MPR 1/14 MPR 2/14
Criterion 1 Criteria 1&2
De acordo com Brzozowski e Caponi (2009) e Boavida et al. (1998), o diagnóstico de PHDA é essencialmente clínico e subjetivo, baseado em critérios comportamentais expressos por pais e/ou professores através de questionários de Conner ou verbalmente na consulta médica, e não existem registos no exame físico ou resultados laboratoriais que possam confirmar ou contestar o diagnóstico. Perante a inespecificidade do diagnóstico e sua etiologia, as mães, na sua grande maioria, referiram a genética como a principal causa para a PHDA.
Apesar dos inúmeros estudos já realizados relativos a esta matéria, ainda não se tem conhecimento das causas da PHDA. Investigadores como Brzozowski et al., (2010); Fish, (2004) e Daley et al., (2008), apontam que existem possíveis fatores genéticos e ambientais responsáveis pelo desenvolvimento da doença na criança. Inicialmente o comportamento problemático das crianças era tido como uma irresponsabilidade dos pais mas, com o surgimento de uma nova causa para a PHDA, houve uma transferência de causas teóricas de comportamento problemático da esfera social para o cérebro individual (Singh, 2004).
Segundo Carpenter e Austin (2008 in Mills, 2010), as mães sentem-se culpadas e responsáveis pela doença do filho e por facilitar a adaptação da criança ao meio escolar para que ela seja aceite como ‘capaz’. Este sentimento de culpa é partilhado por algumas mães devido à não existência de uma causa específica para a PHDA e por uma falta de informação advinda da classe médica, tal como nos testemunhos seguintes:
“Não sei… porque provavelmente não sei se foi genético, se foi alguma coisa que eu não tive capacidade de poder fazer (…) e pronto, sinto-me assim um pouco culpada porque penso que foi algum erro que eu fiz, quando andava grávida ou assim, não sei. Não posso explicar… (…). A médica, pronto, disse para eu não pôr as culpas em mim, porque pode ser já de família, (…). Mas eu acho que uma mãe sente-se sempre culpada sempre de alguma coisa, mesmo não tendo culpa, sente-se sempre culpada de alguma coisa com o filho”. (Bárbara, mãe do Bruno) “(…) Sim, culpava-me muito pela questão dela ser assim… (…). Senti muita culpa! Não posso explicar porquê, assim pormenorizadamente não posso explicar porquê, mas sentia muita culpa. Porque as coisas podiam ter sido diferentes, a gravidez podia ter sido melhor, podia ter sido mais calma e se calhar foi por causa disso que ela veio assim mais… sei lá, mais ativa, talvez por causa do sistema nervoso, porque a gente passa tudo aos filhos… E sim, senti-me muita vez culpada… aliás, muito culpada! Mas pronto, depois isso com o tempo também foi acabando por atenuar um bocadinho!” (Filomena, mãe da Francisca)
No discurso proferido por estas mães, não existe uma razão específica para o sentimento de culpa que as acompanha com o passar do tempo e a sensação de que cometeram uma falha durante a gravidez é a grande responsável por tal sentimento e o fator genético, tal como advogam Boavida et al. (1998), apesar de ainda não se encontrar devidamente explicado, tornou-se particularmente útil na articulação de uma causa neurológica à PHDA e na desculpabilização dos pais e próprias crianças. Apesar disso, quando Filomena declara que “depois isso [a culpa] com o tempo também foi acabando por atenuar um bocadinho!”, não significa que esse sentimento tenha desaparecido ou atenuado devido à confirmação do diagnóstico, mas sim da aceitação da condição como algo que tinha de ser assim, porque é genético do qual não tem controlo e porque passou por uma fase menos positiva enquanto progenitora.
67 A intervenção médica não significa, necessariamente, que as mães não se sintam culpadas pelos comportamentos de seus filhos, mesmo que elas próprias defendam a narrativa ‘cérebro-culpa’. Na verdade, como as mães tentam traduzir um entendimento biomédico da PHDA nas suas experiências relacionais com seus filhos, o sentimento de culpa é reconstituído em vez de abolido (Singh, 2004), tal como no exemplo que se segue:
“(…) perguntei muitas vezes se a culpa não tinha sido minha… (…). Eu acho que já me deixei de culpar pela situação do André. Acho que não vem da educação que nós damos ao André porque realmente nós sempre pensámos que nós é que estávamos a errar, mas acho que não. É do próprio cérebro do André, não tivemos culpa”. (Alice, mãe do André)
Quando esta mãe diz “é do próprio cérebro do André, não tivemos culpa” sugere que ninguém seja culpado pela doença e ninguém deve ser responsabilizado por tal situação. Neste caso, esta mãe possuía um sentimento de culpa que foi amenizado pela narrativa ‘cérebro-culpa’ (Singh, 2004), deixando de se sentir responsável pela doença e condição do seu filho. Neste caso, a colocação do rótulo de doença, e muito particularmente a atribuição de sua etiologia a causas genéticas, funciona no sentido do descrito por Parsons (1951), no seu conceito de sick role, já que o indivíduo, e neste caso, os pais, não são culpabilizados por o filho possuir uma doença, tendo seguido o percurso socialmente esperado no processo – a procura de tratamento médico.
A classificação da PHDA como uma patologia, aliada ao facto de existir um método de tratamento farmacológico que possibilita diminuir os sintomas de hiperatividade e o défice de concentração, coloca os progenitores numa quase exigência de resolver medicamente o problema do seu filho, o que socialmente é o esperado.
Na sua obra Conrad (2006), descreve a maneira pela qual os pais são absolvidos no processo de etiquetagem das crianças. Ele argumenta que a atribuição de um rótulo reconhecido medicamente tanto pode dar acesso a uma gama de recursos como também pode fazer algo para reduzir a culpa que muitas vezes se atribui a ter filhos considerados difíceis pela escola. A ideia de que pode haver uma razão biológica para o comportamento da criança remove a culpa dos pais que enfrentam a pressão social e institucional para alocar responsabilidades. Apesar de o sentimento de culpa ser o discurso maioritário nas entrevistas, também houve quem não se sentisse responsável pela doença do(a) filho(a), tal como no exemplo destes testemunhos:
“Não tenho de me sentir culpada de nada. Não tenho culpa, não é!? Isso não”. (Juliana, mãe
da Joana)
“(…) não tenho de me sentir culpada. Não tenho motivos para me sentir culpada! Ele foi uma criança desejada, veio porque a gente quis, aceitamo-lo como ele é!” (Graça, mãe do
Em todos os discursos, havendo ou não sentimento de culpa das mães pela condição do seu filho, as mães fizeram questão de mencionar que ser hiperativo é uma realidade e ‘mal- educado’, outra. Talvez tenham sentido a necessidade de se afirmar como ‘boas mães’ e que a questão não está no tipo de educação que lhes dão, mas sim num ‘problema’ comportamental pelo qual estão a passar e que vai ser ultrapassado com a idade. Para Brzozowski e Caponi (2009:1183), se há dúvidas quanto ao problema da criança, se ela é doente ou não, se seus maus comportamentos derivam de “falta de educação” ou de uma patologia, essas são sanadas quando ocorre a consulta médica.