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6.5 Predictions

6.5.1 Cost of an Extra Level of Refinement

Como vimos na seção 3.1, havia preocupações nacionais e internacionais de que os testes nucleares estivessem alterando o clima. Muitos cientistas foram convocados para um inquérito parlamentar no Congresso norte-americano em 1955 para comentar os estudos sobre estas correlações (DÖRRIES, 2011, pp. 202–204). Outras preocupações incluíam as alterações no clima devido às atividades soviéticas e tentativas de controlar o clima por meio de técnicas de criação de nuvens ou de derretimento das calotas polares – arremessando-se poeira de aviões (FLEMING, 1998, pp. 129–134).

Segundo o historiador Dörries (2011) os estudos sobre testes nucleares nos anos 1960 e 1970 transformaram profundamente o significado que se dava ao termo “ambiental”. Os lançamentos espaciais do final da década de 1950 já ampliavam a dimensão geográfica da ciência moderna para um escopo global e o categoria “ambiental” ultrapassou as fronteiras originais de espaço que o limitavam aos

90 ecossistemas locais, o ambiente que envolve os seres, e de tempo, por meio dos estudos sistemáticos das consequências a longo prazo da ação humana (pp. 199– 200).

Há todo um repertório do período da Guerra Fria que denota essa visão mais alargada para a longa duração e a dimensão global dos riscos catastrófico criados pela tecnologia – “primavera silenciosa”, em torno do uso de pesticidas e do DDT na agricultura, “experimento humano geofísico de larga escala”, “aquecimento global antropogênico”, “inverno nuclear”, “buraco na camada de ozônio”. Estes “pontos focais”, como os chama Dörries, estiveram no centro do surgimento do movimento ambientalista contemporâneo e na criação de redes científicas transnacionais e agências governamentais e internacionais, para além dos interesses militar.

Os anos 1960 e 1970 viram o surgimento de uma série de agências de proteção e estudos do meio ambiente no mundo ocidental. Uma delas, nos Estados Unidos, ligada à Presidência, publicou um relatório em 1965, “Restaurando a Qualidade de Nosso Meio Ambiente” (Restoring the Quality of Our Environment), que incluía uma seção sobre o dióxido de carbono atmosférico e uma discussão das consequências do aquecimento global, escrito por diversos cientistas, incluindo Revelle e Keeling (DÖRRIES, 2011, p. 205).

1968 foi a data do primeiro evento em torno da questão ambiental e climática, com a realização de conferências sobre o meio ambiente pela Organização Educacional, Científica e Cultural das Nações Unidas (UNESCO). Ela foi seguida pela Conferência sobre o Meio Ambiente Humano em Estocolmo em 1972, convocada pela Assembleia Geral da ONU. A atmosfera começava a ser vista como não apenas um sistema físico, mas como o foco de um problema globalmente compartilhado, em que atividades locais influenciavam diretamente sua composição e comportamento, e, portanto, um problema de governança global, que exige decisões, compromissos e responsabilidades globais (DÖRRIES, 2011, p. 206) – ideias que continuaram a se desenvolver ao longo da história do IPCC até hoje.

A Primeira Conferência Mundial do Clima, realizada em 1979, convocada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), produziu um relatório que definiu os diferentes climas como interdependentes; a influência humana no clima como

91 limitada às escalas locais e, em poucos casos, regionais; e advertiu para o problema da expansão desenfreada das atividades humanas e de seu possível impacto global futuro59.

Dörries escreve sobre as mudanças que ocorreram nos discursos científicos durante e após a realização destas conferências intergovernamentais (2011, p. 207). Baseando-se em publicações científicas criadas por uma rede de instituições norte- americanas e suecas, as conferências promoveram uma maior cooperação entre as comunidades científicas nacionais, a divulgação pública das informações científicas, e os estudos realizados em universidades – totalmente contrário aos estudos normalmente confidenciais financiados pela indústria bélica e pelos departamentos militares e fortemente pautados pelas preocupações e discursos dos interesses nacionais.

Para Dörries, os debates do final da Guerra Fria em torno do problema do “inverno nuclear”, no início dos anos 1980, junto a problemas relativos ao clima na produção de alimentos, os eventos El Niño, e o buraco na camada de ozônio preparam o terreno para o debate global aprofundado em torno do aquecimento global antropogênico para além das comunidades científicas a partir de 1990 – data de publicação do primeiro relatório do IPCC (2011, pp. 200–201).

A primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em junho de 1992 no Rio de Janeiro, e conhecida usualmente como “Cúpula da Terra”, “Eco-92” ou “Rio-92”, havia sido um marco internacional e nacional nos debates ambientalistas, assim como da política e da ciência das mudanças climáticas. Seus documentos, discussões e consequências institucionais repercutiram na comunidade científica e em suas pesquisas realizadas sobre as mudanças climáticas no Brasil, inclusive na Universidade de São Paulo (FREITAS; AMBRIZZI, 2012).

Houve a consolidação de um regime internacional das mudanças ambientais e climáticas, tanto no meio diplomático, por meio da criação da Convenção-Quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (UNFCCC, em inglês), quanto no meio científico internacional, por meio do IPCC, criado quatro anos antes.

