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Chapter 5. Economic performance

5.4. Cost of installation operation

Para compreender porque o culto de uma divindade como Asclépio se tornou bastante popular, é preciso entender que o final do Período Clássico91 grego é marcado por uma série de transformações no modelo cívico de se viver na polis. Este modelo clássico, que alcançou seu apogeu no século V a. C., era pretensiosamente aristocrático e elitista, marcado, sobretudo, pelo masculino, pelo público e pelo espaço externo, ou seja, o visível. Nas palavras de Jean-Jacques Maffre92:

Esse ideal é a skholê (o lazer), que designa não o repouso ocioso, a inércia, mas ao contrário a faculdade de ocupar-se livremente daquilo

90 Image of Epidauros. Disponível em: <http://www.perseus.tufts.edu>.

91 O que se chamará aqui de Período Clássico é o recorte temporal que vai do século V a. C. até a

primeira metade do século IV a. C..

92 MAFFRE. J-J. A vida na Grécia Clássica. p. 164. TEATRO KATAGOGION ESTÁDIO SANTUÁRIO DE APOLO MALEATA NÚCLEO CENTRAL DO SANTUÁRIO ASCLÉPIO EDIFÍCIO E GINÁSIO

que se estima importante: a participação na vida da cidade sob todas as suas formas (política, judiciária, religiosa, cultural, militar), em colaboração com seus pares – mas sem fazer muito caso dos outros: os báunausoi, as mulheres, os estrangeiros, os escravos.

No entanto, o contexto que dava suporte a este tipo de modelo clássico de estilo de vida começa a se alterar ainda no final do século V a. C.. Primeiramente, as Guerras do Peloponeso mobilizaram, de uma maneira direta ou indireta, boa parte das polis gregas. A guerra abriu um parâmetro sem precedentes na história grega, pois, seus eventos, aos poucos, foram ruindo com os paradigmas construídos até então. A situação crítica possibilitou, como afirmouΝMariaΝReginaΝCandido,Ν“desviosΝeΝinovações”93. Não bastassem, as próprias sequelas das batalhas, um mal invisível e avassalador fragilizou e destruiu centenas de corpos, a peste.

Um provável surto de febre tifoide94 teve início e impacto mais forte em Atenas, estima-se que um terço ou um quarto da população morreu nos dois surtos da peste. No entanto, ela não ficou restrita a Atenas, várias outras cidades foram afetadas em maior ou menor grau pela doença95. Durante um cerco militar ateniense, os habitantes de Epidauro também foram contaminados. NasΝpalavrasΝdeΝPlutarco,ΝaΝpesteΝ“matavaΝnãoΝ somenteΝosΝatenienses,ΝmasΝqualquerΝumΝqueΝtivesseΝcontatoΝcomΝeles”96. O contexto de guerras e epidemias certamente provocou mudanças na postura dos gregos em relação as suas vidas. Várias pessoas mutiladas, por batalhas, doenças ou desesperanças, procuravam apoio no interior de suas casas e famílias, bem como na religião. A atuação na vida pública e externa, paulatinamente, perde o seu ardor. Vários artistas educados em Atenas, por exemplo, como já mencionamos, deixam a cidade nos anos finais da guerra.

Atenas e Esparta, dois importantes centros deste modelo cívico, se fragilizaram ao final das Guerras do Peloponeso e o eixo do poder começou a se deslocar. Tebas toma algum proveito no início e teve seu momento de esplendor97. Porém, é a Macedônia quem vai acelerar o processo de mudanças de pensamento e de organização

93 CANDIDO, M. R. A feitiçaria na Atenas Clássica. p. 17. 94 MITCHELL-BOYASK

, Robin. Plague and the Athenian imagination. p. xiii.

95 MELFI, M. I santuario di Asclepio in Grecia. p. 522-523. 96 PLUTARCO. Pericles. 35, 3-4.

97 DIACOV; COVALEV. História da antigüidade: volume II Grécia.p.546-550 e ROSTOVTZEFF. História

política da Grécia Antiga98. A corrupção em que estava afundada a política no final do Período Clássico, evidentemente, auxiliou o fortalecimento de regiões que até então eram tidas como subalternas. No início do século IV a. C., Filipe II, rei que organizou e fortaleceu a Macedônia, se serviu tanto da força militar como da corrupção para estender seu poderio pelo território grego99. O seu filho, Alexandre, o Grande – peculiar devoto de Asclépio, vale lembrar –, desloca o centro de decisões políticas para o Oriente, tendência que vão seguir os reis macedônios seguintes. A Grécia continental, portanto, durante o Período Helenístico, vai perdendo a sua hegemonia sobre o mundo mediterrâneo, com exceção de algumas localidades, que continuam sendo grandes centros de peregrinação como Epidauro, onde está o mais famoso dos Asclepeions100.

Não haviam se passado nem cem anos desde o fim da Guerra do Peloponeso e a ascensão de Filipe II da Macedônia. A população deveria assistir a tudo atônita. São tempos confusos tanto para os gregos ocidentais, que veem a antiga Grécia continental perdendo poder outrora conquistado a duras penas, como também para os habitantes dos reinos orientais que estão sendo dominados pelos reis macedônicos, que veem sua população sendo deslocada, cidades mudando de nomes e de instituições. Por causa disto, talvez, Pierre Lévêque tenha chamado a atenção para a arte produzida neste períodoΝemΝqueΝpredominavaΝumΝ“lirismoΝdeΝevasão”101, pela fuga dos grandes temas cívicos do Período Clássico, pois dão mais ênfase a histórias corriqueiras envolvendo a família, os animais de estimação e o amor cortesão por exemplo.

