A apresentação foi a oportunidade de ampliar os conhecimentos obtidos com o desenvolvimento do projeto, bem como divulgar seus resultados para a classe. O grupo preparou uma apresentação para duas aulas de 50 minutos cada uma e utilizou a internet e o datashow para a abordagem do subtema.
Na apresentação, o grupo optou por acessar três homepages, por meio do computador da sala de aula, e também compartilhar na prática algumas de suas percepções em relação às suas descobertas durante a leitura. Eles iniciaram com a realização de uma leitura descritiva das homepages.
Na primeira homepage, a do Jovem Aprendiz, o grupo mostrou que nela havia oportunidades para jovens de 14 a 24 anos, desde que fossem matriculados e frequentadores do ensino fundamental ou médio. Ao acessarmos os links, é possível localizar informações sobre leis do aprendiz, cursos gratuitos, dicas de como fazer currículo e outros.
Na homepage do Portal Busca Jovem também constam todas as informações da homepage mencionada anteriormente, porém ainda contém outros links com informações como espaço do educador, com artigos interessantes da área de educação, reportagens sobre o jovem no mercado de trabalho, vídeos com dicas de dinâmicas de grupo no processo de seleção, além de possibilitar que o jovem preencha um cadastro para visualizar as vagas de emprego contidas nesse portal.
O grupo mencionou que a homepage do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) oferece oportunidade de trabalho para estagiário e jovem aprendiz, com dicas de teste de capacitação, de cursos gratuitos promovidos pelo Senai, Senac, Sebrae, leis do estágio e outros. O CIEE possui parceria com
muitos órgãos públicos e privados, por isso oferece muitas oportunidades de estágios nesses órgãos. Para ter acesso a essas oportunidades, é necessário preencher um cadastro e receber uma senha para acessar alguns links da
homepage. O grupo mostrou aos colegas onde são os locais de atendimento e
acrescentou que o CIEE encaminha muitos aprendentes de universidades para empresas parceiras com eles.
Durante a apresentação os colegas de classe ficaram bastante curiosos,
levantaram questões significativas, como, por exemplo, quais são os direitos e deveres de um aprendiz ou estagiário, denotando uma boa apreensão do conteúdo. Por meio do hipertexto, o grupo preencheu um cadastro de uma das
homepages, receberam uma senha e puderam acessar links mais específicos
dessa homepage. Ainda por meio de um link, eles puderam baixar o arquivo da cartilha do estagiário e cartilha do aprendiz, publicações com ricas informações sobre os direitos e deveres dos jovens que são estagiários ou aprendizes. Ao final da apresentação, o grupo entregou um folder a todos os colegas da classe.
Ao propor o subtema conhecer homepages de instituições que oferecem oportunidade de emprego para os jovens, o nosso objetivo, a princípio, era que os aprendentes soubessem que há oportunidades de emprego para os jovens de sua faixa etária e que podem ser facilmente acessíveis pela internet. No que diz respeito ao gênero textual homepage, não temos a intenção de nos aprofundar em discussões acerca das características desse gênero, dado que ele já foi abordado no subtema 1, porém uma questão que o grupo acentuou bastante durante a apresentação e que se diferenciou do grupo anterior que discutiu sobre as homepages de universidades, foi o aspecto da multimodalidade, já que todas as homepages apresentavam possibilidades de se estabelecer conexão simultânea entre a linguagem verbal e a não verbal (imagens, animações, som) de maneira interativa, graças aos recursos de hipermídia. Isso foi verificado quando os aprendentes acessavam links que os transportavam para entrevistas, relatos e outros.
Isso evidencia que o produtor das homepages aponta vários caminhos que extrapolam os limites de um texto impresso, e os links são pistas que desviam o leitor dos caminhos previsíveis nas construções lineares ancoradas em aspectos
e conhecimentos gramaticais e lexicais, ou seja, quando o leitor acessa um link, ele pode ser transportado para outro espaço de interação graças às tecnologias digitais, o que confere aos textos novas possibilidades interativas. Por essa razão, a multimodalidade constante dos hipertextos requer que todos esses elementos de representação sejam considerados no âmbito da análise textual.
Durante a etapa de preparação, solicitei que o grupo refletisse sobre as possibilidades de construir sentidos, utilizando-se das múltiplas linguagens que constituem o gênero homepage. Rojo (2012) chama a atenção para a necessidade de a escola promover o desenvolvimento dos “multiletramentos”, conceito que a autora utiliza para o surgimento de novos letramentos, uma vez que envolve a “multiplicidade de linguagens”, mídias envolvidas na criação de significados para os textos multimodais contemporâneos. Nossa intenção era que eles não somente salientassem a multimodalidade de linguagens que se imbricam no hipertexto, mas também analisassem como os elementos multimodais se articulam com os propósitos comunicativos de cada homepage, de forma a permitir a interpretação das posições discursivas, das identidades a respeito daquilo que é exposto. Além disso, era que eles percebessem, por meio da leitura, que o hipertexto difere do texto impresso pelo fato de não ser somente a justaposição de imagens e textos, mas ter um design que permite várias interconexões, diversas possibilidades de trajetórias e múltiplas sequências.
