Como contraponto ao pragmatismo que se apresenta vinculado à aplicabilidade imediata dos cursos de Educação Profissional como um todo, este trabalho apoia-se na Educação Politécnica e no trabalho como princípio educativo. Pressupondo como essencial ao papel da Educação Profissional o princípio de inclusão social, só será possível entender a tecnologia com uma sólida formação de base científica, ou seja, se efetivamente houver a integração de conhecimentos da ciência pela Educação Básica e pela Educação Profissional, a fim de garantir a autonomia do cidadão.
Um dos princípios fundamentais do Proeja refere-se ao trabalho como princípio educativo, isto é, aquele que ultrapassa o caráter utilitarista e imediatista da
formação profissional e proporciona uma formação consistente ancorada no princípio científico para o entendimento do conhecimento tecnológico. Objetiva gerar conhecimento que perpasse a base científica, que possa garantir também uma consistente base histórica e a cultural, de gestão e tecnológica. Entender „mercado‟ de trabalho como „mundos‟ do trabalho, um mundo plural, numa percepção ampliada e sistêmica de mundo a fim de valorizar o conhecimento presente no cotidiano e proporcionar a interrelação entre o conhecimento tácito e o científico.
De acordo com Ramos (2010, p. 49), “o trabalho é princípio educativo, pois impõe exigências específicas para o processo educativo, visando à participação direta dos membros da sociedade no trabalho socialmente produtivo”. Assim, esta autora defende que não se deveria propor que o Ensino Médio formasse técnicos especializados, mas sim politécnicos, pois a relação entre o trabalho e a educação clama pela necessária vinculação da educação à prática social.
Segundo Ramos (2010), o trabalho é princípio educativo, porque proporciona a compreensão do processo histórico de produção científica e tecnológica, como conhecimentos desenvolvidos e apropriados socialmente para a transformação das condições materiais da vida e a ampliação das capacidades, das potencialidades e dos sentidos humanos.
Ciavatta (2008) argumenta que no trabalho como princípio educativo se afirma o caráter formativo tanto do trabalho como da educação, como ação humanizadora, por meio do desenvolvimento das potencialidades do homem. A autora retoma as ideias de Marx (1979), situando a discussão teórica no materialismo histórico, em que se parte do trabalho como produtor dos meios de vida, tanto nos aspectos materiais como culturais, ou seja, do conhecimento, da criação material e simbólica e das formas de sociabilidade.
Ciavatta (2008) ainda defende que a introdução do trabalho como princípio educativo na unidade escolar ou na formação de profissionais, supõe recuperar a dimensão do conhecimento científico, tecnológico da escola unitária e politécnica, introduzir nos currículos a crítica histórico-social do trabalho no sistema capitalista, os direitos do trabalho e o sentido das lutas históricas no trabalho e na educação. Ciavatta (1990) argumenta que o trabalho não é necessariamente educativo, pois depende das condições de sua realização, dos fins a que se destina, de quem se apropria do produto do trabalho e do conhecimento que gera.
Segundo Frigotto (2008), o trabalho como princípio educativo não é uma técnica didática ou metodológica no processo de aprendizagem, mas um compromisso ético-político. O autor afirma que, como princípio educativo, o trabalho é, ao mesmo tempo, dever e direito. É um dever porque é justo que todos colaborem na produção de bens materiais, culturais, simbólicos, fundamentais à produção da vida humana. É um direito porque o ser humano é um ser na natureza, que necessita estabelecer, por sua ação consciente, um metabolismo com o meio natural, transformando em bens para sua produção e reprodução.
Para Cury (apud BUENO, 2008), as funções clássicas atribuídas ao Ensino Médio no Brasil são a propedêutica, a formativa e a profissionalizante. E é assim que se apresentam as funções do Proeja. O Documento Base do Proeja propõe um currículo integrado que abandona a perspectiva estreita de formação para o „mercado‟ de trabalho, para assumir a formação integral dos sujeitos. Então, o fundamento político-pedagógico propõe a integração curricular no Proeja, ou seja, a integração da Educação Profissional à Educação Geral. Impõe-se buscar uma educação integrada para superar o dualismo entre teoria e prática e entre aqueles que pensam e os que executam.
Santomé (1998) esclarece que o termo „currículo integrado‟ tem sido utilizado quando se busca uma compreensão global do conhecimento e a interdisciplinaridade entre as disciplinas e formas de conhecimento. Para que se obtenha a integração efetiva dos conteúdos científicos e tecnológicos, Saviani (2002) propõe uma educação politécnica, cujo termo, segundo o autor, é mais pertinente do que educação tecnológica, quando se busca uma formação integral. Parte-se do entendimento da politecnia como ensino que integra a ciência, cultura, humanismo e tecnologia para, em consequência, trazer o homem para o centro do processo educativo. Inclusive há autores que entendem politecnia como sinônimo de educação tecnológica.