59 Fonte: website da Organização Meteorológica Mundial

92 A UNFCCC estipulou a realização de conferências periódicas da comunidade diplomática, as chamadas Conferências das Partes (COP), para debater com mais profundidade e acordar mecanismos de mitigação e adaptação às mudanças do clima e a conservação da biodiversidade, tema bastante sensível à comunidade científica brasileira60. Uma de suas reuniões mais conhecidas foi realizada em Quioto, no Japão, em 1997 e produziu o conhecido Protocolo de Quioto sobre a redução das emissões de carbono pelos países industrializados e estipulou o mercado de créditos de carbono.

Se as COPs reuniam os líderes e os diplomatas de todo o mundo, o IPCC, o outro braço das Nações Unidos para as mudanças climáticas, e criado na década anterior pelo PNUMA (ONU) e pela OMM, tornou-se o ponto de encontro periódico da comunidade científica internacional dedicada a estudos de mudanças do clima. Seu objetivo é “avaliar de forma abrangente, objetiva, aberta e transparente as informações científicas, técnicas e socioeconômicas relevantes à compreensão da base científica do risco das mudanças climáticas induzidas pelo homem, seus impactos potenciais e opções para adaptação e mitigação” (IPCC, 2012, § 2).

O IPCC é organizado por um comitê composto por representantes dos governos, “(...) garantindo que o trabalho do Painel fosse claramente visto como a serviço das necessidades dos governos e da política”61 (HULME, 2009, p. 95) – e não como um órgão científico independente. O primeiro relatório do IPCC, publicado em 1990 e chamado de AR1 (First Assessment Report, Primeiro Relatório de Avaliação) serviu de base, por exemplo, junto ao relatório suplementar de 1992, produzido especialmente para a Eco-92, para a criação de seu braço político, o UNFCCC.

Outros relatórios do IPCC foram publicados ao longo dos últimos vinte anos, o segundo (AR2) em 1992, após a reunião da Eco-92, o terceiro (AR3) em 2001, o

60 Desde os anos oitenta, o Brasil havia se tornado conhecido mundialmente como um dos

grandes focos globais de desmatamento. A comunidade científica brasileira e internacional se dedicava desde então, por meio de grandes consórcios e projetos internacionais de pesquisa, a compreender melhor o funcionamento da Floresta Amazônica frente aos impactos humanos (LAHSEN, 2009a).

61 No original: “(...) ensuring that the Panel’s work was clearly seen to be serving the needs

93 quarto (AR4) em 2007 e o quinto (AR5) publicado em 2013. Cada um deles possui suas particularidades e divisões de capítulos e temas, pois a composição de cada IPCC varia de um relatório para o outro.

O órgão não produz suas próprias pesquisas, mas funciona como um fórum onde milhares de cientistas, selecionados pelos governos membros, escrevem e revisam relatórios científicos baseados na literatura revisada por pares. Estes relatórios servem de base para a comunidade científica internacional, onde são amplamente citados (THE ROYAL SOCIETY, 2005). Suas análises e relatórios das pesquisas produzem um extenso vocabulário utilizado amplamente pela comunidade científica, o que faz com que o Painel tenha um peso importante na configuração e conformação da ciência climática.

Edwards comenta que a aceitação quase consensual da existência das mudanças climáticas nos fóruns políticos internacionais ocorreu sobretudo devido ao fortalecimento das redes científicas. Por décadas, os avisos científicos das mudanças climáticas antropogênicas foram resistidos pelas lideranças políticas, situação que alterou-se a cada nova publicação de um relatório do IPCC – que deve ser votado pelas delegações nacionais para ser aprovado. O fortalecimento das redes de medições científicas nos mostra a existência das redes científicas-políticas, pois ele depende de acordos políticos entre cientistas e políticos, entre pesquisa e financiamento, entre relatórios e políticas públicas. As redes científicas ao se tornarem altamente padronizadas, desenvolvidas, “infraestruturas de informação globalizadas”, conseguem mobilizar agendas públicas de debate com força suficiente para que as lideranças políticas não as ignorem (EDWARDS, 2006, pp. 249-250).

Lahsen descreve ciência como “uma força de primeira grandeza, poderosa e persistente que transforma as relações internacionais”. Menciona que os “significados compartilhados e crenças sobre as relações causais (...) [caracterizam] redes amplas e transnacionais de cientistas e tomadores de decisão interagindo em circuitos científicos e diplomáticos em torno de problemas ambientais globais e transfronteiriços”62 (2009a, p. 365).

62 No original: “(...) science as a ‘powerful and persistent’ prime force transforming

94 De acordo com Hulme, fóruns como o IPCC representaram o surgimento de um “novo ambiente de operação para a ciência”, em que uma nova interface entre ciência e política foi criada, voltada para uma “ciência pós-normal” (HULME, 2009, p. 92). Ciência pós-normal foi um termo cunhado nos anos 1990 pelos filósofos da ciência, Silvio Funtowicz e Jerry Ravetz, para denotar uma ciência em que os fatos são incertos, os valores estão em disputa, os riscos são altos e as decisões urgentes – diferenciando-se da ciência normal mertoniana. Justamente pelo enorme grau incerteza, apresentado pelas simulações matemáticas, e de disputa quanto aos valores, em relação à diferentes considerações sobre a proteção ambiental, que as mudanças climáticas se tornaram tão controversas e tão centrais nos debates públicos contemporâneos – inclusive no Brasil, como veremos a seguir.