2. THEORETICAL FRAMEWORK
2.4 Criteria that contribute to the positive development of the teaching profession
Aos moradores de baixa renda, a cidade, muitas vezes, apresenta-se imaterial. Onde o dinheiro é a medida de tudo, a economização da vida social impõe a competitividade e a selvageria; a relação dos moradores com a cidade torna-se tensa e desrespeitosa; a estrutura urbana segregadora concretiza, cada vez mais, as consequências dessa realidade de
confinamento à população de baixa renda. O sentido de cidadania se esvai, o discurso do medo e da insegurança invade o imaginário, impedindo que se enxergue a realidade. Constrói- se a figura do inimigo e procura-se proteção contra o mesmo.
A suspeita de que a vítima é sempre culpada é resquício de um Brasil arcaico que sempre viveu processos sociais excludentes. A questão social e a desigualdade sempre foram tratadas no Brasil com resquício de culpabilização da pobreza e dos pobres. A miséria, a ignorância, a pobreza aparecem no imaginário popular como estado da natureza ou responsabilidade do miserável, pobre, analfabeto. Não há empenho visível em revelar as tramas das relações que produzem e reproduzem as desigualdades sociais. Ao se criminalizar o outro, defende-se, mais uma vez, a ordem estabelecida e as desigualdades podem ser apresentadas como manifestações de fatalidades, carências, heranças. (Ianni, 1996)
Assim, no contexto social em que vivemos o fracasso em definir argumentos capazes de contornar os impasses contemporâneos resulta em ceticismo e desconfiança, tanto em relação ao Estado como em relação à sociedade. Os estudos atuais, porém, trazem a inflexão de que as desigualdades deixam de ser naturais, a pobreza torna-se uma questão política e iniciativas de proteção social mais amplas e articuladas no campo dos direitos sociais desloca a perspectiva de responsabilização individual pela miséria. (Martins, 2005)
Entretanto, a implicação do processo de urbanização desenfreado e sem limites tem sido percebida como dificuldade em poder compartilhar os espaços públicos, em vivenciar a cidade como um produto coletivo. A noção de coletivo, de comunidade se esvai e fragiliza os laços sociais. A cidadania que se instaura pela possibilidade do ser humano de inserir a sua singularidade por meio de seu gesto, fratura-se.
Os processos de exclusão, da falta de encontro com o outro humano em uma cidade que não acolhe, mas discrimina; o sofrimento derivado da carência, da miséria, da falta de confiança provoca um sofrimento psíquico que é decorrente de fraturas da cidadania, ou como nos diz Safra (2002), são sofrimentos provocados pelo estilhaçamento da ética, fenômenos que se encontram na literatura psicológica e social sob a categoria de exclusão social. Os sofrimentos derivados da humilhação, do desenraizamento, da invisibilidade, da tecnologia opressora provocam no ser humano uma inércia equivalente à morte ou o lança em atividade que perpetua o próprio desenraizamento.
Para o autor, abordar a clínica historicamente significa dizer que a subjetividade humana sofre alterações de acordo com o momento histórico, assim como implica afirmar que o homem, a subjetividade humana, o psiquismo humano, deve ser sempre pensado em conjunção com o mundo. Isso reflete um posicionamento contra certa maneira de enxergar a subjetividade humana a partir do individualismo ou como um fenômeno intrapsíquico. Mais do que nunca há a necessidade de abordar o acontecer humano com as peculiaridades e as características do mundo atual.
Humilhação e invisibilidade são experiências constantes vividas pela população de baixa renda. A humilhação, decorrente de um processo de exclusão social, mostra o impedimento do ser humano de participar do campo social como um todo, além de ser considerado inferior e desprezível pelas pessoas das classes dominantes.
Gonçalves Filho (1998) em seus estudos sobre humilhação aponta com propriedade para o sofrimento que se instaura quando o indivíduo de baixa renda ao se aventurar pelos espaços urbanos facilmente sente seu caráter expulsivo e excludente. Para o humilhado, que carrega um sofrimento político corrosivo, os espaços urbanos são espaços imantados pelo poder de segregar, pelo poder de sempre atualizar a desigualdade de classes.
Nada mais angustiante que não poder compartilhar de algo que é seu, da fruição de um bem que só pode se perfazer quando está mantida a possibilidade de fazê-lo circular sem deixar de ser meu. Gonçalves Filho (1998) refere que nossa humanidade é o que somos e o que possuímos, é o que somos através do que possuímos. Assim, é preciso que a posse de bens não represente um apego para podermos existir no meio deles, liberando-nos; liberando- nos da coincidência com coisas. Para experimentá-lo seria preciso que nossa satisfação pessoal não se fundamentasse na insatisfação dos outros, na exclusão e no servilismo do outro. Nada mais difícil em uma sociedade de classes.
“Para os pobres, a humilhação ou é uma realidade em ato ou é frequentemente sentida como uma realidade iminente, sempre a espreitar-lhes, onde quer que estejam e com quem quer que estejam. O sentimento de não possuírem direitos, de parecerem desprezíveis e repugnantes, torna-se-lhes compulsivo: movem-se e falam como seres que ninguém vê”. (p. 17)
A invisibilidade traz a experiência de não ser visto no campo social. Trata-se de uma situação que vem quase sempre acompanhada pelo sentimento de humilhação, porém a
experiência de não ser visto ganha relevância. Para Safra (2004) o mal-estar decorrente dessa situação pode ser a desesperança e amargura e, em casos extremos, deflagram comportamentos violentos como forma de alcançar a visibilidade.
A impossibilidade de compartilhar o mundo traz angústia que, na clínica winnicottiana é reconhecida como o sentimento de não existir no meio dos outros, não existir para os outros e não consentir a própria existência. Winnicott (1975a) menciona que seja qual for a definição a que se chegue a respeito da criatividade, esta deve incluir a ideia de que a vida vale a pena ser vivida, a ponto de a criatividade ser uma parte da experiência de vida de cada um. O autor afirma que para ser criativa, uma pessoa precisa existir, e ter um sentimento de existência, não na forma de uma percepção consciente, mas como uma posição básica a partir do qual operar.