Neste contexto físico, a figura do emissor constitui a pessoa (ou máquina) que produz fisicamente o texto, podendo essa produção ser efetuada na modalidade oral ou escrita (Cf. BRONCKART, 1999, 93). Além de emissor, esta pessoa que produz o texto, ainda recebe o nome de produtor ou locutor, a depender da situação comunicativa em que o texto for produzido. A seguir, vejamos como esse importante elemento do contexto é abordado nas orientações que encaminham a produção textual no corpus desta pesquisa.
Inicialmente, vejamos o próximo fragmento retirado do manual Redação para concursos e vestibulares, especificamente, no Capítulo 8, intitulado Elaboração do texto, na seção A finalidade do texto, à página 50.
Mas, para que serve, afinal, um texto? Bem, a primeira função do texto, no caso da redação, é comunicar algo a alguém. Como o texto solicitado em exames de provas geralmente é uma dissertação, você deverá comunicar nela sua opinião sobre determinado tema a um avaliador. Para isso, você poderá utilizar as várias funções da linguagem, sempre adequando-as às exigências do exercício, ou seja, dependendo do seu objetivo como emissor, escreverá uma redação na qual predomine função referencial, poética, emotiva, fática, metalingüística ou conativa.
O trecho acima estabelece atribuições ao produtor do texto. Além disso, encontramos a palavra “emissor” que é vista como uma pessoa que escreve um texto seguindo determinadas convenções. O produtor, enquanto emissor, deve estar cientificado das convenções que a produção de texto estabelece: isto é muito enfocado no trecho ora analisado.
Em muitos manuais e/ou livros didáticos, muitas vezes, não encontramos nenhuma menção ao emissor. Apenas, as orientações encaminham a produção sem ressaltar as responsabilidades condizentes ao papel do emissor.
Observemos agora, o seguinte trecho retirado do Manual de Redação da Presidência da República, que enfoca aspectos ligados ao emissor do texto. A orientação é intitulada A impessoalidade e está localizada à página 04, no Capítulo 01, sendo este denominado Aspectos Gerais da Redação Oficial. Eis o exemplo:
A finalidade da língua é comunicar, quer pela fala, quer pela escrita. Para que haja comunicação, são necessários: a) alguém que comunique, b) algo a ser comunicado, e c) alguém que receba essa comunicação. No caso da redação oficial, quem comunica é sempre o Serviço Público (este ou aquele Ministério, Secretaria, Departamento, Divisão, Serviço, Seção); o que se comunica é sempre algum assunto relativo às atribuições do órgão que comunica; o destinatário dessa comunicação ou é o público, o conjuntos dos cidadãos, ou outro órgão público, do Executivo ou os ou dos outros Poderes da União.
Aqui, percebemos que cada elemento do contexto de produção é bem colocado na situação de produção, inclusive o emissor, identificado no trecho pela sentença “alguém que comunica”. Quando encontramos todos os elementos norteadores que compõem os parâmetros do contexto sociossubjetivo de produção, acreditamos que o produtor tenha mais condições de construir um bom texto
Agora, observemos o próximo fragmento, extraído do livro didático Português: linguagens, mais precisamente no Capítulo 34, à página 358.
Escolha um dos objetos que seguem e escreva um anúncio publicitário para ele, de acordo com as características, a linguagem e os recursos próprios do gênero. Dê um título sugestivo ao anúncio.
No livro, abaixo dessa orientação, estão veiculadas 05 (cinco) gravuras: uma bola, uma bicicleta, uma guitarra, a paisagem de uma praia e a Torre Eiffel.
Antes, da orientação acima, o livro apresenta exemplos de anúncios publicitários e expõe, na página 357, as características de textos publicitários escritos.
# quase sempre constituído por imagem e texto; # linguagem, persuasiva, direta e clara;
# estrutura variável, mas geralmente composta por: - título, que chama a atenção sobre o produto; - texto, que amplia o argumento do título; - assinatura, logotipo ou marca do anunciante;
# nível de linguagem de acordo com o público que se pretende atingir; # verbos geralmente no modo imperativo ou no presente do indicativo; # uso de recursos como figura de linguagem, ambiguidade, jogos de palavras, provérbios, etc.
