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Hall cita cinco avanços do pensamento nas teorias sociais e ciências humanas que ocorreram na modernidade tardia (a segunda metade do século XX), aos quais é creditado o maior impacto na forma de conceber o sujeito moderno, trazendo como efeito principal o completo descentramento do mesmo, característica da identidade na modernidade tardia.

O primeiro deles é a releitura do pensamento marxista a partir de uma nova interpretação, a partir da qual os indivíduos não poderiam ser os agentes da história, uma vez que só podiam agir com base em condições históricas criadas por outros e sob as quais nasciam. Considerada uma revolução teórica importante, essa corrente de pensamento teve como um de seus principais protagonistas, o “anti-humanismo teórico”, de Althusser, que se opõe radicalmente a toda e qualquer teoria derivada da noção de essência universal do homem.

O segundo descentramento vem das descobertas de Freud sobre o inconsciente, em que a sexualidade e os desejos humanos têm sua origem em processos psíquicos do inconsciente, muito diferentes dos processos da razão. Essas descobertas foram de encontro, de forma radical, à lógica racional do “penso, logo existo”, do sujeito de Descartes, este, um dos principais fundadores da concepção do sujeito racional, consciente, situado no centro do conhecimento. As descobertas de Freud tiveram muito impacto no pensamento moderno, e o

fenômeno já perdura há décadas, de várias formas, inclusive a partir de interpretações de outras correntes psicanalíticas, como é o caso da corrente lacaniana.

Na leitura que Jacques Lacan faz da teoria psicanalítica de Freud, o eu inteiro e unificado depende de um longo e difícil aprendizado. É uma imagem que não surge naturalmente do núcleo do ser criança, é construída num processo intenso e penoso de negociações psíquicas inconscientes, a partir das fantasias com as figuras materna e paterna. Essa formação da criança no olhar do outro inicia a relação do ser com os sistemas simbólicos externos a ele, como a língua, a cultura e a diferença sexual e muitos sentimentos contraditórios, conflitos e negações de certos impulsos e emoções, que a partir desta fase, permanecem com ele durante a vida, fazendo parte de sua formação inconsciente. Embora o sujeito, muitas vezes, se sinta dividido ou partido, consciente de sua “falta de inteireza”, vive como se fosse uma pessoa unificada e resolvida, o que é uma fantasia criada por ele, um acordo consigo mesmo. É exatamente neste acordo, segundo Hall, que se encontra a origem da identidade, como é concebida na teoria lacaniana: sempre em processo, sempre sendo formada, negociada.

Nesta linha de pensamento, defendida por autores referenciados por Hal, como Lacan e Althusser (2005, os. 38 e 39), deveria se falar em identificação como um processo constante e não em identidade. Esta última seria mais o resultado da plenitude que surge da “falta de inteireza preenchida a partir do exterior, pelas formas através das quais nos imaginamos vistos pelos outros”.

O terceiro descentramento vem da lingüística de Saussure, que defendeu a questão de não sermos os autores das afirmações que fazemos, nem dos significados que expressamos na língua, somente nos posicionando no interior de suas regras. Para Hall existe uma analogia entre a língua e a identidade, na medida em que não se pode determinar seu significado de forma final. As palavras, assim como as identidades, são multimoduladas, o seu significado é instável e tudo o que dizemos depende do que se fala antes e do que se fala depois.

O quarto fator de descentramento é o trabalho de Michel Foucault, que destaca a importância do “poder disciplinar”, este, preocupado com a vigilância, a

regulação e formalizado nas prisões, quartéis, escolas, hospitais, enfim, instituições desenvolvidas ao longo do século XIX, com o objetivo de disciplinar as populações modernas. O poder disciplinar do sujeito moderno, apesar de ser um produto de instituições coletivas, individualiza o sujeito e envolve seu corpo: traz a individualidade para o campo da observação de forma documentada. E quanto mais coletiva a instituição, maior o isolamento e a vigilância.

Por fim, o quinto descentramento: o impacto do feminismo. Esse movimento social surgido nos anos 1960 teve a singularidade de se opor à política liberal capitalista do ocidente, ao mesmo tempo em que afirmou as dimensões subjetivas e objetivas da política, suspeitou das formas burocráticas de organização. Além disso, o feminismo teve base cultural forte e refletiu o enfraquecimento das organizações políticas e sua fragmentação em vários movimentos sociais, cada um apelando para a identidade específica de seus sustentadores. Por essas razões, o movimento teve uma relação muito direta com o descentramento conceitual do sujeito cartesiano (Iluminismo) e do sociológico: questionou a distinção entre o dentro e o fora, o privado e o público; abriu arenas novas para a contestação política, como família, sexualidade, distribuição do trabalho doméstico e o cuidado dos filhos, por exemplo; politizou a subjetividade, a identidade e o processo de identificação (homens, mulheres, mães, pais, filhos filhas); expandiu-se e incluiu a formação de novas identidades sexuais e de gênero; substituiu a questão de homens e mulheres fazerem parte da mesma identidade, a humanidade, pela questão das diferenças sexuais.

A partir desse conjunto de fatores, a identidade única do sujeito do iluminismo acabou se transformando em identidades múltiplas, abertas, contraditórias e fragmentadas. É possível relacionar a essa fragmentação da identidade a “multiplicação de interesses”, de que fala Maffesoli, por exemplo, ou a volta do interesse por diversas tradições, que traz consigo também uma dinâmica maior, uma multiplicação de interesses. Até na questão das ideologias, as quais, na opinião do autor, hoje são consumidas muito rapidamente, a elas “se adere e se rejeita sem muitos escrúpulos”.

Maffesoli fala de um enraizamento dinâmico, de sinceridades e também de identificações sucessivas, todos eles causados pelo fato desse novo estilo da atualidade ser construído a partir de contribuições muito variadas, o que, em sua opinião, é característico dos períodos de transição. Este fenômeno se reflete, também, na formação das identidades culturais, dos grupos e das nações.