5 Discussion
5.7 Correlation with the Hedmark Group
Este vetor verifica se a escola oferece práticas ligadas aos departamentos e às disciplinas/especialidades; se ela oferece práticas que cobrem vários programas em forma estanque (materno-infantil, urgência, etc); ou práticas que se desenvolvem ao longo de todo o curso, com o uso de serviços de forma integral (adulto, criança etc) (LAMPERT, 2002).
A relevância de pensar a fragmentação deve-se ao fato dela estar presente na análise do corpo humano esquadrinhado em órgãos e tecidos, na relação distante com o outro, em que o sujeito é objetivado, na organização dos serviços de saúde e do atendimento marcados pela descontinuidade das ações realizadas, aspectos que afrontam diretamente a possibilidade de se efetivar práticas de integralidade em saúde (GOMES et al, 2005).
O curso estudado oferece suas práticas ligadas às especialidades, com predomínio destas atividades no espaço ambulatorial no interior da universidade, como já relatado neste estudo e como afirmado por este docente:
O grande trabalho do curso com a rede é no atendimento ao paciente SUS na USE. Então a UFSCar, através da USE, tem um convênio com o SUS há muitos anos. Então a fisioterapia oferece os estágios por especialidades ainda na USE, não por linha de cuidado. Mas qual o problema... a USE ainda não está integrada na rede (Docente “B”).
Para análise dos dados empíricos a seguir, retoma-se o conceito de integralidade em saúde17. Por se apresentar como um conceito polissêmico, seus três sentidos permitem aproximar a teoria com as opiniões dos discentes coletadas nesta pesquisa.
O primeiro sentido refere-se à integralidade como crítica à atitude fragmentária, a um sistema que privilegia a especialização e a segmentação, a atitude reducionista e a formação de base flexneriana (MATTOS, 2001; KELL, 2005). Neste sentido, para o discente do 4º ano:
A gente vê a teoria por partes, só que no estágio a gente não aprende a pensar no todo. Porque na verdade todo mundo deveria estar pronto para atuar em qualquer área. Então estamos sempre focados para atender naquela área que você está no estágio. Mesmo os supervisores não sabem tanto. São poucos supervisores que veem como um todo.
O segundo sentido refere-se à organização das práticas de saúde integrando ações de promoção, prevenção, assistência e reabilitação. No âmbito da organização do sistema de saúde, significa ainda a garantia de acesso aos diferentes níveis de complexidade da atenção. Isso se caracterizaria pela busca da articulação entre a oferta, demanda espontânea e a demanda programada, construídas de maneira dinâmica, resultante de uma ação social, que tanto pode incluir a objetividade e/ou a subjetividade de seus atores, quanto suas falas e práticas no interior das instituições (BRASIL, 2004; CAMPOS, 2003; MATTOS, 2001; PINHEIRO, 2001). Para o discente:
17 A integralidade, no Sistema Único de Saúde, é um dos três princípios fundamentais para se alcançar um sistema e serviços de saúde que proporcionem um atendimento de qualidade para as necessidades da população. É um termo complexo e polissêmico, o que remete a muitas caracterizações e definições por diversos autores. Segundo a definição legal e institucional, a integralidade é “um conjunto articulado de ações e serviços de saúde, preventivos e curativos, individuais e coletivos, em cada caso, nos níveis de complexidade do sistema” (BRASIL, 1990). Diretriz política, ideal ou objetivo, a integralidade é um atributo relevante a ser levado em conta na avaliação da qualidade do cuidado, dos serviços e dos sistemas de saúde estruturados como redes assistenciais inter-organizacionais que articulam dimensões clínicas, funcionais, normativas e sistêmicas em sua operacionalização (CONILL, 2004; HARTZ; CONTANDRIOPOULOS, 2004).
Se estivermos no estágio de neuro, por exemplo, atendendo um lesado medular e ele tiver problemas respiratórios, a priori, a gente não atende, encaminha. Só se for um caso muito urgente, que precise de intervenção na hora (Discente 4º ano).
O terceiro sentido propõe que as relações mantidas entre gestores, profissionais e usuários no sistema de saúde local devem se revestir de práticas pluridimensionais, multiprofissionais, interdisciplinares, de democratização do processo de trabalho e horizontalidade entre os saberes numa perspectiva de integralidade em que a valorização da atenção e do cuidado desponta como dimensão básica para a política de saúde (MATTOS, 2001; PINHEIRO, 2001; PINHEIRO; LUZ, 2001). Na proposta do curso:
Eu estou na ortopedia com um paciente que veio da cárdio, porque ele não tava conseguindo fazer os exercícios na cárdio porque estava com dores nas costas. Só que na hora que vou tratar eu não sei o que ele faz na cárdio porque eu não passei pela cárdio. Então não sei o que estou fazendo na ortopedia é o melhor pra ele. Ele melhorou a dor nas costas? Melhorou, mas eu não fiz essa correlação com a cárdio (Discente 4º ano).
A partir destes relatos comparados aos sentidos da integralidade revela-se:
- atitude fragmentada, especializada e reducionista, em que o aluno não é estimulado a ver o paciente como um todo;
- articulação insuficiente entre a oferta, a demanda espontânea e a programada. O aluno atende aquilo que é preconizado pela área em que ele está atuando, com foco na doença e não no sujeito e com o encaminhamento como forma de superar o hiato entre a necessidade do usuário e a oferta do serviço;
- lacunas de práticas pluridimensionais e interdisciplinares, de democratização do processo de trabalho e horizontalidade entre os saberes. O aluno tem conhecimento do que foi realizado com o paciente em outras áreas predominantemente por prontuários, bem como de poucas informações acerca da resolutividade das diferentes terapêuticas que não estão articuladas entre os profissionais.
A atuação integral remete a abordagem do indivíduo levando também em conta o contexto familiar e social no qual está inserido. Uma dimensão da integralidade, na prática, se expressa na capacidade dos profissionais de incluir no seu cotidiano de trabalho rotinas ou processos de busca sistemática daquelas necessidades mais silenciosas (MATTOS, 2001; 2004; CAMPOS, 2003; ALVES, 2005).
Segundo os autores supracitados, urge uma nova forma de olhar o paciente, o colega de trabalho, e a si mesmo, como profissional de saúde. A formalidade e a burocratização da
prática de saúde coíbem a satisfação profissional, além de provocar um estado de estagnação, não se sentindo responsável pelo resultado final das ações realizadas.