• No results found

A trajetória de Binet revela conhecimentos e experiências cumulativas que contribuem para a sua formação como psicólogo e pesquisador. Um tanto perdido no início da carreira, Binet, após encontrar sua vocação como “psicólogo de biblioteca”, continuamente agrega experiências de diferentes tipos que contribuirão para o seu principal interesse: a compreensão do funcionamento da mente humana. Não é possível dividir sua trajetória em décadas ou períodos, pois parece que toda a sua produção contribui para esse interesse central não imediatamente identificável no início de sua carreira. Esse interesse é coerente também com o currículo das escolas francesas, mais voltadas para as humanidades, ao contrário das escolas britânicas protestantes que enfatizavam as disciplinas com maior possibilidade de aplicação prática.

Entretanto, apesar da originalidade e do rigor de suas contribuições para a educação, a compreensão dos processos mentais e o que viria a ser denominado “diagnóstico diferencial”, a força de Binet no campo científico é pequena, por vários motivos.

O fato de ser autodidata trouxe várias consequências negativas nesse sentido. Possivelmente por sua história de vida, mas também por não ter frequentado a academia, em seus primeiros anos de atuação tinha dificuldade em opor-se à autoridade; tampouco desenvolvera o pensamento crítico. A falta de debate e de troca de ideias deixou-o um tanto ingênuo, até sentir na pele o preço da confiança cega que depositava em seus mestres intelectuais. As principais críticas que sofreu, particularmente por parte de Delboeuf, devem- se principalmente à aceitação incondicional das posições daqueles que considerava seus mestres (Stuart Mill e Charcot). Adquire independência intelectual ao sair de La Salpetriêre, quando deixa de submeter os fatos às teorias. Outro efeito da pouca familiaridade com o ambiente acadêmico, somado à sua aversão aos contatos sociais, seria a falta de uma rede social no campo científico. Por três vezes teve barradas suas pretensões de lecionar em universidades.

Reservado e introvertido, Binet trabalhava sozinho, com poucos colaboradores criteriosamente escolhidos. Segundo Édouard Claparède, a abordagem um tanto tímida de Binet aos desconhecidos “era basicamente uma desconfiança instintiva de charlatães e embusteiros” (mencionado em Wolf, 1973, p. 35); com a convivência, entretanto, tornava-se muito amável. Embora não demonstrasse afeto abertamente e fosse muito cioso de sua vida pessoal, sua correspondência demonstra consideração e carinho genuíno para com os amigos. Numa época em que Henri se machucara em uma queda de bicicleta, Simon demonstrava sinais de esgotamento e Larguier, outro colaborador que se mudara para a Suíça, estava

indisposto, em uma carta a este último Binet declara: “Posso dizer que meus três melhores colaboradores, aqueles a quem mais amo, ou, melhor dizendo, os únicos a quem amo, estão sofrendo com problemas de saúde” (Wolf, 1973, p. 35).

A amabilidade de Binet revela-se também em relação aos pacientes institucionalizados que estudava em suas pesquisas. Segundo Simon: “Examinar os pacientes com ele era sempre um enorme prazer, pois ele trazia, para a situação, tanta imaginação! Alegremente ele aproveitava todas as ocasiões para conversar com um paciente... Ele entrava em ação com infinita naturalidade”. E ainda “Que tardes passamos com esses sujeitos! Que conversas deliciosas tivemos com eles! E quantas risadas também!” (Simon, mencionado em Wolf p. 36). Para Binet, trabalhar era um prazer. “Eu trabalho com a naturalidade com que uma galinha põe ovos”, teria dito a um amigo. (Binet, mencionado em Wolf, p. 34)

Nas palavras da filha Madeleine, duas décadas após a morte de Binet:

Meu pai era acima de tudo um homem cheio de energia, sorridente, geralmente irônico, gentil nos modos, sábio nos julgamentos, um tanto cético, naturalmente – moderado, engenhoso, inteligente, imaginativo. Sem afetação, direto, de boa índole; ele desprezava a mediocridade em todas as suas formas. Amável e cordial com as pessoas da ciência, impiedoso com pessoas entediantes que desperdiçavam seu tempo e interrompiam seu trabalho. A expressão de seu rosto às vezes era meditativa, às vezes sorridente. Ele sempre parecia imerso em pensamentos profundos. (mencionada em Wolf, 1973, p. 36).

Avesso à promoção pessoal e aos contatos que pudessem impulsionar sua ascensão no meio científico, mantém-se à margem dos principais centros de Psicologia na França, a despeito de sua farta produção. Trabalhando com poucos e fiéis colaboradores, produz uma ampla literatura, mas as portas das universidades francesas permanecem fechadas para ele.

Assim, embora conte com o prestígio e o respeito de seus pares, sua posição no campo científico tem pouca força. Binet é um péssimo jogador, pois desconhece as regras do jogo. Não cultiva as relações que podem lhe abrir as portas; não comparece a eventos que lhe dêem visibilidade (a apresentação de sua escala em um evento ficou a cargo de Simon); adota a nomenclatura vigente (mesmo que inadequada) para se referir a suas ideias originais, deixando de imprimir sua marca naquilo que cria: sua visão clínica é acomodada na denominação Psicologia Experimental; sua escala, voltada, para os processos mentais superiores, não recebe uma denominação que a diferencie claramente dos “testes mentais” em voga, medidas estritamente quantitativas dos processos psicossensoriais; aborda a personalidade sob o título “inteligência”; ao pensar nos processos inconscientes, denomina-os “atitudes”. Falta-lhe a malícia para frisar a originalidade de suas propostas, mas não para

antever o risco de sua criação cair em mãos erradas. Na apresentação da escala em L’ Année Psychologique (1905), adverte:

A escala que descreveremos não é um trabalho teórico; é o resultado de extensas investigações, inicialmente no Salpêtrière, e depois nas escolas primárias de Paris, com crianças normais e subnormais. Essas perguntas psicológicas sucintas receberam o nome de testes. O uso de testes é muito comum hoje em dia, e existem até autores contemporâneos que transformaram em especialidade a organização de novos testes de acordo com visões teóricas, sem qualquer esforço de experimentá-las pacientemente nas escolas. Trata-se de uma ocupação curiosa, comparável à de alguém que viaja em uma expedição de colonização na Argélia, avançando somente em um mapa, sem jamais tirar o pijama. Temos pouca confiança nos testes inventados por esses autores e nada extraímos deles. 27

Não é de estranhar, portanto, que seus protestos quanto à quantificação do resultado de sua escala fossem inúteis. Sua morte prematura pelo menos o poupou da infelicidade de testemunhar os fins a que seu instrumento serviu e o lugar que lhe foi reservado na História da Psicologia.