Em relação a essa questão, Marcuschi (2007, p. 21) adverte que devemos atentar para o fato de que os novos gêneros surgem não como “inovações absolutas (...) sem ancoragem em outros gêneros”. Na verdade o que acontece é muito mais uma adaptação do gênero a uma nova realidade comunicativa, uma “transmutação” dos gêneros como destaca a teoria bakhtiniana. Cada novo gênero emergente possui sua própria identidade como também estabelece uma nova relação com os usos da linguagem, dessa forma,
Esses gêneros que emergiram no último século no contexto das mais diversas mídias criam formas comunicativas próprias com um certo hibridismo que desafia as relações entre oralidade e escrita e inviabiliza de forma definitiva a velha visão dicotômica ainda presente em muitos manuais de ensino de língua. Esses gêneros também permitem observar a maior integração entre os vários tipos de semioses: signos verbais, sons e imagens e formas em movimento. (MARCUSCHI, 2007, p. 21).
Em relação ao processo do desenvolvimento do projeto, cabe mencionar que, para construir conhecimento, este foi o grupo que mais demandou nosso envolvimento e engajamento durante o processo. Tendo em vista que 75% dos aprendentes não tinham conhecimentos prévios sobre esse subtema, notamos que o grupo sentiu insegurança para delinear os procedimentos de pesquisa e planejar a apresentação para o restante da classe. Essa experiência possibilitou- nos inferir que, além da falta de conhecimento sobre o subtema, não era fácil para eles reconhecerem que o ensinante não era mais o único a decidir sobre os caminhos a serem seguidos, nem o detentor absoluto do saber. No início do desenvolvimento desse projeto, percebemos que os aprendentes que teriam de se aprofundar nesse subtema ainda estavam habituados a seguir os procedimentos determinados pelo ensinante, ou seja, ligados às práticas tradicionais de ensino. Diante disso, foi necessária uma reflexão com o grupo sobre a importância de eles terem um papel ativo e colocar-se como sujeito da sua própria aprendizagem, interferindo diretamente nas pesquisas e estabelecendo seu próprio processo de aprendizagem.
Por essa razão, consideramos que a nossa influência no processo de desenvolvimento foi maior do que a desejada, pois sentimos que forçá-los a uma atitude autônoma durante a etapa de pesquisa poderia desmotivá-los na continuidade do projeto. Isso não significa que mudamos nossa postura de mediadora, mas nossa expectativa era a de que, no decorrer do trabalho, o grupo fosse adquirindo autoconfiança e autonomia necessárias para concluir todas as etapas por nós estipuladas. Diante disso, além de nossos diálogos serem mais intensos, sugeri que eles documentassem todas as suas ações e percepções do grupo em um diário, pois isso os ajudaria a refletir sobre o conhecimento adquirido/ampliado ao longo do processo.
Nossa proposta foi reunir-se com o grupo uma vez por semana para avaliar o processo, ouvir suas dúvidas verificar seus progressos em relação às novas descobertas sobre as homepages e, principalmente, orientá-los na continuidade das etapas. É importante mencionar que a boa relação com o grupo nos possibilitou uma conversa franca e agradável, sem registro de momentos tensos. Além disso, foi necessário, de nossa parte, desenvolver as chamadas
habilidades pedagógicas que são necessárias para que a transposição didática se efetive. Nesse caso, a linguagem pode servir como mediadora entre o conhecimento científico e o conhecimento escolar, na medida em que proporcionamos aos nossos aprendentes uma prática de aquisição do conhecimento sem sofrimento.
Nesse contexto, Vygotsky (1989) reforça a importância do papel mediador do ensinante ao conduzir o processo educativo, sendo alguém que cria condições para que o aprendente desenvolva as potencialidades que estão latentes e não seja reduzido à condição de dirigido apenas, mas assuma o papel de sujeito no processo pedagógico.
