Conforme visto nas seções anteriores, embora o construto de ajustamento já tenha sido explorado mas não suficientemente explicado, ainda há contradições inerentes a sua formação e ainda prevalece o pressuposto de que sem ajustamento não há como se ter sucesso em missões internacionais. De acordo com Tungli e Peiperl (2009), a operacionalização do “sucesso” em expatriação tem provado ser uma tarefa difícil e até o momento, a taxa de falha (medida pela ocorrência de retorno prematuro) tem sido amplamente utilizada pelas pesquisas sobre designações internacionais. Desse modo, nesta tese optou-se por considerar o “sucesso” ou “efetividade” em expatriação como a permanência do expatriado até o fim de sua missão internacional, sem deixar de investigar o sentido que o próprio expatriado japonês atribui ao sucesso.
De acordo com Miura e Gonçalves (2002), o número de designações internacionais que fracassam ainda é muito alto e uma das razões mais importantes do fracasso de uma designação internacional consiste na inabilidade do ajustamento
do executivo expatriado em suas dimensões psicológica (geral), sociocultural (interacional) e no trabalho. Costuma-se transferir para o expatriado individualmente toda a responsabilidade pelos problemas de ajustamento, que podem ter outras causas como por exemplo a falta de apoio organizacional, que não costumam ser investigadas.
Rao e Hashimoto (1996) já haviam atentado para o fato de que 70% dos gerentes nos níveis executivos e intermediários em subsidiárias de multinacionais Japonesas nos EUA eram expatriados Japoneses, o que sugeria que os norte- americanos eram geridos por expatriados Japoneses. A presença expressiva de expatriados Japoneses, associada ao sucesso que têm obtido em expatriação, de acordo com a literatura internacional, levaria a crer que eles tenham um ajustamento intercultural exemplar. Simultanemante, o caso dos expatriados Japoneses parece questionar esse pressuposto de que ajustamento é imprescindível para se obter sucesso em expatriação. Os resultados da revisão da literatura sugerem que o ajustamento intercultural é apenas parcialmente importante para a efetividade dos expatriados Japoneses, que deixam de focar e atingir as dimensões de ajustamento geral e interacional.
De acordo com Aycan (1997) e Black et al. (1991a), se o ajustamento interacional e o ajustamento geral não forem atingidos, não haverá um satisfatório ajustamento no trabalho, o que levará a falta de efetividade na missão internacional. No entanto, nos dados da pesquisa de Steining e Hammer (1992) sobre os expatriados Japoneses, pode-se observar que o pressuposto do ajustamento não parece ser necessário para o sucesso desses expatriados em suas missões internacionais. Mesmo sem citar esta contradição com a literatura internacional que emerge dos dados de suas pesquisas, Steining e Hammer (1992) sugerem aos expatriados Japoneses treinamento intercultural para que eles possam elevar as suas habilidades em gerenciar estresse, comunicação e relações com os locais. A revisão da literatura mostra que a recomendação genérica dos pesquisadores é o treinamento intercultural, com poucos avanços no desenvolvimento do construto ajustamento.
Nenhuma pesquisa até agora conseguiu avançar na explicação de por quê o ajustamento é diferente para os expatriados Japoneses. De acordo com a revisão da literatura, os autores sempre retornam ao modelo de Black et al, sem questioná-lo
profundamente. O conceito de ajustamento, conforme afirmam Nicholson e Imaizumi (1993) é um “guarda-chuva” que tudo aceita.
O quadro abaixo mostra as contradições envolvendo o construto de ajustamento na literatura internacional em confronto com o caso dos expatriados Japoneses:
AJUSTAMENTO INTERCULTURAL EXPATRIADOS JAPONESES
“O ajustamento intercultural é geralmente definido como o processo de adaptação à vida e ao trabalho em uma cultura estrangeira. É o grau percebido de conforto psicológico e familiaridade que uma pessoa tem como a nova cultura local.”(LEE;LIU, 2006, vol.23, p.303, tradução nossa).