Tanto a orientação quanto as características apresentam considerações sobre a estrutura do anúncio publicitário e o tipo de linguagem a ser utilizada. Entretanto, ambos não priorizam os elementos do contexto físico, como o emissor e o receptor.
Sabemos que, atualmente existem inúmeras agências de publicidade espalhadas pelo país. Cada agência contrata, geralmente, vários publicitários, a depender da estrutura de cada uma. Muitas vezes, um anúncio publicitário é construído por uma equipe, apesar da agência, com o anúncio já feito, assumir a função de emissora.
Neste sentido, os autores do livro didático, poderiam ter abordado este fato. Abordagem esta que não impediria a produção de um anúncio publicitário em sala de aula ou em outro lugar de produção e que fosse produzido por um ou mais emissores.
Agora, observemos o fragmento abaixo, extraído do livro didático Todos os textos, mais precisamente na Unidade 2, Capítulo 1, à página 40.
Escolha, junto com seus colegas de grupo, uma música atual que todos conheçam. A seguir escrevam um poema cujos versos se “encaixem” na letra e na melodia da música escolhida. Vocês podem criar um texto que brinque com a sonoridade das palavras ou escolher um assunto que faça uma crítica bem-humorada a um programa de TV, aos desmandos dos políticos, à saúde, à educação, ao seu bairro, à sua rua, ou ao que quiserem. Terminado o poema, dêem a ele um título sugestivo. Depois,
sob a orientação do professor, cantem o poema, apresentando-o à classe. Outra possibilidade: ponham música no poema a seguir e cantem-no.
Nestes fragmentos, apesar das possibilidades sugeridas, percebemos que há um distanciamento entre as solicitações feitas na proposta e o emissor do texto a ser produzido. Podemos, ainda, especificar tal distanciamento ao associarmos o que de fato a proposta sugere à capacidade que os alunos da série/ano à/ao qual o livro didático é direcionado. Deste modo, cabe-nos o seguinte questionamento: será que os alunos da 6ª série/7º ano, numa faixa etária entre 12 e 13 anos, aproximadamente, teriam condições de criar os versos solicitados, adaptá- los à letra e melodia de uma música escolhida, ou produzirem uma crítica bem humorada, que aborde um dos assuntos propostos no enunciado? É claro que qualquer proposta por si só, sem a orientação de um professor, certamente não será suficiente para a garantia de textos bem produzidos, mas o foco da nossa análise, nesse momento, se restringe ao comando, à orientação que encaminha a produção textual.
Sabemos que cada elemento do contexto de produção tem sua importância no processo de escrita. Porém, não podemos deixar de assinalar o poder que o emissor exerce sobre o texto a ser construído. É o emissor quem escolhe cada palavra, frase, oração, parágrafo a ser construído. É ele quem seleciona que tipo de linguagem usará, é ele quem exerce o poder de decisão sobre quando começar, parar, reiniciar e finalizar o texto, apesar da grande influência que o receptor/interlocutor exerce na produção textual.
Entretanto, não podemos esquecer que todas essas habilidades do emissor são condicionadas pelo perfil do receptor, pois a máxima dialógica e a interação estão intrinsecamente relacionadas com o processo de produção textual.
Portanto, conforme já afirmamos anteriormente, quando o papel do emissor é bem definido numa orientação, as perspectivas de construção de um bom texto são maiores. Dessa forma, quando o professor solicita aos alunos que produzam um determinado texto, seja um artigo de opinião, um texto publicitário, por exemplo, sem que haja um objetivo interior, um propósito, uma razão para realizar produzir tal texto, a produção textual, dificilmente será produtiva, seja no momento de recepção da proposta pelos alunos, seja na produção em si.
Ao analisarmos o contexto sociossubjetivo, enfocaremos a posição social do emissor. Nesta categoria de análise, encontraremos mais elementos que propiciam maiores discussões.