporte como sendo uma ação que
deseja deslocar objetos, mercadorias e/ou pessoas de um ponto a outro no território. Essa ação demanda alguns pré-requisitos para acontecer.
18 Definição própria.
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O ato de transportar requer sua racionalização em um sistema19
constituído dos seguintes elementos: os meios de transporte (veículos), a infra- estrutura pela qual esse meio de transporte opera (vias, pontos, estações, garagens, etc.) e operadores que detenham as informações necessárias para que tal ação se dê de forma a contemplar o interesse de um usuário20.
Como um exemplo simples de transporte envolvendo pessoas, tem-se uma situação onde uma pessoa caminha sobre o chão, guiando-se pelo seu conhecimento acerca de aonde ir, como ir e por onde ir, de modo a satisfazer o propósito do seu ato de caminhar. Verifica-se que há apenas um individuo envolvido no processo de decisão que organiza a ação de transportar, um único meio de transporte e uma infra-estrutura (ainda que natural) para o transporte, apenas um operador que também é o usuário e aparentemente não existem fatores políticos, econômicos, culturais, técnicos ou naturais antepondo-se ao seu propósito de deslocar-se (transportar-se).
Por outro lado, como exemplo complexo de transporte envolvendo pessoas, objetos e mercadorias, tem-se uma situação onde é preciso distribuir a superprodução de alimentos de uma região rica de um país para uma região pobre de outro país que sofre com a fome em função de uma grande enchente que destruiu toda a produção agrícola e causou a destruição das infra- estruturas de transporte, energia, comunicação, saneamento básico, praticamente isolando-a do resto do mundo.
Verifica-se que é tão grande a quantidade de elementos que precisam ser considerados para que ocorra o transporte de alimentos nesse contexto, que obviamente será necessário que estejam envolvidas organizações com grande poder de realização, como governos. Inicialmente seria preciso obter as informações necessárias para que se identificassem as características espaciais da região afetada, ou seja, seria necessário conhecer a configuração
19 Conjunto de partes que interagem entre si de modo a atingir um determinado fim, segundo um plano
ou princípio (definição do Dicionário Koogan Digital).
20 Vale lembrar que os meios de comunicação e os meios de transmissão energética seguem
praticamente essa mesma definição, mas demandam infra-estruturas, operadores e usuários que são complementares e não concorrentes em relação aos dos transportes e, portanto, sugerem reflexões externas, mas não menos relevantes, ao propósito do presente trabalho (como analisar políticas de comunicação e política energética).
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do território e conhecer a sociedade que o usa, saber quem e quantas são as pessoas que passam fome, onde estão essas pessoas e como levar alimentos até elas considerando a realidade física do ambiente ali existente, reconhecendo áreas inundadas, áreas secas, estruturas de auxílio, locais aptos à estocagem, etc. Tais informações permitiriam que o governo de um país estivesse apto a planejar como se daria o transporte de alimentos de uma área para outra.
À ciência de planejar e executar operações como essa de transporte dá- se o nome de Logística (que em sua essência é o processo de prover tudo aquilo que seja necessário para que uma ação qualquer ocorra). Entretanto, não apenas da logística dependeria o transporte de tais alimentos.
É possível que, por razões culturais21, o alimento não fosse muito bem aproveitado pela população que passa fome. Seria então necessário prever eventuais recusas à ajuda (por mais improvável que isso seja) e também considerar e superar as dificuldades de comunicação entre os atores envolvidos, mais especificamente, entre o governo de um país e do outro, que poderiam eventualmente possuir rivalidades que gerariam déficits de comunicação e cooperação mútua, colocando em risco o ato de transporte; seria necessário vencer eventuais dificuldades técnicas, buscar fundos para financiar tal ajuda, buscar viabilidade política para toda a operação, etc.
São inúmeras as questões que podem ser colocadas para exemplificar a complexidade desse exemplo, mas o que realmente interessa aqui é que fique claro que ao planejar o transporte, é necessário considerar elementos internos e externos à organização do mesmo, questões técnicas e políticas, eventos favoráveis e desfavoráveis, vetores de sucesso e de fracasso que precisam ser estimulados ou contornados com um planejamento prévio, com uma preparação organizada, mas que considere o homem seu beneficiário.
Além de todos esses elementos a considerar, deve-se sempre ter em mente que o transporte possui uma dimensão espacial, a qual pode ser compreendida como uma relação dialética entre uma configuração territorial e a sociedade que a vivencia.
21 Por exemplo, hábitos sanitários, costumes religiosos, conhecimento das formas de preparo dos
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Abaixo estão duas citações proferidas por Yaeko Yamashita22, durante
uma palestra sobre Organização e Operação de Transportes, proferida em 2009 na Universidade de Brasília. A primeira mostra a relação entre transportes e a divisão social do trabalho, enquanto a segunda, trata dos efeitos dos transportes sobre a sociedade:
“O processo produtivo da sociedade atual, se caracteriza, entre outros aspectos, pela divisão social do trabalho. Essa divisão se dá no espaço e gera uma divisão espacial do processo de produção, que por sua vez, sugere o deslocamento de pessoas e bens.”
“Os transportes viabilizam o deslocamento de bens e pessoas, que por sua vez, potencializa atividades econômicas, causa externalidades diversas e re- configura o espaço.”
A primeira citação ilustra com perfeição a relação entre espaço, trabalho e a conseqüente demanda por movimento (transportes). A segunda revela que, além de movimento, os transportes geram efeitos mais complexos, como as externalidades, que neste contexto podem ser interpretadas como “impactos ambientais”.
A segunda citação, porém, confunde-se ao afirmar que o espaço se re- configura, pois quem sofre configuração é o território. Esse “erro” o é se a referência de ‘correto’ for o que ensina Milton Santos em sua teoria espacial. Diante disso, é pertinente aqui abordar a relação entre espaço, transportes e políticas públicas.