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Analisando a categoria gramatical da modalidade, por meio dos testes gramaticais elaborados por Hengeveld (1987, 1988, 1989, 2004), foi possível identificar características gramaticais que diferenciam as modalidades subjetiva e objetiva, indicando a relação entre a avaliação do falante e o momento da enunciação. Os itens subjetivos mostraram-se incompatíveis com contextos interrogativos, negativos e de passado.

Na análise dos adjetivos avaliativos e adjetivos atitudinais, constatou-se que os adjetivos modificadores de Subato Referencial maldito, pobre e grande, assim como os modalizadores subjetivos, não podem ser expressos em contextos interrogativos e negativos sem causar um efeito ecoico no enunciado. Uma ressalva foi feita com relação ao adjetivo grande, que, nesses contextos, assume um significado mais concreto, referindo-se à noção de competência ou prestígio (um grande time = um time forte, com muitos títulos).

Na análise dos advérbios avaliativos, representados por advérbios como infelizmente e estranhamente, esses modificadores foram contrastados com advérbios de

maneira, apresentando uma diferença de posicionamento no enunciado. Mais relevante, contudo, é o fato de que os advérbios avaliativos não podem estar sob o escopo da interrogação e negação, sinalizando a performatividade da avaliação.

Os advérbios modificadores de Ilocução, representados por advérbios como sinceramente, francamente e honestamente, também não podem ser negados e, apesar

de poderem ocorrer em enunciados interrogativos, não atuam sob o seu escopo. Isso mostra uma diferença entre o comportamento dessa categoria com relação à modalidade e outras formas de expressão de subjetividade, em que o uso em contextos interrogativos resulta em um efeito ecoico. Contudo, mesmo havendo essa diferença, o fato de os modificadores de Ilocução não poderem atuar nem sob o escopo da negação nem da interrogação sugere que se trata efetivamente de uma forma de expressão da Subjetividade Gramatical.

Com relação ao uso do diminutivo como expressão de afeto, parece não haver características gramaticais que o diferenciem da expressão de tamanho. Uma possível

distinção gramatical seria a possibilidade de aplicação a pronomes pessoais, que, como vimos, explicita a função atitudinal no caso dos adjetivos. Contudo, não foi possível encontrar na literatura nenhum trabalho que forneça características formais que distingam esses usos. Também, dada a raridade de ocorrências dos diminutivos aplicados a pronomes pessoais, não foi possível realizar uma análise mais profunda. Por hora, a classificação dessa forma é a de expressão de Subjetividade Inerente apenas.

A análise dos verbos de movimento mostrou que, embora relevantes para a abordagem cognitiva, do ponto de vista da GDF, as diferenças de significado sofridas por esses verbos não apontam para uma avaliação de comprometimento do falante, sendo perfeitamente compatíveis com os contextos de negação, interrogação, condicional e tempo passado.

Com relação à ênfase, a análise do advérbio really em inglês mostra que em contextos negativos o advérbio não atua sob o escopo da negação, enquanto em contextos interrogativos o advérbio assume outros significados, como o da gradação e de modificação factual. Em português, o advérbio realmente também não pode atuar nesses contextos sem que o seu significado seja o de advérbio de grau e modificador de factualidade, mas, por outro lado, o significado de ênfase parece ser raro, dependendo exclusivamente de suporte contextual. Isso significa que, embora o modificador de ênfase de Conteúdo Comunicado possa ser classificado como uma forma de Subjetividade Gramatical, o advérbio realmente talvez ainda não possa ser classificado como um modificador de ênfase.

A seguir, apresentamos um quadro resumindo das formas consideradas como expressão de subjetividade na análise aqui realizada:

Categoria Classificação Exemplo Modalidade Facultativa (f),

(e) Inerente João pode nadar Pode levar três horas para chegar lá.

Deôntica (f), (e) Inerente Você deve fazer suas tarefas. Deve-se respeitar os pais.

Deôntica (ep) Gramatical Os professores deviam

escutar mais os alunos. Volitiva (f), (e) Inerente Eu quero saber mais.

É desejável que o ministro fique.

Volitiva (p) Gramatical Devia ser possível viajar no tempo.

Epistêmica (ep) Inerente O avião podia estar com defeito.

Epistêmica (p) Gramatical Talvez ele venha.

Adjetivo Atitudinal (R) Gramatical O pobre rapaz foi demitido. Adjetivo Avaliativo (x) Inerente As pessoas pobres estão

sofrendo.

Advérbio Atitudinal (C),(T) Gramatical Infelizmente, não há solução. Um livro felizmente curto. Advérbio de Ilocução (F) Gramatical Sinceramente, não sei. Advérbios de maneira (f) Inerente Ele sorriu sinceramente.

Diminutivo Inerente Meu filhinho voltou.

Verbos de movimento abstrato

Inerente Vai chover.

A estrada vai até São Paulo. Ênfase (A), (F), (R) Indefinido Não gosto disso, porra.

Doe je werk dan. ('Anda, faz o seu trabalho')

A whole week the boss gave me ('Uma semana inteira o chefe me deu de folga') Ênfase (C),(T) Gramatical Eu realmente não gosto

disso.

Um livro realmente muito bom.

Quadro 6: Classificação das formas de expressão da subjetividade

Neste capítulo, apresentei diversas formas de expressão de subjetividade selecionadas na literatura específica, que foram escolhidas por expressarem algum tipo

de avaliação interna do falante. Após a análise dessas formas, pôde-se perceber que somente algumas delas apresentaram características gramaticais que refletissem o comprometimento do falante com relação à sua avaliação. No próximo capítulo, vou testar essa classificação à luz da tipologia dos textos utilizados como córpus, buscando verificar a relação que se estabelece entre as formas de expressão da subjetividade gramatical e o grau de envolvimento do falante em cada tipo de interação, com o objetivo de aprimorar o conceito de subjetividade.

CAPÍTULO V

SUBJETIVIDADE GRAMATICAL: GENERALIZAÇÕES

Introdução

Neste capítulo, reflito sobre as análises apresentadas no Capítulo IV, buscando determinar a existência de tendências no comportamento das formas de expressão consideradas gramaticalmente subjetivas. Isso é realizado de duas maneiras: primeiramente, observo quais foram os testes gramaticais empregados (5.1) e em quais camadas essas formas atuaram (5.2); em seguida, observo a existência de oposições que resultaram da discussão teórica apresentada nos Capítulos I e II, a saber, a oposição entre "expressão de atitude do falante" e "expressão do falante" (5.3), e a oposição entre a Subjetividade Gramatical e Subjetividade Inerente (5.4); por fim, reflito sobre a noção de objetividade, no contexto da Subjetividade Gramatical (5.5).