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Chapter 2 – A Week in December

2.1 Criticism of the West – Capitalism and Ungodliness

À medida que avançavam os trabalhos de levantamento geológico, os membros da CGR lamentavam a presença de inúmeras dificuldades que impediam o curso regular da sua actividade. Por este motivo, decidem enumerar à direcção da DGTGCHGR os principais obstáculos com que se deparavam. Expunham que, decorridos cerca de nove meses após a criação daquela instituição, tinham já coligido inúmeros dados essenciais para a descrição dos depósitos do Terciário e uma vasta colecção de fósseis pertencentes a este período geológico. Além disso, tinham ainda recolhido informação suficiente para um reconhecimento geral de parte do Alentejo e da totalidade da região algarvia. No entanto,

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Entenda-se por material científico, livros e revistas científicas, colecções e instrumentos. 73

O relatório da Comissão Geológica refere apenas que Delgado terá participado numa digressão à região do Minho. Deve ter realizado o trabalho praticamente sozinho nos restantes meses por se tratar de um simples reconhecimento, pois segundo as suas declarações, não se tratou de um estudo pormenorizado sobre esta região. Op. cit. (1), p. 12. Op. cit. (68), p. 85.

todo este trabalho não podia ser ultimado nem publicado por faltarem inúmeros elementos

de estudo.74 Entre eles, mencionavam a inexistência de colecções de referência ou de

comparação, de instrumentos essenciais às observações de campo, de livros e de publicações da especialidade, facto que atestava bem a situação precária da geologia em Portugal naquela altura. Era igualmente reconhecida a premência e indispensabilidade de se estabelecerem relações estreitas entre a Comissão Geológica e outras instituições análogas existentes na Europa, bem como com os diversos cientistas dos grandes centros científicos.75 Neste último caso, o contacto com especialistas permitiria o esclarecimento

directo de dúvidas, quer no âmbito da classificação de fósseis, quer sobre o sistema de levantamento mais adequado a adoptar.76

A Comissão tinha plena consciência que, no final dos anos 50, dificilmente um mesmo

indivíduo poderia ser em simultâneo geólogo e paleontólogo.77 Num período anterior, a

descrição geológica e a classificação dos exemplares recolhidos era vulgarmente efectuada pela mesma pessoa, na ausência de uma nomenclatura unificada pela comunidade científica. Esta situação conduzira, frequentemente, à introdução de erros na determinação das espécies por as mesmas serem descritas de modos diversos, sendo praticamente impossível a comparação da fauna e flora fóssil de diferentes regiões.78 Deste modo, só

muito dificilmente a geologia poderia ser auxiliada pela paleontologia na diferenciação da idade relativa de estratos que não fossem directamente identificáveis pelas suas características litológicas. No entanto, a crescente especialização nas ciências geológicas conduziu, naturalmente, à especialização no trabalho. Segundo Ribeiro, naquela época existia uma espécie de convenção tácita onde cada cientista respeitava os limites do seu ramo e solicitava, sem hesitação, a colaboração científica de colegas especialistas em áreas distintas da sua:79

(...) esta fraternidade de sciencia, esta comunidade de peculio de conhecimentos que cada um tem grangeado em proveito de todos, produz os mais vantajosos resultados. As especies saem logo verificadas pelos sabios auctorisados no estudo do grupo a que pertencem: evita-se assim o erro de referir a uma especie, exemplares que pertencem a outra, e tambem o estabelecimento de especies novas á custa de exemplares pertencentes a especies já descriptas, e os duplos empregos que tanto têem complicado a synonymia das especies. (...) Em Paris, é o sr. Deshayes consultado de todas as partes para authenticar com o seu importante voto a determinação das especies de molluscos das diversas bacias terciarias; mas o sr. Deshayes

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Ofício (nº 23) da DGTGCHGR dirigido ao Ministro das Obras Públicas, Comercio e Indústria, Carlos Bento da Silva, 22 de Junho de 1858, AHIGP, Livro “Registro da correspondencia referida á Secção Geologica desde Setembro de 1857 a Novembro de 1865”.