Para Freire (1996, p. 32), “não existe pesquisa sem ensino e ensino sem pesquisa”. Em consonância com o pensamento do autor, consideramos que pesquisar não significa somente algo complicado e sofisticado que pressupõe técnicas difíceis, mas também não significa apenas um esforço de meras descobertas teóricas ou de experimentações simples. Após esse trabalho mais atento de nossa parte, no sentido de motivar, criar possibilidades de discernimento entre as características das homepages, acompanhar os aprendentes no acesso às homepages, percebemos que o grupo estava se tornando autônomo em sua construção de conhecimento, uma vez que eles estavam interagindo com os conteúdos e transportando esses conhecimentos para práticas sociais do seu cotidiano.
Consideramos que trabalhar com projetos em grupo foi um dos caminhos fundamentais da formação do aprendente, tanto no que diz respeito à aprendizagem do conteúdo específico do subtema quanto do ponto de vista da mudança de postura passiva para ativa no processo da aquisição do conhecimento. Sobre essa questão, a escola pode contribuir muito criando oportunidades para que os aprendentes convivam e respeitem opiniões e valores diferentes, sem deixar de interagir. A nosso ver, esse é um dos maiores desafios enfrentados pelos aprendentes, sendo essa uma oportunidade de fazê-los vivenciar na prática. Nessa perspectiva, Kleiman (2005, p. 54) entende que
O método de trabalho que incorpora essas características e essa dinâmica é o projeto. Os documentos Curriculares Nacionais
(PCN) e os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) têm enfatizado a necessidade de organizar o trabalho com base nos projetos da escola.
Considerando que uma das principais características da proposta pedagogia do colégio é formar personalidades autônomas e críticas em um ambiente de cooperação, e a experiência é condição imprescindível para a construção do conhecimento, consideramos que a nossa proposta, bem como nosso papel de mediadora para o percurso até o alcance da autonomia foi fundamental à aquisição do conhecimento.
Em nossa sondagem inicial identificamos que 75% dos aprendentes não tinham conhecimento acerca de homepages de instituições que oferecem oportunidade de trabalho para jovens e estudantes, cabe-nos responder: em que medida a utilização dos gêneros textuais pode propiciar que os aprendentes se tornassem letrados nesse projeto de letramento?
Com relação aos objetivos propostos pela disciplina de leitura e letramento, no que diz respeito ao trabalho com gêneros textuais, verificamos que, além de os aprendentes também reconhecerem as particularidades dos gêneros homepage e seminário e folder, tal como o grupo do subtema 1, eles tiveram a oportunidade de trabalhar com o gênero diário, na medida em que registraram diariamente as descobertas, sentimentos, ações e outros.
Segundo Machado (1998, p. 39), o uso do diário nas pesquisas acadêmicas “permite que se mostre como o sujeito da pesquisa se encontra imerso no seu campo de trabalho, qual é o fundamento real de sua inteligência, como se desenvolvem as relações sociais que ele estabelece durante a pesquisa”. Diante disso, consideramos que o contato com o gênero diário promoveu um envolvimento maior do aprendente com o seu próprio aprendizado, pois essa escrita leva o aprendente a organizar seus pensamentos, promover a reflexão sobre seu papel no processo.
Outro gênero textual que foi apreendido com a abordagem do subtema 2 foi a cartilha, quando o grupo acessou, durante sua exposição, a cartilha do aprendiz e a cartilha do estagiário. Segundo Dolz e Schneuwly (2004), trata-se
de um gênero de ordem do instruir ou do prescrever, pois exigem a regulação mútua de comportamento na sociedade e prescrevem regras de conduta do empregador, do aprendiz e do estagiário. Esses gêneros carregam marcas de questões culturais e ideológicas de uma determinada sociedade e assumem configurações discursivas específicas, com certos propósitos comunicativos. Por meio desse subtema, os aprendentes tiveram a oportunidade de ter acesso também a esse gênero textual.
Para concluirmos, o desenvolvimento desse projeto propiciou uma reflexão acerca do meu papel como agente de letramento. Segundo Kleiman (2005, p. 52),
(...) o agente de letramento consegue, por meio de sua liderança, articular novas ações, mobilizando o aluno para fazer aquilo que não é fundamentalmente aplicável ou funcional, mas que é socialmente relevante, aquilo que vale a pena ser aprendido para que o aluno seja plenamente inserido na sociedade letrada.
A nossa intenção foi promover capacidades e recursos para que os aprendentes adquirissem conhecimento, mesmo que para isso fossem necessárias improvisações, lembrando que o letramento é complexo e envolve um conjunto de habilidades do sujeito que lê. Em nossa concepção, quando propiciamos o trabalho com projetos envolvendo mais de um participante, com todos envolvidos compartilhando saberes que foram mobilizados no momento necessário e na medida adequada, por meio de prática colaborativa, em razão de interesses e objetivos individuais e coletivos para atender a exigências sociais. Passemos, a seguir, à análise e discussão dos dados do próximo subtema.