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Guedes (1995) nota três fases do movimento de mulheres no Brasil:

1) 1980 a 1985: momento em que o movimento estruturou-se organicamente. Por meio dessa organização, buscou-se dar

27 Rorty problematiza o alcanse pragmático dos novos paradigmas, entre eles o desconstrutivismo. Para ele, “o machismo é a defesa das pessoas que têm estado por cima, desde os primórdios da história, contra as tentativas de derrubá-las; esse tipo de monstro é muito adaptável, e desconfio que seja capaz de sobreviver quase tão bem num meio filosófico antilogocêntrico quanto num meio logocên- trico” (RORTY, 1996, p. 232).

visibilidade ao feminino, como elemento qualitativo e cons- titutivo da população e das instituições. Para se ter uma ideia da efervescência do movimento de mulheres nesta época, vale dizer que no ano de 1982 atuavam em todo o Brasil 48 grupos (JORNAL DO BRASIL, 1982);

2) 1985 a 1988: busca do entendimento do sujeito mulher e da iden- tidade feminina vinculando-a as relações do cotidiano;

3) A partir de 1989: quando as relações dos gêneros no âmbito do privado passam a ser enfocado. Levanta-se a bandeira de luta que o privado também é político.

Da mesma forma que houve mudanças nos eixos de atuação social das mulheres, na academia também ocorreram reelabora- ções. Na primeira e segunda fase do movimento, época dos estudos sobre mulher, havia uma preocupação em localizar as “igualdades” e as dimensões identitárias. Com as abordagens de gênero mais for- temente assumidas na terceira fase, há uma tentativa de mudar de perspectiva teórica: a ênfase recai na busca do entendimento da(s) diferença (s). Como salientou Bárbara Johnson,

[...] as diferenças entre as entidades (prosa e poesia, homem e mulher, literatura e teoria, culpa e inocência) mostram basear-se numa repressão das diferenças den- tro das entidades, dos modos pelos quais uma entidade difere dela mesma (apud RORTY, 1996, p. 231).

A diferença estabelece-se ou é construída em relação a alguma coisa. Para que haja a percepção da diferença, é necessário que haja relação. E é a busca da compreensão da estruturação da relação de gênero pela e na diferença que tem possibilitado que estes estudos sobre os gêneros não se fechem em torno de um único gênero, se não impossibilitando, ao menos dificultando uma abordagem analítica.

Na nova abordagem, percebeu-se que não é possível enten- der as ações dos agentes sociais a partir dos dados biológicos. “Ser homem” ou “ser mulher” é fruto de construções sociais. A forma como se processa a leitura da estrutura corpórea varia de acordo com as culturas e, mesmo dentro de uma mesma cultura, podem-se ter múltiplas identidades do gênero masculino e do gênero feminino, daí a pouca importância que a dimensão natural tem para explicar as múltiplas configurações de gênero. O corpo já nasce imerso em determinadas relações de gênero. A leitura que fazemos da relação entre natureza e cultura já é efeito das verdades construídas social- mente para os gêneros28.

[...] os traços naturais do gênero, bem como os processos naturais do sexo e da reprodução, são apenas um pano de fundo sugestivo e ambíguo para a organização cultu- ral do gênero e da sexualidade. O que o gênero é, o que homens e mulheres são, e o tipo de relações que aconte- cem entre eles. Todas estas noções não são simples refle- xos ou elaborações de “dados” biológicos, mas sim (em grande medida) produtos de processos sociais e culturais (ORTNER; WHITEHEAD apud VALE DE ALMEIDA, 1995, p. 128).

Como falar “da mulher” e/ou “do homem” genérico a partir do sexo? Será que os homens nova-iorquinos são portadores dos mes- mos dispositivos duráveis, do mesmo habitus social (BOURDIEU, 1989), dos moradores de uma pequena colônia de pescadores do litoral do Rio de Janeiro? Será que poderíamos colocar lado a lado

28 No final dos anos 1990, houve uma forte crítica à concepção que define gênero como os atributos culturais que as sociedades definem para as diferenças bioló- gicas, como se o pressuposto da binaridade dos corpos fosse anterior às marcas culturais. A crítica mais radical foi organizada pelos estudos queer (BENTO, 2006).

(com falso sinal de =) a mulher branca, de classe média, integrada no mercado de trabalho, com o curso superior, e uma mulher negra, moradora de uma favela, analfabeta, desempregada? Caso a aborda- gem parta fundamentalmente do biológico como dado primeiro, ou mesmo se estabeleça alguns elementos universais, é possível proce- der a tal comparação, pois tanto o nova-iorquino como o pescador são do sexo masculino, podendo ser feito a mesma relação com as mulheres.

Michael Kimmel reproduz um diálogo que assistira entre uma mulher negra e uma mulher branca. A branca afirmava que o fato de serem mulheres tornava-as solidárias, acima da diferença de cor.

– Quando você se olha pela manhã no espelho, o que vê? – Vejo uma mulher – respondeu a branca.

– É exatamente este problema – replicou a mulher negra. Eu vejo uma negra. Para mim a raça é visível a cada dia, porque ela é a causa do meu handicap nesta sociedade. A raça é invisível para você, motivo pelo qual a nossa aliança sempre me parecerá um pouco artificial (KIMMEL apud BADINTER, 1992, p. 10).

Outras variáveis sociais são consideradas além do gênero: classe, orientação sexual, geração, raça/etnia. Elas vão se cruzar para constituir a multiplicidade dos gêneros.

Esta nova fase dos estudos sobre gênero está inserida em uma mudança de paradigmas mais gerais da sociedade. Vive-se um momento em que se privilegia a ideia de mistura, que se valoriza a ambiguidade, a fragmentação, as zonas cinzentas do comportamento (VALE DE ALMEIDA, 1995).

O biológico é o dado primeiro, aquele que serve para classifi- car os seres humanos como sendo machos ou fêmeas, mas este pro- cesso já está imerso nas malhas culturais. As construções dos gêneros são moldes vazios nos quais podem ser transformados em múltiplos tipos de noção e de valores. O molde nos dá unicamente a estrutura de contraste e de relação (STRATHERN, 1979), variável e sem uma determinação universal.

Como ocorrerá a construção da identidade do gênero mascu- lino e do gênero feminino (seja a subjetividade, a orientação sexual, a sexualidade ou os papéis sexuais), dependerá de cada cultura. Nas interações sociais, “ser homem” ou “ser mulher” não se reduz aos caracteres sexuais, mas sim a um conjunto de atributos morais, comportamentais socialmente produzidos e compartilhados. O corpo deve ser observado como um texto, construído nas narrativas simbólicas que estruturam as percepções primeiras dos indivíduos (SEGATO, 1993). Essas narrativas, que acontecem de múltiplas for- mas (mitos, lendas, doutrinas, disciplinas escolares, olhares repro- vadores, olhares incentivadores, castigos), vão construir verdades, num processo de “inculcação”, nas estruturas mentais dos indiví- duos (conscientes e inconscientes), que aprendem o que é próprio de menino e o que é específico de menina.

2.3 Condições metodológicas no