75 Op. cit. (1), p. 13. 76

Op. cit. (74). 77

“Relatorio da Commissão Geologica do Reino, 8 de Fevereiro de 1859”, Boletim do Ministerio das Obras

Publicas, Commercio e Industria, 2 (1859), 148-150 (148); ofício da Comissão Geológica dirigido a Filipe Folque,

8 de Fevereiro de 1859, AHIGM, Armário 23, Prateleira 1, Livro “Comissão Geológica — Correspondência nº 2”. 78 “Relatorio da Commissão Geologica do Reino, 8 de Fevereiro de 1859”, Boletim do Ministerio das Obras

Publicas, Commercio e Industria, 2 (1859), 148-150 (148).

com mais de quarenta annos de trabalhos distinctos na sciencia, não se atreve a nomear um dente, um echinoderme, ou um polypeiro dos encontrados nos mesmos depositos terciarios (...); e o que é mais, nem sequer se occupa com os fosseis molluscos dos depositos mais antigos, e leva a sua benevolencia ao ponto d’elle mesmo pedir para os paizes estranhos a algum sabio especialista que se encarregue da determinação das especies, em que não ousou tocar por não pertencerem á especialidade a que se tem dedicado.

Estas observações sobre o grau de especialização existente em meados do século XIX na área da paleontologia, levam a admitir a dificuldade de concluir qualquer trabalho geológico sem se consultar um elevado número de peritos em diversas áreas. Este facto não se limitava apenas ao estudo de fósseis mas também de rochas, sobre as quais eram igualmente efectuados inúmeros estudos químicos específicos.80

Perante as reivindicações apresentadas, Folque decide enviar um ofício ao Ministro das Obras Públicas onde não hesita em expressar a sua solidariedade para com os membros da Comissão. Considerava essencial que a CGR possuísse todos os elementos considerados fundamentais, quer para a realização de estudos de gabinete, quer para a actividade desempenhada no campo. Nestas circunstâncias, exprimia a necessidade de lhe ser dada autorização para que Carlos Ribeiro se pudesse deslocar ao estrangeiro durante um período de três meses, sendo as despesas desta viagem inteiramente suportadas pelo fundo em reserva existente no cofre da Comissão Geológica.81 A sua missão seria norteada

pelos seguintes objectivos:82

• rever, a partir do estudo comparativo com outras colecções, as colecções dos fósseis das bacias do Tejo e do Guadiana que haviam sido classificadas pela Comissão; • adquirir livros de paleontologia e de geologia, considerados indispensáveis aos

estudos de gabinete;

• adquirir instrumentos de física, topografia, aparelhos de fotografia, de ensaios e de análises químicas;

• adquirir colecções tipo que servissem, quer para a classificação das colecções da Comissão, quer para estabelecer estudos comparativos entre as faunas do ocidente da Península e as restantes regiões europeias;

80 Ibid.

81 A Comissão Geológica dispunha, em Junho, de um saldo de 3474$210 réis. Ofício (nº 23) da DGTGCHGR dirigido ao Ministro das Obras Públicas, Comercio e Indústria, Carlos Bento da Silva, 22 de Junho de 1858, AHIGP, loc. cit. (74). Ver também Op. cit. (1), p. 13. Este montante não seria contudo suficiente face à despesa total que acabaria por ser gasta na viagem. Num ofício de Filipe Folque dirigido ao Ministério das Obras Públicas, apurou-se que os gastos excederam em 44$500 réis, tendo sido os mesmos cobertos pelos fundos disponíveis na CGR: “(...) a despeza feita (...) excedeu na importancia de 241 fr e 43 c, que ao cambio de 184 1/3 dá 44$500

reis (...)”. Ofício de Filipe Folque dirigido ao MOPCI, 25 de Fevereiro de 1860, AHIGP, Livro 4 “Registro dos

officios remettidos ao Ministério das Obras Publicas desde Novembro de 1852 a Março de 1865”. 82

“Relatorio da Commissão Geologica do Reino 31 de Janeiro de 1859”, Boletim do Ministerio das Obras

• estabelecer relações científicas com instituições estrangeiras com objectivos análogos aos da Comissão Geológica de Portugal, e com cientistas especialistas na área da paleontologia e da geologia.

Filipe Folque, considerou mesmo esta viagem essencial pois entendia que “(...)sem os meios indispensaveis ninguem pode alcançar os fins; o nosso paiz neste ramo como em muitos outros está atrazadissimo; acrescentarei que em sciencias naturaes e de applicação não bastam os livros, é necessario não só ver mas até aprender os objectos (...)”.83

Perante o parecer de Folque, o governo reconheceu igualmente a importância desta deslocação. Três dias depois decidiu autorizar Carlos Ribeiro a efectuar a viagem proposta a diversos países europeus, entre os quais estavam previstas estadas em França, Itália, Alemanha, Inglaterra e Espanha. Para cobrir os custos da digressão concordou também com a proposta avançada, ou seja, que fosse empregada a verba existente na Comissão Geológica.84