enquanto filosofia educativa.
A perceção de competência própria é referida por duas participantes como um aspeto que não determina a aceitação de alunos com dislexia na sua sala de aula. Opinião contrária tem as outras duas participantes, quando referem que são as características pessoais e as competências técnicas – pedagógicas, os aspetos que consideram mais salientes para condicionar a aceitação de alunos com dislexia.
Numerosas investigações mostram que os professores de educação regular se percecionam como não estando preparados para ensinar crianças com problemas de aprendizagem, referindo baixa perceção de autoeficácia a nível pessoal e de ensino, considerando ineficazes as adaptações instrucionais e curriculares que fazem na sala de aula
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(Minke et al., 1996, citado por Camisão, 2004). Os professores, em geral reconhecem os “direitos dos alunos", mas a perceção da sua incapacidade em lidar com problemáticas que se lhes afiguram, provavelmente incompreensíveis, apresenta-se como um obstáculo incontornável (Camisão, 2004). Apesar da inclusão ser aceite por todos, o modo como o professor lida com a heterogeneidade dos seus alunos pode ser uma variável preponderante para o êxito desta filosofia (Verdugo, 1994, citado por Camisão, 2004), assumindo-se também que a organização e gestão da sala de aula se baseia em grande parte nas crenças e perceções do professor (Speece & Keogh, 1996, citado por Camisão, 2004).
Da mesma forma, alguns investigadores consideram que as inovações educacionais a introduzir no sistema educativo deveriam ser selecionadas em função da sua adequação aos valores e perceções dos professores (Malouf & Schiller, 1995), uma vez que os dados da investigação sugerem uma considerável correlação existente entre as atitudes dos professores e as práticas educativas em relação aos alunos com NEE. O uso de estratégias e adaptações instrucionais adequadas a estes alunos está associado ao sentido de eficácia do professor. Avaliando as atitudes dos professores a nível do sentido de eficácia e a nível da inclusão, concluiu-se que os professores com atitudes mais positivas são os que usam estratégias instrucionais mais adequadas (e com mais frequência), ao contrário daqueles que têm atitudes menos positivas (Bender et al., 1995, citado por Camisão, 2004).
Ao refletir sobre estes aspetos, sou levada a considerar que a operacionalização da filosofia da inclusão, exige, não só o suporte de instrumentos legislativos mas, também, uma mudança educacional mais global, que permita que a escola satisfaça as diferentes necessidades educacionais das crianças, cada vez mais heterogéneas. Esta mudança, contudo, terá que ser compatível com o desenvolvimento de um adequado sistema de apoio nas salas de aula regulares para todos os alunos, tornando assim viável a inclusão (Correia, 2008).
O aumento do número de crianças com dislexia é uma realidade cada vez mais presente nas nossas escolas e, para o qual, será necessário uma resposta educativa apropriada e eficaz para supressão/redução e prevenção de dificuldades. Tal como descrito em Correia (1997), é fundamental que toda a criança com qualquer tipo de necessidades tenha uma educação adaptada, pública e gratuita. De facto, a necessidade de se atender a novas populações de alunos, com características diferentes, coloca um novo desafio permanente a toda a comunidade educativa, exigindo o alargamento das suas funções, em especial dos professores do ensino regular. Uma resposta educativa eficaz pressupõe várias condições: em primeiro lugar o
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reconhecimento de que a dislexia pertence às DAE e estas, por sua vez, são uma das problemáticas das NEE; em segundo lugar, o Sistema Educativo tem de garantir a todos os alunos uma educação de qualidade, não se entendendo a mesma educação para uma diversidade de alunos. Nesse sentido, deverá antever e oferecer um conjunto de meios e serviços às crianças que deles necessitem, o mais precocemente possível, a fim de evitar o pesadelo do insucesso, primeiro escolar e depois pessoal e social. Para além dos serviços de psicologia e terapêuticos, a formação inicial, continua e especializada de docentes, será uma condição chave, pois são estes que diariamente contactam com os alunos e que os influenciam naquilo que são ou poderão vir a ser. Um professor com formação especializada poderá ajudar o aluno mais eficazmente a partir de um treino de competências, através de um trabalho psicopedagógico dirigido à autoestima e à realização académica melhorada, ou seja, a partir de um trabalho específico, sistemático, estruturado e focalizado, assim como, algum acompanhamento a pais (Correia, 2008).
A filosofia adjacente à escola inclusiva requer de todos os profissionais um papel ativo e dinâmico no processo ensino-aprendizagem, pelo que, na opinião de Correia (1997), se devem desenvolver não só competências que permitam responder às necessidades educativas dos alunos, mas também a atitudes positivas em relação à inclusão. A maioria das escolas públicas dispõe de escassos recursos e conhecimentos sobre a problemática das DAE, nomeadamente da dislexia, sendo frequentemente confundida com outros problemas de aprendizagem, o que leva a um uso e abuso, na maioria das vezes, do seu nome (Henning, 2003).
Uma alteração no sistema educativo implica sempre mudanças a três níveis: política educativa (legislação e orientações provenientes do Ministério da Educação); recursos educativos (os meios humanos, financeiros e materiais) e ao das mentalidades. Este estudo visava estudar o terceiro nível e, reunimos agora as condições para afirmar que estamos no bom caminho, algum progresso já foi feito neste domínio.
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Chegados ao fim deste estudo, considero que ainda existe um grande percurso a percorrer.... Continuarei a assumir a minha responsabilidade enquanto professora de Educação Especial, e esta é imensa. Tenho a obrigação de fazer com que os professores do ensino regular alterem a sua representação dos alunos com NEE, nomeadamente das crianças com dislexia, pois não é uma problemática “visível”, o que leva, constantemente, a ser mal interpretada. Só
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após esta alteração é que os professores estarão preparados para alterar a sua pedagogia na sala de aula.
Consciente de que a liderança (Órgão de Gestão) é um dos fatores principais para a implementação de uma escola inclusiva e, considerando que o seu papel é fundamental quanto à adequação de caráter organizativo e de funcionamento, seria interessante, em futuras investigações, estudar em diferentes Agrupamentos de Escolas do Distrito de Braga, as práticas organizacionais implementadas pelos órgãos de gestão e os resultados escolares e educativos dos alunos com dislexia.
Por último, salientar a necessidade de mais formação nesta área, quer na formação inicial de professores, quer na contínua. Tal foi, visível nas respostas apresentadas pelos professores ao responderem que possuíam pouca formação na área.
A conclusão obtida neste estudo leva-me a levantar outra questão que poderá ser objeto de estudo num futuro próximo. Seria interessante analisar as atitudes e representações sociais dos professores do ensino regular, face à inclusão de crianças com dislexia, após formação contínua nesta problemática aos participantes neste estudo. É um desafio a que me comprometo dar continuidade. Paralelamente, seria interessante este estudo tendo contacto com outro tipo de instrumento de recolha de dados, nomeadamente a observação.
Para terminar, é importante deixar claro que é necessário continuar a evoluir e a alterar a representação social das crianças com dislexia, nomeadamente entre a classe docente, dada a extrema importância de um ensino eficaz para estas crianças. Assim, para finalizar, gostaria de partilhar um poema de António Ferreira Andrade que nos explica a complexidade da mudança.