Para Saviani (2003, p. 140), politecnia diz respeito ao “domínio dos fundamentos científicos das diferentes técnicas que caracterizam o processo de trabalho moderno”. Assim, para este autor, o papel fundamental da escola de nível médio será o de recuperar a relação entre o conhecimento e a prática do trabalho. É necessário buscar uma educação para além da escola, um ensino que não se apresente apenas como fim em si mesmo, que não priorize e nem se subordine aos interesses do setor produtivo ou do „mercado‟ de trabalho e de seus empresários.
Baseado neste pressuposto, baseado em Saviani, propõe-se como contraponto a busca de uma escola que seja unitária, um trabalho como princípio educativo e uma formação politécnica e omnilateral.
Segundo Gomes (2010), a proposta pedagógico-formativa de Karl Marx para os trabalhadores recebeu, pela tradução portuguesa, o nome de politecnia; outra sugestão de tradução é Educação Tecnológica. Gomes (2010) explicita que, na organização curricular de projetos pedagógicos inspirados na politecnia, deve-se ter como eixos o trabalho, a ciência, a cultura, a política e a tecnologia.
Frigotto (2010) indica que “ao pensar a politecnia ou Educação Tecnológica em Marx, deve-se lembrar que a tecnologia é a ciência que está na técnica”. Para esse autor, o Ensino Médio integrado é tautológico9 porque pensa o ser humano em sua omnilateralidade. O ensino não teria um fim em si mesmo nem se pautaria pelos interesses do mercado, mas constituir-se-ia numa possibilidade a mais para estudantes na construção de seus projetos de vida, socialmente determinados, culminada com uma formação ampla e integral.
Para Geisler (apud ARANTES, 2006, p. 382), a concepção politécnica da educação é entendida como:
Parte de um projeto emancipador que deve possibilitar a experiência de valores e atitudes que se distanciam da ideologia liberal. Longe de se pautar pelas demandas e objetivos do mercado, a proposta da formação politécnica busca incorporar a dimensão reflexiva do trabalho produtivo.
Ramos (2008), pesquisadora considerada referência em currículo integrado, aponta que, no caso específico da Educação Profissional, com conhecimentos de formação geral e específicos para o exercício profissional, nenhum conhecimento é só geral, posto que estrutura objetivos de produção, nem somente específico, pois nenhum conceito apropriado produtivamente pode ser formulado ou compreendido desarticuladamente das ciências e das linguagens. Para essa autora, o currículo integrado organiza o conhecimento e desenvolve o processo de ensino e aprendizagem de forma que os conceitos sejam apreendidos como
9 A tautologia é, na retórica, um termo ou texto que expressa a mesma idéia de formas diferentes.
Como um vício de linguagem pode ser considerada sinônimo de pleonasmo ou redundância. A origem do termo vem de do grego tautó, que significa "o mesmo", mais logos, que significa "assunto". Portanto, tautologia é dizer sempre a mesma coisa em termos diferentes (WIKIPEDIA, 2010).
sistema de relações de uma totalidade concreta que se pretende explicar e compreender.
Para Ramos (2010), a integração expressa uma concepção de formação humana que preconiza a integração de todas as dimensões da vida – o trabalho, a ciência, a cultura – no processo formativo, com o propósito fundamental de proporcionar a compreensão das relações sociais de produção e do processo histórico e contraditório de desenvolvimento das forças produtivas. A proposta de currículo integrado, para Ramos (2008), está na perspectiva de formação politécnica e omnilateral dos trabalhadores, como aquelas que atendem as necessidades de formação humana.
De acordo com Ramos (2010), formação politécnica e omnilateral dos trabalhadores têm como propósito fundamental proporcionar a compreensão das relações sociais de produção e do processo histórico e contraditório de desenvolvimento das forças produtivas. Ramos (2010), ao retomar Gramsci, expõe que a construção da Escola Unitária significa o início de novas relações entre trabalho intelectual e trabalho industrial, não apenas na escola, mas em toda vida social. O princípio unitário reflete em todos os organismos de cultura, transformando- os e emprestando-lhes um novo conteúdo (GRAMSCI, 1991, p. 125).
Esse novo conteúdo deve permitir a formação do homem, pelos princípios e concepções propostos ao Proeja, a fim de aceitar o desafio de integrar uma sólida base científica que possa consolidar o verdadeiro sentido do trabalho como princípio educativo, um curso que, possa oferecer a perspectiva de uma formação unitária, politécnica e omnilateral, na formação de trabalhadores jovens de adultos.
2 EVIDÊNCIAS HISTÓRICAS DO PAPEL SOCIAL DAS INSTITUIÇÕES DA REDE