Sem competência intercultural o expatriado não irá se ajustar e ser bem sucedido em sua missão internacional (SANCHES; SPECTOR; COOPER, 2000).
Nos resultados da pesquisa empírica, os expatriados Japoneses se autoavaliaram com baixa habilidade de gerenciar estresse quando comparado com os expatriados Americanos; Na Tailândia, os gerentes expatriados Japoneses se dizem significativamente menos capazes de se comunicar efetivamente quando comparados com os expatriados Americanos que estão também na Tailândia; Na Tailândia e nos EUA, os gerentes expatriados Japoneses se enxergavam com habilidades significativamente baixas em estabelecer relações interculturais, quando comparados com os expatriados Americanos.
Os resultados sugerem que, a partir das avaliações dos próprios respondentes, os gerentes Japoneses tinham uma atitude menos favorável às experiências interculturais e habilidades sociais, quando comparados aos gerentes expatriados Americanos (STEINING; HAMMER, 1992).
“O ajustamento psicológico e sócio-cultural foram propostos como os preditores mais imediatos do ajustamento no trabalho.” (AYCAN, 1997, vol.8, p.451, tradução nossa).
De acordo com JOEA (2007), a comunicação com os empregados locais (46,6%) e o ajustamento aos costumes e cultura locais (27,5%) sugerem pouca atenção dos Expatriados Japoneses aos fatores descritos por Aycan
(1997) como sócio-culturais (efetivo
funcionamento na vida social e cultural) e psicológicos (bem estar psicológico e satisfação com diferentes aspectos da nova vida).
O modelo internacional de ajustamento intercultural de Black et al. (1991), apresentado
como um modelo universal, vê o
comprometimento como variável resultante do ajustamento:
“Além disso, o impacto do ajustamento em outras
variáveis resultantes tais como o
comprometimento, intenção em sair e
rotatividade podem ser diferentes para o ajustamento doméstico e internacional.”(BLACK; MENDENHALL; ODDOU, 1991a, vol.16, p.315, tradução nossa).
A perspectiva psicoanalítica sugere que fatores tais como o comprometimento estão ligados a fatores sócio-culturais dos expatriados Japoneses (SCHNEIDER; ASAKAWA, 1995). Isso implica dizer que o comprometimento pode anteceder o ajustamento no caso dos expatriados Japoneses, devido a uma questão cultural de auto-disciplina, por exemplo (BENEDICT, 1946), contrariando o modelo internacional de ajustamento de Black et al.(1991).
Quadro 3 - Expatriados japoneses na literatura sobre ajustamento internacional Fonte: elaboração Própria.
Seria relevante entender o processo de ajustamento dos executivos Japoneses Expatriados, para que assim seja possível aprimorar o modelo de ajustamento internacional de Black et al.(1991) e indiretamente contribuir para as políticas de AIRH focadas em expatriação. Ao entender a contradição da literatura sobre ajustamento intercultural em citar constantemente o sucesso dos expatriados Japoneses em suas missões, que aparentemente não depende do ajustamento, pode-se contribuir teoricamente para o entendimento desse fenômeno e o Brasil forneceria um chance única, devido ao grande número de multinacionais Japonesas aqui instaladas e a inexistência de estudos anteriores sobre esse tema. A novidade desta pesquisa está em investigar uma contradição inerente da própria literatura internacional sobre ajustamento, que vê no modelo internacional de Black et al.(1991a) e em seus pressupostos o ponto de partida para entender a expatriação no mundo, mas que acaba levando à desconsideração sobre outras realidades e suas especificidades.
4 METODOLOGIA
Este capítulo trata dos aspectos metodológicos que nortearam a pesquisa desta tese. Apresenta-se inicialmente o paradigma científico no qual este estudo se baseou. A seguir, tem-se a abordagem da investigação e justificativa de sua escolha pelo autor e logo após o modo como os dados foram coletados e tratados.