A experiência estética em Hume está relacionada diretamente com o gosto. Este princípio não se encontra desenvolvido em todos os indivíduos da mesma forma. Pelo contrário, poucos serão os que conseguirão atingir uma excelência crítica e emitir juízos universais e verdadeiros sobre a arte e, como observaremos futuramente, sobre a moral. Nas
108 “[...] a estima é um princípio muito poderoso na natureza humana, que tem grande influência no nosso gosto pela beleza [...]” (HUME, 2010, p. 664).
palavras do filósofo escocês, “[...] ainda que os princípios do gosto sejam universais e, se não inteiramente, ao menos quase os mesmos em todos os homens, são poucos os qualificados para julgar qualquer obra de arte ou estabelecer o padrão de beleza” (HUME, 2011, p. 186)109.
O famoso ceticismo humiano para com a faculdade do entendimento não pode ser contemplado de modo tão severo quando o assunto retorna para as questões de gosto. Aqui ele se encontra ainda mais mitigado110. De toda forma, para o delineamento da pesquisa, propõe- se as seguintes questões sobre a discussão estética na filosofia de Hume: quais são qualidades do juiz verdadeiro? Como essas qualidades são desenvolvidas? Como se dá a comunicabilidade estética entre os indivíduos? A universalidade dos juízos tem como base algum padrão? Qual a natureza desse padrão? 111
Para Hume, o crítico por excelência é aquele que emite um juízo universalmente verdadeiro, sendo capaz, por conseguinte, de distinguir obras condicionadas pelo modismo daquelas que se elevam ao patamar dos grandes clássicos. Todavia, para que críticos sejam formados, há de se ter um lugar apropriado, pois “[...] é impossível que as artes e ciências surjam num povo sem que este tenha antes desfrutado da benção de um governo livre” (HUME, 2011, p. 86). A liberdade, portanto, é um dos princípios mais elementares para o surgimento do progresso nas artes e nas ciências. Sem esse meio propício, é impossível haver qualquer refinamento de gosto e, portanto, a formação de verdadeiros críticos (true judges). Um povo governado por um poder totalitário “[...] é escravo no sentido pleno e próprio da palavra, e é impossível que possa aspirar a refinamentos de gosto ou razão” (HUME, 2011, p. 87). Esta conclusão reafirma o próprio argumento humiano de que os contextos influenciam tanto no surgimento dos críticos quando no florescimento das artes. Num lugar em que não há magnânimas obras, também não haverá indivíduos de elevado gosto estético. Essa característica, para o ilustre filósofo escocês, reflete a degradação ou a elevação – tanto artística como científica – de uma determinada civilização.
109 No último capítulo o problema do padrão do gosto na filosofia humiana será analisado profundamente, tomando como referência o seu principal ensaio Do Padrão do Gosto.
110 Juiz verdadeiro (trude jugde), padrão do gosto (standard of taste), regras gerais (general rules) são apenas alguns conceitos utilizados pelo filósofo no que se refere ao âmbito estético e moral que vêm a comprovar esse ceticismo mais brando. A expressão “ainda mais” se contrapõe a uma concepção cética assumida no exame do entendimento humano, bem diferente do exame realizado na moral. De todo modo, o próprio Hume (2003, p. 217) já se distinguia do ceticismo pirrônico: “Existe, com efeito, um ceticismo mais mitigado, ou filosofia acadêmica, que pode ser tanto útil quanto duradouro, e que pode ser em parte o resultado desse pirronismo, ou ceticismo excessivo, quando suas dúvidas indiscriminadas são em certa medida corrigidas pelo senso comum e a reflexão”
111 Dessas questões, as três primeiras serão analisadas nesta parte do trabalho (sendo a terceira retomada na seção seguinte), deixando as outras duas para serem perscrutadas no último capítulo.
Ora, se o ambiente influencia na educação estética, o mesmo não se pode dizer em relação ao refinamento de gosto (enquanto exercício), já que este é um trabalho inteiramente pessoal. O exterior influencia o indivíduo tão somente na medida em que lhe proporciona ou não um ambiente adequado. Contudo, o desenvolvimento de suas sensibilidades dar-se-á por meio de um esforço solitário. Mesmo porque a beleza não é uma propriedade externa, pertencente aos objetos, visto que advém de uma percepção que se tem deles. Logo, conforme nos elucida Costelloe (2007, p. 2), se “beleza não é uma qualidade no objeto ajuizado, mas um sentimento surgido no indivíduo como resultado da relação formada entre o indivíduo e o mundo” 112, cabe ao sujeito a tarefa de refinamento do gosto, a qual lhe propiciará uma maior
sensibilidade acerca da beleza e deformidade.