Assim, o modelo ideal de vida pública clássica começa a desmoronar aceleradamente. A construção do individualismo e de um ideal mais intimista ganha força desde o final do Período Clássico e conhece seu apogeu no Período Helenístico. O motivo puramente humano é tema central da arte helenística, se multiplicam, por exemplo, as estátuas, estatuetas e relevos com cenas do cotidiano. Na arquitetura, por exemplo, os ambientes internos serão ricamente adornados e reelaborados, percebemos que há um voltar-se para dentro, valoriza-se um aspecto mais privado e familiar da vida cotidiana102. Da mesma forma, o coro, parte coletiva e marcante do teatro grego clássico, é suprimido já nas últimas peças de Aristófanes, por volta da década de 380 a.

98 ROSTOVTZEFF. História da Grécia. p. 216-217.

99 DIACOV; COVALEV. História da antigüidade: volume II Grécia.p.554-555. 100 LÉVÊQUE, P. O mundo helenístico. p. 124.

101 IDEM. Ibidem. p. 104.

102 POLLITT, J. J.. Greek art: Classic to Hellenistic. In:LEWIS, D. M.; BOARDMAN, John; HORNBLOWER,

C.. Os grandes dilemas moralizantes do cidadão público, alegorizados em vidas de heróis e deuses, foramΝrelativamenteΝabandonadosΝdoΝteatroΝeΝseΝdeuΝlugarΝaΝ“umaΝformaΝ de melodrama leve que explorava as emoções que podiam tipificar a vida privada em qualquerΝlugar”103. Os festivais públicos, os ritos cívicos e os cultos aos imperadores, apesar de continuarem existindo até o Período Romano, não contentam mais aos gregos, por isso crescem as religiões de mistérios, religiões mais pessoais, íntimas e reveladoras, que propõem uma vida de beatitudes, uma salvação espiritual e pessoal que apenas faz sentido ao iniciado104. Ainda durante o século IV a. C., podemos notar que a poesia toma um ar bucólico, como é possível perceber nos escritos de Teócrito, cria-se uma admiração especial pela natureza, como uma fuga à vida infernal das cidades, que a este tempo constituíam-seΝ“enormesΝaglomeraçõesΝdesumanas”105.

Inserida neste contexto, a filosofia também tomará contornos de evasão. Ela irá centrar suas preocupações em temas como a moralidade e a felicidade,ΝelaΝ“seΝapresentaΝ agora como uma proteção contra a destruição do homem que não encontra mais razões paraΝ viverΝ naΝ suaΝ funçãoΝ deΝ cidadão”106. Duas correntes filosóficas que ganham importância neste período são o Epicurismo e o Estoicismo que, apesar de suas diferenças, buscam o mesmo objetivo, ou seja, a felicidade estaria na libertação do contingente mundano, no domínio de si próprio, para se atingir um estado de serenidade,ΝdeΝtranquilidade,ΝdeΝ“indiferença”Ν– ataraxia ou apatia107. O Cinismo leva o desejo de indiferença ao extremo, propondo um total desapego a tudo o que é material, e defendendo a proposta de que o modo de vida das pessoas deveria ser tão simples como o dos animais.

É importante lembrar, também, que este é um dos períodos em que há um profundo e profícuo contato entre Ocidente e Oriente, e ambos, consciente ou inconscientemente, se alteram com este contato. Neste intercâmbio cultural, novos cultos e divindades são forjados, costumes e hábitos de uma localidade são transladados para outra, novos problemas e novas soluções são sugeridos. Deuses ocidentais são identificados com deuses orientais e suas mitologias e ritos se ampliam, há uma

103 POLLITT, J. J.. Greek art: Classic to Hellenistic. In:LEWIS, D. M.; BOARDMAN, John; HORNBLOWER,

Simon; OSTWALD,M.. The Cambridge Ancient History. Volume VI. p. 648.

104 MAFFRE. J-J. A vida na Grécia Clássica. p. 123-124. 105 LÉVÊQUE, P. O mundo helenístico. p. 105.

106 IDEM. Ibidem. p. 115. 107 IDEM. Ibidem. p. 115.

mudança de interesses que é altamente rica e dinâmica e que explode em profusão sem deixar nada a dever ao Período Clássico precedente.

Desta maneira, o culto de Asclépio não escapa a estas demandas. Telésforo, deus tradicionalmente considerado como um dos filhos de Asclépio, por exemplo, parece ter sido originalmente uma antiga divindade celta108, que foi absorvida por Pérgamo, provavelmente na segunda metade do século II a. C. como deus da convalescência. Em Pérgamo, o culto de Telésforo ganha importância e é associado ao culto de Asclépio. Telésforo é sempre representado como um pequeno garoto109, aparentemente ele protegia as crianças contra as doenças110. Enfim, o deus passa a figurar quase que invariavelmente ao lado de Asclépio a partir do século II d. C., quando é aceito em Epidauro, principal centro de culto a Asclépio. Evidentemente, a fusão de cultos locais com cultos estrangeiros não é exclusividade do recorte temporal que estamos tratando, mas a associação do culto de Telésforo ao de Asclépio é bastante conveniente, pois acontece em um período histórico que podemos datar com relativa segurança.

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