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4.11.2 Correlation results for CO 2 loaded 3A1P solutions
Ao se reportarem ao uso de drogas na atualidade, doze entrevistados destacaram as razões envolvidas no início do consumo. As falas enfatizaram questões psicológicas e socioculturais como as principais envolvidas na problemática, conforme relatos abaixo:
‘Algumas pessoas ficam mais vulneráveis, começando a provar a partir de amigos e depois criam uma dependência grande e não conseguem mais sair.’ (Médico clínico – entrevistado 5)
‘As pessoas criam uma relação com as substâncias e pela via do prazer ou pra anestesiar os problemas familiares, sociais, de vínculo’ (Psicóloga – entrevistada 6)
‘É, acho que está muito ligado a vários aspectos também relacionados ao capitalismo, a essa ideia de consumo, de resposta imediata, de ter um alívio imediato da dor, do sofrimento e de encontrar numa substância, uma forma
rápida de aliviar a dor, de calar também, porque não há muito espaço para fala na sociedade hoje em dia, e as relações de troca, de uso estão cada vez mais fortes também.’ (Enfermeira – entrevistada 7)
‘Eu vejo assim, que a droga é algo não só tão mais social, mas eu às vezes discuto, assim, que passa, às vezes, até ser cultural. Pelo fato desses adolescentes quando chegam aqui, que a gente está fazendo a entrevista de anamnese, perceber que muitos se envolvem logo cedo. Às vezes porque têm pais usuários de drogas, têm irmãos e também se sentem envergonhados. E a questão da droga acaba sendo um fator que desinibe.’ (Terapeuta ocupacional – entrevistada 13)
A multifatorialidade associada ao uso de drogas é reconhecida pelos profissionais, embora ainda se perceba ênfase nos determinantes pessoais.
Há na literatura discussões acerca dos fatores que contribuem para o uso compulsivo de substâncias psicoativas. Leite et al. (2005) lista uma série de motivos que podem levar a pessoa a uma experimentação e, consequentemente, a um possível abuso ou dependência. São eles: curiosidade, falta de diálogo entre pais e filhos, modismo, obtenção da aceitação em determinados grupos sociais, ausência dos pais, fácil acesso às drogas, valorização do proibido e do risco, convívio com pessoas que utilizam drogas, desemprego, dificuldades financeiras, e diversos outros fatores de ordem emocional e psicológica.
Acredita-se que não exista uma causa única que determine o início do consumo com sua posterior evolução para padrões de uso patológicos. Corrobora-se com o fato da gênese do consumo estar relacionada a fatores intrínsecos à pessoa, próprios de seu meio externo e pertinentes à substância em questão.
Sendo assim, se um adolescente possui uma marcada fragilidade emocional, não consegue construir mecanismos de defesa saudáveis, que possibilitem o enfrentamento de problemas cotidianos; pertence a uma família desestruturada, onde o autoritarismo ou a permissividade predominam; e passa a fazer uso frequente de bebida alcoólica nos fins de semana junto ao seu grupo de amigos; ele certamente terá mais propensão a desenvolver um padrão de uso abusivo com uma posterior instalação de síndrome de dependência caso seja comparado a outro jovem que esteja vivenciando uma condição oposta a essa.
É interessante relatar que uma quantidade significativa dos profissionais entrevistados percebe o usuário de droga como alguém influenciado por um único fator, em detrimento do conjunto deles. As percepções giraram, principalmente, em torno de fatores biológicos, psíquicos e socioculturais. Somente três profissionais afirmaram perceber o usuário de droga como uma pessoa vulnerável à ação interdependente desse conjunto de fatores. Alguns relatos a seguir mostram os quatro tipos de visões encontrados.
‘É complicado dizer assim como eu percebo. Eu acho que eu não tenho uma visão única. Tem gente que precisa de ajuda? Tem. Tem muito jovem que é por falta de limite dentro de casa? Tem. Tem muito jovem que é porque está fora da escola? Tem. Eu não fecho assim um diagnóstico.’ (Assistente social – entrevistada 11)
‘Eu vejo assim, eles são muito influenciáveis pelos amigos, procuram a droga por curiosidade, pela ociosidade, porque muitos não tem trabalho, não tem perspectiva de vida, não tem estudo, param cedo para trabalhar e se envolveram com a droga.’ (Assistente social – entrevistada 8)
‘Uma incapacidade de lidar com as situações de uma outra forma, de uma forma mais saudável. Essa é a principal queixa deles. Eles se frustram, eles não suportam lidar com essa frustração, e aí eles usam drogas pra eliminar esse sentimento de frustração.’ (Psicóloga – entrevistada 12)
‘Uma pessoa que tem um problema, que é doente, no caso dependente e que precisa de ajuda.’ (Enfermeiro – entrevistado 16)
Para Antón (2000) existem fatores relacionados à gênese do consumo de drogas. O autor divide esses fatores em pessoais, que estão relacionados às influências intrínsecas a cada indivíduo; fatores de ambiente imediato e fatores ambientais globais.