Destarte, um matemático que se deparasse com a obra de Virgílio e tivesse o prazer de analisar um mapa da viagem de Enéas ou examinar o significado de cada palavra empregada por aquele autor, conheceria toda a narrativa, mas ignoraria sua beleza (HUME, 2011). Mesmo tendo explicado plenamente todas as propriedades do círculo, Euclides não falou sequer uma palavra sobre a sua beleza (HUME, 2011). Pois, como assevera Hume, “a beleza não é uma qualidade do círculo. Ela não está em parte alguma da linha [...] ela é apenas o efeito que essa figura produz numa mente cuja textura ou estrutura particular a torna suscetível a tais sentimentos” (HUME, 2011, p. 132) 113. Hume assegura que a beleza não está
num poema, num círculo ou em qualquer coisa externa, “[...] mas no sentimento ou gosto do leitor” (HUME, 2011, p. 133). O seu juízo depende da operação do objeto sobre os órgãos da mente, visto que “[...] uma alteração nesta última deve fazer variar o efeito, e o mesmo objeto, apresentado a uma mente de todo distinta, não produz o mesmo sentimento” (HUME, 2011, p. 132). Assim sendo, a “beleza não é qualidade nas coisas mesmas. Ela só existe na mente que as contempla, e cada mente percebe uma beleza diferente” (HUME, 2011, p. 176) 114.Ora, em
se tratando da beleza ser uma qualidade mental que depende da sensibilidade que cada pessoa tem para perceber os mínimos detalhes do objeto analisado e, assim, emitir um juízo de valor apurado, cabe o seguinte questionamento: as pessoas nascem com alguma predisposição que as tornam mais sensíveis à beleza e à deformidade? Concorde Hume, existem pessoas que estão sujeitas a uma delicadeza de gosto, do mesmo modo que a uma delicadeza de paixão. Estas seriam pessoas “extremamente sensíveis a todos os incidentes da vida” (HUME, 2011,
112 “Beauty is not a quality that resides in an object so judged, but a feeling that arises in an individual as a result of the relationship formed between that individual and the world”.
113 Essa textura ou estrutura particular significa que o objeto não pode ser descartado, como cria os racionalistas. Pelo contrário, é pelo objeto que o crítico será levado a emitir o seu juízo.
114 Um problema que já se pode colocar, mas que, todavia, será perscrutado somente no último capítulo, é o seguinte: como Hume compreende, portanto, o padrão?
p. 13), e passíveis de sentimentos mais violentos. Dessa forma, “toda honraria ou sinal de distinção as eleva acima de qualquer medida, mas são sensivelmente tocadas pelo desprezo” (HUME, 2011, p. 13). Como na vida grandes dores são mais comuns que grandes prazeres, pessoas mais suscetíveis às paixões serão afetadas com maior intensidade por situações dolorosas (HUME, 2011), tendo uma vida de infelicidades. Analogamente, as pessoas que têm uma delicadeza de gosto são extremamente sensíveis “[...] em relação a todas as variedades de beleza e deformidade” (HUME, 2011, p. 14). Conforme nos elucida Hume (2011, p. 14),
Se mostrar um poema ou um quadro a um homem dotado desse talento, a delicadeza de seu sentimento faz que seja sensivelmente tocado por cada uma de suas partes, e o requintado paladar e satisfação com que percebe as magistrais pinceladas não são menores que seu desgosto e insatisfação diante das negligências e dos absurdos. Essas pessoas, além de terem um gosto apurado, levarão uma vida mais tranquila, pautada numa paixão calma proporcionada pelo sentimento estético 115. Entretanto, a questão colocada no início ainda permanece sem resposta. Quando se pergunta quais qualidades são necessárias para conseguir distinguir um crítico – indivíduo de gosto apurado e que emite juízos verdadeiros sobre o belo – de uma pessoa comum, a que necessariamente se refere? Da qualidade predisposta da mente em ter uma delicadeza de gosto? Não. Essa predisposição, para Hume, seria apenas uma característica, dada pela natureza, utilizada pelas pessoas para aprimorarem seus gostos. Todavia, ela não seria necessariamente inevitável, sem a qual um sujeito comum não conseguiria refinar o seu senso de beleza e deformidade116. Mesmo que o filósofo tenha estipulado certas predisposições como importantes para a apreciação crítica117, não significa que sem elas as pessoas não serão capazes de adquirirem um gosto delicado. Por
115 Hume sugere que as pessoas que vivem com a delicadeza de gosto são mais felizes que as pessoas que vivem com a delicadeza de paixão. Eis um dos motivos para se buscar uma educação estética, objetivando o afinamento de gosto. Entrementes, essa associação entre o gosto estético e moral será retomada mais à frente, quando se discutirá a relação entre esses dois âmbitos.
