Biber, Conrad e Reppen (1998), no capítulo 6 da obra Corpus Linguistics: investigating language structure and use, abordam questões sobre a descrição de características da língua (lexicais, gramaticais ou traços discursivos [discourse features]). No entanto, afirmam que pesquisadores têm estudado questões relacionadas à descrição de registros8 ao invés de características linguísticas individuais. O termo registro é usado como um cover term, ou seja, um conceito impreciso para variedades definidas por suas características situacionais. Alguns registros podem ser mais específicos, como uma novela, ou uma metodologia de um artigo científico, assim como podem ser mais gerais, como uma conversa ao telefone. Segundo os autores, os registros se diferem de dialetos, pois são definidos de acordo com sua situação de uso, considerando seu propósito comunicativo, tópico, interatividade, modalidade. Já dialetos são definidos por suas associações com diferentes grupos de falantes.
Os autores também afirmam que dominar uma escala de registros é essencialmente importante para um falante competente e fluente de uma língua. Evidentemente que ninguém domina um único registro, pois no decorrer de um dia, fala-se e escreve-se sob a orientação de uma escala de registros. Por exemplo, a linguagem que se usa para escrever um artigo é diferente da usada para conversar com um amigo ou parceiro, e esses registros são diferentes daqueles utilizados para se discutir com um professor ou escrever uma carta para a mãe.
Dada a necessidade de permuta entre os registros, a aquisição das características do registro são fundamentalmente importantes para estágios de desenvolvimento no que se refere a aprendizado, por exemplo: uma criança usa uma linguagem para se comunicar com amigos, diferente da que usa com adultos; ou para um estudante de ensino fundamental que descobre as narrativas escritas, cujo registro é diferente de uma conversação, ou ainda, para um estudante universitário que descobre que os modos de dizer de um artigo de Biologia são diferentes das narrativas pessoais escritas.
Para entender o processo de aquisição do registro e as maneiras que o professor utiliza para facilitar este processo, é preciso primeiro descrever as características linguísticas de diferentes registros, identificando suas similaridades e diferenças.
8 Os autores denominam registro, o que nesta pesquisa denomina-se gênero. Desse modo, o emprego do
Embora pesquisadores tenham reconhecido a necessidade de descrições, encontrou-se a dificuldade de conseguir descrever sem uma abordagem baseada em corpus. Para tanto, para estudar registro há três requisitos importantes, segundo os autores:
1. inclusão de um grande número de textos;
2. consideração de uma ampla escala de características linguísticas; 3. comparação das características que identificam registros.
A inclusão de um grande número de textos é importante porque estudos de registros baseados em poucos textos são provavelmente imprecisos.
Segundo, em estudos baseados em apenas alguns registros, as características selecionadas não fornecem descrições detalhadas do mesmo, e as descrições baseadas em tais estudos são provavelmente insuficientes. É raro que um registro seja identificado por ocorrências de uma característica linguística diferente encontrada somente neste registro, ou seja, é raro que um registro seja identificado por uma característica encontrada nele próprio.
Preferencialmente, registros compartilham muitas características linguísticas, como a presença de classes de palavras: substantivos, pronomes, verbos, adjetivos, etc., e eles são diferenciados pelo uso relativo dessas características, isto é, as diferenças sistemáticas no uso relativo de traços linguísticos fornecem características preliminares de diferenças que podem identificar registros.
Finalmente, análises de registros exigem uma abordagem comparativa: é necessária uma base para comparação, cuja finalidade é saber se o uso de um traço em um registro é raro ou comum.
Uma frequência particular, específica, não é nem comum e nem rara. Por exemplo: pode-se somente interpretar a frequência de um determinado traço em determinado registro em relação a outro registro. Uma contagem de frequência para orações relativas em um registro particular é somente significativa em comparação com outro registro.
De acordo com os autores, essas análises são difíceis de serem realizadas manualmente, pois é extremamente demorado analisar à mão mesmo uma ou duas características linguísticas. É quase impossível identificar as ocorrências de características linguísticas múltiplas em uma única leitura do texto. Para experimentar essa difícil tarefa, os autores sugerem o seguinte exercício: escolher uma página de um livro e ler apenas uma vez, tentando identificar todas as ocorrências de cinco características linguísticas:
1. nominalizações; 2. construções passivas; 3. verbos modais; 4. orações relativas; 5. frases preposicionais.
Os autores sugerem cronometrar quanto tempo esse tipo de tarefa exige. Ao terminar, deve-se comparar com algum colega que tenha feito a mesma atividade para determinar o tempo gasto em suas análises. Finalmente, é preciso imaginar o quão difícil seria manter o mesmo tempo de análise, para escrutinar uma dúzia de características linguísticas diferentes, analisando textos provenientes de registros diferentes.
Essa abordagem apresentada pelos autores é de fundamental importância para este trabalho, uma vez que orienta uma metodologia de análise dos gêneros, sobretudo no que se refere aos três requisitos apresentados acima, mais especificamente a comparação entre os gêneros para definir um traço9 recorrente.