Ainda conforme o referido autor, muitos dos fatores pessoais, que constituem risco de uso de substâncias psicoativas, estão presentes no desenvolvimento normal do adolescente, tais como: aumento da influência dos colegas e amigos; busca de aceitação em um grupo; inconformismo social; tendências à busca de sensações novas e intensas, dentre outros. Por conta disso, o consumo é iniciado, normalmente, na adolescência. Somados aos fatores pessoais, os fatores ambientais imediatos e globais podem aumentar a vulnerabilidade de um sujeito ao uso das substâncias. Sendo assim, comunicação familiar deficiente, existência de conflitos familiares, atitudes educacionais incorretas dos pais, inadaptação escolar e existência de crise pessoal constituem alguns fatores sociais imediatos potencializadores da vulnerabilidade de um jovem ao consumo de drogas.
Sabe-se, também, que o ambiente global externo tem uma grande parcela de contribuição no estímulo ao uso, pois, atualmente, ainda existe uma grande disponibilidade e um fácil acesso da população às substâncias psicoativas, sejam elas lícitas ou ilícitas. A mídia contribui para a publicidade das drogas legais, pois, apesar de alguns avanços obtidos contra a publicidade em torno do tabaco, observa-se que a imprensa falada e escrita continua divulgando constantemente propagandas e anúncios que estimulam, cada vez mais, o consumo de bebidas alcoólicas. É necessário ressaltar que alguns determinantes sociopolíticos e econômicos vigentes, tais como a discriminação racial, a falta de oportunidades sociais de
trabalho e a pobreza estão envolvidos, juntamente com os outros fatores aqui elencados, na gênese desse uso. (ANTÓN, 2000).
Schenker e Minayo (2005) realizaram um estudo bibliográfico procurando investigar os fatores de risco e proteção para o uso de droga na adolescência e constataram o envolvimento e a interdependência de diversos contextos, tais como: individual, familiar, escolar, influências dos grupos de pares, midiático e comunidade de convivência, propiciando tanto o risco quanto a proteção ao uso de drogas lícitas e ilícitas.
Segundo Schenker e Minayo (2005) os contextos mencionados podem atuar como espaços de estímulos ou de prevenção do uso de drogas. Tudo dependerá das relações estabelecidas entre o adolescente e os demais elementos desses espaços. Entretanto, embora as autoras afirmem que o sujeito inserido numa rede de relações vivencia um contexto sociocultural e histórico, procuram também ressaltar a importância da família como crucial no processo de promoção da saúde e consequente prevenção do uso de drogas.
Mota (2007), em seu livro sobre dependência química, faz referência à etiologia das drogas, elegendo o modelo biopsicossocial como o mais apropriado para esse fim, argumentando que é necessário um tratamento interdisciplinar para a investigação dessa temática, já que o fenômeno é, ao mesmo tempo, biológico, psicológico e social. Dessa forma, quando se trata de questões relacionadas ao usuário de droga é preciso se levar em consideração a diversidade de fatores que envolvem a problemática do consumo, bem como a interdependência dessas questões. Visualizar o fenômeno sobre um único aspecto não atenderá às necessidades dessa população, que necessita de assistência integral, do trabalho de uma equipe interdisciplinar e de ações de caráter intersetorial.
De acordo com as concepções trazidas pelo processo de Reforma Psiquiátrica e pelas atuais políticas públicas sobre drogas, pode-se afirmar que o usuário de droga, independente de sua condição de usuário, é antes de tudo um cidadão com direito a viver em sociedade e a participar ativamente em seu processo de tratamento. Elementos relacionados à pessoa, família, sociedade e cultura devem ser levados em consideração ao se planejar a assistência destinada a esse sujeito, pois desse modo poderá haver um planejamento embasado nas necessidades da pessoa – usuário de droga, o que estimulará uma maior adesão dela ao tratamento e uma efetivação de ações promotoras da saúde e preventivas de agravos.