116De acordo com Wieand (1984, p. 135), “algumas pessoas poderão ter mais bem desenvolvidas as faculdades de juízo estético do que outras, mas todo mundo é capaz de desenvolver suas faculdades nessa direção” [Some may have more finely developed faculties of aesthetic judgment than others, but everyone is capable of developing his faculties in this way]. Claro que esse “todo mundo”, no contexto da filosofia humiana, não significava um universalismo romântico, visto que a sua posição é muito clara em seu ensaio Do Caráter Nacional, no qual diz “[...] suspeitar que os negros são naturalmente inferiores aos brancos” (HUME, 2004, p. 344). Este é um dos erros mais notório do filósofo que, infelizmente, não chegou a ser negado ou nem mesmo reformulado.
117 Hume (2011, p. 94) chega a prescrever que “as artes do luxo, e principalmente as artes liberais, que dependem de um gosto e sentimento refinado, facilmente desaparecem, pois são apreciadas apenas por uns poucos, cujo ócio, fortuna e gênio os predispõem a essas distrações”.
outro lado, isso não significa que serão muitos os que conseguirão atingir o nível de refinamento elevado.
As variações da delicadeza de gosto entre as pessoas são muitas. Onde uma pessoa percebe deformidade, outra é sensível à beleza (HUME, 2011). Distinguir, portanto, um juízo verdadeiro de outro falso não é das tarefas mais fáceis. Para isso, existe o crítico, aquele que conseguiu aperfeiçoar o seu gosto e emitir juízos que servem de parâmetro estético (e moral). Hume (2011, p. 178) estipula três regras básicas para verificar se a pessoa que se diz entendida sobre o assunto deve ou não ser levada em conta: “perfeita serenidade da mente, concentração de pensamento, devida atenção ao objeto”. O filósofo assevera que “se qualquer uma dessas circunstâncias faltar, nosso experimento será falacioso, e seremos incapazes de julgar a beleza geral e universal” (HUME, 2011, p. 178). A mínima desordem interna ou externa pode acarretar em juízos desordenados. Mas o que o filósofo quer dizer com tais normas?
Quando Hume cita perfeita serenidade da mente, está se referindo ao seu estado saudável, livre de problemas: “um homem febril não poderia sustentar que seu paladar é capaz de decidir sobre sabores, nem tampouco outro, vítima de icterícia, pretender dar um veredito sobre cores” (HUME, 2011, p. 179) 118. A harmonia clássica entre corpo e mente é
restabelecida aqui como regra indispensável para a instauração de um juízo verdadeiro. No que se refere à concentração de pensamento, está em acordo com essa regra a necessidade de se ter uma delicadeza de imaginação. Essa qualidade refere-se à capacidade de perceber e conciliar os diminutos detalhes do que se analisa. Sem a devida atenção, o averiguador não conseguiria correlacionar as emoções mais finas – afloradas pela delicadeza de imaginação. O maior exemplo dado para ilustrar o englobamento de todas essas regras para a formação de um juiz verdadeiro (true judge) se encontra na famosa passagem do Dom Quixote, quando dois dos seus parentes são convocados para provar do vinho e oferecer uma opinião a respeito de sua qualidade:
Deram aos dois para provar do vinho de uma cuba, pedindo-lhes seu parecer do estado, qualidade, bondade ou malícia do vinho. Um deles o provou com a ponta da língua, o outro não fez mais de chegá-lo ao nariz. O primeiro disse que aquele vinho sabia a ferro, o segundo disse que mais sabia a cordovão. O dono disse que a cuba estava limpa e que o tal vinho não tinha mistura alguma da qual pudesse ter pegado sabor de ferro nem de couro. Mas nem por isso os dois famosos bebedores
118 Wieand (1984, p. 135) demonstra que Hume “[...] acredita que a falha em obter o devido sentimento pode ser atribuída, na maioria dos casos, não à constituição das faculdades inferiores, mas a essas que vieram a ficar doentes ou enfermas ou a ser inadequadamente empregadas” [(…) Hume believes that the failure to feel the proper sentiment can be attributed in most cases not to constitutionally inferior faculties, but to those which have become unhealthy or unsound or which are improperly employed].
