Cheguei por volta das dezoito horas no final da Rua Grande, nas proximidades do Largo do Carmo, local definido como ponto de concentração dos camelôs para ida à reunião. De longe, percebi que havia cerca de cem camelôs. Em meio àquela multidão, surgiam rodas de discussões sobre o assunto da reunião: implantação do Centro de Comércio Informal da Magalhães de Almeida.
Percebi que os comerciantes de rua estranharam minha presença, o que levou alguns a
me perguntarem muitos me perguntaram: “nunca te vi, tu és de que rua?” Respondi que era pesquisador da Universidade e que estava ali para realizar um estudo.
Participar desta situação de mobilização dos camelôs foi bastante produtivo, pois ganhei visibilidade para começar o trabalho de entrevistas e observação. Além é claro, de poder visualizar alguns vínculos de conhecimento mútuo entre os próprios camelôs. Percebi que grande parte se conhece pelo nome, ou pela rua: você é da Godofredo, você é da rua de Santa Rita, e assim por diante. Constatei também, que mesmo o Projeto do C.C.I. tendo como foco a Magalhães de Almeida, muitos comerciantes de rua das travessas iniciais da Rua Grande estiveram presentes para prestar apoio à mobilização.
Passada uma hora já havia mais de cem camelôs concentrados no Largo do Carmo, esperando a hora de ir para o auditório da SEMPLAN. Às dezenove horas, os camelôs dirigiram-se em passeata ao local da reunião, onde ocorreram acalorados debates entre representantes da Prefeitura, do Banco do Brasil e dos camelôs. Nesta, fiquei de pé no fundo do auditório, observando os debates e tentando fazer uma pré-seleção de possíveis informantes – levei em conta os que mais se manifestavam, a favor ou contra o projeto. Após a reunião, aproximei-me de alguns que mais haviam falado, e de outros que estavam ao meu lado e tentei estabelecer o contato.
Esta estratégia de aproximação, participar de uma reunião da categoria, foi bem produtiva, pois consegui estabelecer meus primeiros canais de experiência próxima. Uma proposta metodológica para o pesquisador se aproximar, reconhecer as lideranças, estabelecer contatos com informantes e compreender algumas representações de categorias coletivas de trabalhadores é, a meu ver, a participação em algumas reuniões coletivas. Nestas, o cientista social pode ter acesso a vários informantes através da observação, para depois estabelecer relações através de um contato dialógico.
É importante referenciar que as reuniões são momentos sociais em que o pesquisador apresenta-se, mostra-se e expõe-se, fato que abre canais de informação e de aceitação no grupo. Nestes momentos sociais, a categoria de trabalhadores discute sua própria forma de trabalhar, revelando impasses, problemas; deste modo, também se expõem.
Desta reunião pude estabelecer diálogo com cinco informantes, que dias após me receberam em suas barracas para as primeiras entrevistas e observações. Deste modo, passei da observação distanciada e sem diálogo, para uma mais próxima (na barraca) e calcada nas entrevistas e nos diálogos. Destes cinco informantes, três tinham bancas localizadas na Avenida Magalhães de Almeida e dois na Travessa do Cine-Passeio. À proporção que me aproximei destes, foram me indicando para outros comerciantes de rua, daí fui ampliando minha rede de informantes.
Antônio e José, os dois da Travessa do Passeio, concederam-me entrevistas e ensinaram-me várias lógicas organizacionais e funcionamentos locais, além de me indicarem para o Presidente do Sindicato dos Vendedores Ambulantes de São Luís. Este também foi de grandiosa importância para a viabilização do trabalho de campo.
Ribinha, como é conhecido o presidente do sindicato, é comerciante de rua consertador de relógios (na sua barraca diz: “consertador de relógios número 1”) da Praça Deodoro, e foi neste local meu primeiro contato com ele. Inicialmente, Ribinha ficou desconfiado, mas depois de me identificar e levar algumas documentações (declaração do Mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão), ele aceitou me receber. Dialogamos em muitas ocasiões, na barraca e também no sindicato, onde Ribinha me forneceu dados fundamentais para a produção de um perfil básico sobre os comerciantes de
rua do Centro de São Luís.
A partir destes contatos, fui ampliando os canais de experiência próxima através de: visitas, observações, entrevistas, diálogos e estadias nas barracas. Acho importante enfatizar
que Antônio, José e Ribinha foram muito importantes, pois me indicaram para outros informantes, que por sua vez, me indicaram para outros e assim consegui ampliar meus canais de observação.
Em agosto de 2006, fui convidado por Ribinha a participar de uma reunião do Sindicato, para que eu fosse apresentado e expusesse os objetivos da minha pesquisa. Esta ocorreu no auditório do Sindicato dos Bancários, tendo como pauta a discussão de questões sobre a organização de um sistema de delegados sindicais por setores do Centro de São Luís.
Estes contatos facilitaram o trânsito no grupo e o mapeamento das lideranças no
comércio de rua: Ribinha presidente do Sindicato; e Barrão presidente da Associação.
Assim, o estar na rua foi pressuposto para encontrar as lideranças e respectivas instituições associativas que, de certo modo, abriram canais de acesso via reuniões, pois estas foram fundamentais para que eu encontrasse informantes e para os comerciantes de rua me verem.
Por fim, são os informantes os principais canais de acesso para entender a vida cotidiana, pois são estes que no calor da hora (debaixo do cheiro de plástico queimado) dialogam sobre o dia a dia e o vivem, sendo este visualizado pelo pesquisador quando tem acesso ao campo. Para resguardar o sigilo da fonte adotei nomes fictícios aos meus informantes, vejamos abaixo a lista.
Tabela 1 - Lista de informantes
1 FICTÍCIO DESCRIÇÃO
2 SOUZA Vendedor de bolsas
3 GOMES Vendedor de roupas
4 JOSEFINA Vendedora de roupas
5 NANCI Vendedora de bolsas
6 GABRIELA Vendedora de bolsas
7 FÁTIMA Churrasqueira 8 MANOLO Consertador de vídeo
9 CHARLES Consertador de vídeo
10 DILSON Vendedor de miudezas
11 ANDRÉ Vendedor de mídias
12 MIRIAM Vendedora de confecções
13 BATISTA Vendedor de eletrônicos
14 BALTAZAR Vendedor de bolsas
15 CÂNDIDA Vendedora de confecções
16 RIVELINO Vendedor e consertador de acessórios de relógio, cintos e óculos
18 TIMOTÉO Vendedor de miudezas
19 KARINA Vendedora ambulante de café
20 LISA Vendedora de confecções
21 JOSÉ Vendedor de mídias
22 ANTONIO Consertador de tesouras e amolador de lâminas
23 RAIMUNDO Consertador de relógios
24 JORGE Vendedor de cintos, bolsas, artigos de couro
25 JOSELITO Carregador 26 ANTONIA Vendedora de confecções
27 RAIMUNDA Vendedora de mídias
28 LUÍS Vendedor de acessórios e consertador de relógios
29 ANDREA Vendedora de roupas
30 TANIA Vendedora de roupas
31 MARTINS Vendedor de eletrônicos
32 PAULO Vendedor de eletrônicos
33 FAIZANO Carregador 34 DAVI Carregador
35 MATIAS Vendedor de acessórios de relógios
36 GINA Vendedora de confecções
37 CHICA Churrasqueira 38 JULIO Vendedor de eletrônicos
39 GILBERTO Vendedor de miudezas