arredaram do já dito. Passou-se o tempo, vendeu-se o vinho e, quando limpara a cuba, acharam nela uma chavezinha amarrada a uma tira de cordovão (SAAVEDRA, 2007, p.179).
Nota-se facilmente como a estrutura mental do indivíduo deve estar em perfeitas condições, em conjunção com a delicadeza de imaginação e a atenção para conseguir oferecer um parecer verdadeiro. Se não fosse pelo esvaziamento do barril, muitos teriam os seus juízos como falso, dada a dificuldade de se conseguir apurar com tanta distinção os sabores. O reconhecimento da perfeição de cada sentido, para Hume (2011, p. 181), dá-se justamente quando
[...] cada sentido ou faculdade consiste em perceber com exatidão seus mais diminutos objetos e em não deixar que nada escape à sua consideração e observação. Quanto menores são os objetos a que o olho se torna sensível, tanto mais fino é esse órgão, e tanto mais elaborado o modo como é feito e composto.
A apuração do gosto corresponde a um englobamento dos sentidos. Assim como o olho se torna mais sensível para as artes contemplativas, os outros sentidos o serão no que diz respeito às artes que os correspondem. Algumas farão uso de mais de um sentido, como no caso do parecer sobre o vinho em Dom Quixote, em que a distinção do couro e da chave foi dada pelo paladar e pelo olfato. Hume assegura que a sensibilidade é mais perfeita quanto melhor conseguir distinguir os menores objetos, em analogia à proclamação de Fontenelle (1993, p. 159): “os relógios mais comuns e mais grosseiros marcam as horas; apenas os fabricados com mais arte é que marcam os minutos” 119.
Não obstante, ninguém consegue o apuramento do gosto sem outros dois procedimentos: a prática e a comparação. Eles agregam qualidade aos outros três princípios precedentes – serenidade mental, delicadeza de imaginação/concentração da mente e atenção. A prática, em matéria de delicadeza, faz com que haja uma diferenciação de gosto entre uma pessoa e outra (HUME, 2011). Quando um objeto se apresenta pela primeira vez aos sentidos, ele vem acompanhado de certa obscuridade, pois “o gosto não consegue perceber as muitas excelências da realização, e menos ainda distinguir o caráter particular de cada uma delas, identificando sua qualidade e seu grau” (HUME, 2011, p. 182). O indivíduo não se consegue pronunciar de forma lúcida acerca da obra de arte: “Quando o crítico não é auxiliado pela prática, seu veredito é acompanhado de confusão e hesitação” (HUME, 2011,
119Hume (2011, p. 186) prescreve que “quando o crítico não tem delicadeza, julga sem nenhuma distinção e só é afetado pelas qualidades mais grosseiras e palpáveis do objeto: os toques mais finos não são notados e levados em conta”.
p. 186). No entanto, quando se lhe é permitido obter mais experiência com o objeto examinado, o sentimento, em decorrência dessa prática, tornar-se-á mais claro e sutil (HUME, 2011). Destarte, “dissipa-se [...] a névoa que antes parecia pairar sobre o objeto: o órgão adquire maior perfeição em suas operações e pode se pronunciar, sem risco de engano, a respeito dos méritos de qualquer realização” (HUME, 2011, p. 183). Nesse processo, algumas pessoas adquirem maior acuidade na averiguação, emitindo juízos que servirão de referência estética; outros, nem tanto, conseguindo somente fazer uma análise mais superficial. Neste tipo de exame raso, a pessoa não “discerne a relação entre as partes; mal se distinguem os verdadeiros traços de estilo; as muitas perfeições e defeitos parecem envoltos numa espécie de confusão e se apresentam indistintamente à imaginação” (HUME, 2011, p. 183). Para esses sujeitos, as obras medíocres agradam de início; para um crítico mais apurado, seria constatada como “insossa para o gosto e [...] então rejeitada com desdém, ou ao menos estimada num valor muito mais baixo” (HUME, 2011, p. 183).
Todavia, a prática pressupõe a comparação e vice-versa. O crítico necessita ter um conhecimento amplo e detalhado a respeito do objeto analisado. Segundo Hume (2011, p. 183), “é impossível continuar a praticar a contemplação de qualquer ordem de beleza sem ser frequentemente obrigado a formar comparações entre as muitas espécies e graus de excelência e a estimar a proporção entre elas”. Sem comparar os diferentes gêneros de beleza, o crítico se encontra “[...] desqualificado para emitir opinião a respeito de qualquer objeto que se lhe apresente” (HUME, 2011, p. 183).
Essas cinco qualidades primordiais para a formação do crítico, fundamentam-se em outras duas características não menos importantes: a suspenção do preconceito e o bom senso. Ambos os caracteres alicerçam todos os precedentes. O crítico tem que se inserir, pelo esforço imaginativo, no contexto em que a obra foi realizada. Sendo que tal faculdade consegue transportá-lo para um determinado tempo histórico, o crítico esforçar-se para abandonar todos os seus pré-conceitos. Townsend (2001, p. 100) explica que “mesmo que Hume não antecipe a forma kantiana de desinteresse, e não o faz mesmo, ele fornece um caminho para entender a experiência emocional que esteja livre do egoísta/benevolência dicotômica”120. O
anacronismo, portanto, é algo a ser evitado (mas que não será possível de todo, como se demonstrará no próximo capítulo). Procura-se fazer uma leitura circunstancial da obra, analisando as suas influências, comparando-a com outras para, assim, poder avaliar o seu mérito, estilo e se se trata de uma produção de gênio. Essa “suspensão de juízo” tem de ser
120 “Even if Hume does not anticipate a Kantian from of disinterestedness, and he doesn’t, he provides a way of understanding emotional experience that is free of the egoist/benevolence dichotomy”.
como um todo, a ponto de se colocar numa posição de neutralidade, impedindo as tendências pessoais que se tem para com o autor, o público, a nação etc. (HUME, 2011). Ele está ali para emitir um juízo verdadeiro e não para adular o público. Explica Hume (2011, p. 184) que, mesmo “[...] quando uma obra qualquer é endereçada ao público, muito embora eu tenha amizade ou inimizade pelo autor, devo abandonar essa posição e [...] devo esquecer, se possível, minha existência individual e minhas circunstâncias peculiares”. Mas, na concepção humiana, a anulação do preconceito só será possível com a influência do bom senso – qualidade importantíssima para se compreender a questão do juízo anacrônico em Hume –, que tem como principal ação restringir a dispersão do preconceito:
É bem sabido que, em todas as questões submetidas ao entendimento, o preconceito é destrutivo para o juízo sadio e perverte todas as operações das faculdade intelectuais: ele não é menos contrário ao bom gosto, nem sua influência é menor na corrupção de nosso sentimento de beleza. Em ambos os casos, cabe ao bom senso restringir sua influência (HUME, 2011, p. 185).
O bom senso, em conjunto com a razão, direciona a mente para considerar a análise tendo em vista a finalidade artística. A devida atenção, em concordância com a delicadeza de imaginação, faz com que o crítico consiga contemplar a mútua relação e correspondência entre as partes da obra e para qual público é direcionada. Hume (2011, p. 185) defende que, em cada análise, deve-se levar em conta o proposto da obra: “Devemos ter esses fins em vista toda vez que examinamos qualquer obra, e devemos poder julgar até que ponto os meios empregados estão adaptados a seus respectivos propósitos”. A prática da comparação está implícita neste exercício, de modo que as belezas e os defeitos “não podem ser percebidos por aqueles cujo pensamento não é suficientemente amplo para compreender todas essas partes e compará-las entre si, a fim de perceber a consistência e uniformidade do todo” (HUME, 2011, p. 185). A obra artística vem a ser, portanto, analisada integralmente, dentro de suas especificidades.
O juiz, ao emitir um juízo estético, tem como referência a aceitação dos demais, sejam pessoas com certa delicadeza de gosto ou não. Para que isso se torne possível, a transmissão