• No results found

Converting 3D Models to Printed Objects

2.1 Additive Manufacturing Processes

2.1.2 Converting 3D Models to Printed Objects

Em Altamira, as famílias são distribuídas nos bairros de Aparecida, Acesso, Açaizal e Bela Vista. Esses bairros caracterizam-se por localizarem-se nas áreas periféricas. As casas revelam a condição social dos ocupantes: são simples, de madeira algumas com assoalho e outras de chão batido chegando, a maioria, a alagar no inverno com a enchente do rio. De acordo com Certeau (1996, p. 204) “[...] o habitat confessa sem disfarce o nível de renda e as ambições sociais de seus ocupantes. Tudo nele fala sempre e muito: sua situação na cidade”. Desse modo, basta observar a casa dos Juruna que se terá um mapa da situação socioeconômica deles em Altamira.

Figura 14: habitação Juruna na cidade. Foto: Saraiva, 2004.

A espacialidade das residências Juruna obedecem ao mesmo tipo de organização das famílias Juruna em Paquiçamba, ou seja, com suas casas construídas próximas uma as outras ou então nas ruas próximas. A maioria das famílias Juruna sobrevive do mercado informal. Colocam placas na porta de suas casas indicando “corta-se cabelo” ou fazem um “puxadinho na frente” e transformando o lugar em bar, conforme se observa na Figura 14 acima. Normalmente, valem-se de rifas e pequenas vendas, ou seja, são trapezistas do asfalto onde cada dia realizam um

malabarismo para garantir o sustento da família. Talvez por isso, essas famílias procuram morar próximas uma das outras e assim, mantêm um contato maior ajudando-se mutuamente.

A principal atividade dessas mulheres é o artesanato: pulseiras, colares e anéis de coco babaçu. Geralmente, são vendidos para conhecidos, vizinhos e máxime quando viajam para fora de Altamira para participarem dos encontros indígenas promovidos pelo CIMI ou nos encontros de mulheres promovidos pelo MDTX. Aí aproveitam para divulgar a cultura Juruna e mostrá-la neste cenário mais amplo, trocando experiências com outros grupos que possui história semelhante à sua, e também firmando-se como mulheres índias nos encontros femininos promovidos localmente. É comum presenciar a troca de matéria-prima entre essas mulheres tal sementes de palmeiras ou de plantas que servem para tingir os fios e confeccionar pulseiras. Nos quintais caseiros, elas cultivam algumas ervas do mato que servem para fazer remédios e outras que são utilizadas para tingimento. Também são conhecidas mais intimamente como curandeiras e rezadeiras tradições passadas pelas mães.

Essas práticas demonstram que mesmo vivendo nos seringais e sendo proibidas de falar a língua e manter os costumes indígenas, conseguiram transmitir parte de suas culturas para os filhos. Entretanto, é nas famílias das filhas que essas práticas são cultuadas. Sobre estes conhecimentos Joaquina Juruna contou:

Nós comia miolo de arara e miolo de macaco prego para ficar inteligente. É assim, que os índios cuida da inteligência de seus filhos. Você vê que arara é um pássaro né! ele fala igualmente gente né! tudo aprende né! porque tem memória boa. Pois ela cozinhava o miolo da arara, do papagaio dava para nós, cuidava sim dos remédios da mata. Minha mãe cortava as mãos da cotia, a mão esquerda botava na cabeça do toco do lado do sol que tava subindo... ela fazia muito remédio, agora eu faço um pouco (Joaquina, 12-06-2004, depoimento).

E assim, é através da herança materna que essas famílias reafirmam a identidade Juruna dando continuidade ao que a mãe transmitiu-lhes oralmente. Como essas Mulheres-mãe foram pessoas fortes, uma vez que foram elas que criaram os filhos e os netos e sustentavam a família. Todos participam do movimento de reconstrução da identidade até mesmo as crianças. Estas ajudam nas confecções dos colares e na elaboração de desenhos que dão vida às suas história e servem também, de aprendizagem para todo o grupo: uma forma de socializar a história e de garantir a sua perpetuação, fato que se visualiza bastante nas narrativas cosmo-historicas de Cândida Juruna em formato de literatura de cordel.

No cotidiano dos seringais Wolff (1999) chama a atenção para o modo de vida criado nos seringais a partir, da crise de 1912, quando a necessidade exigiu que se tornassem maiores conhecedores da floresta. Refere-se neste ponto, aos nordestinos que tiveram de apropriar-se da vivência dos índios na Amazônia, sendo seus grandes devedores de técnicas, práticas, conhecimento e crenças. Em contrapartida os índios também apropriaram-se da cultura nordestina. Exemplo disso é a literatura de cordel que Cândida Juruna recita para contar a história dos Juruna. Apesar desses índias não exaltarem a herança nordestina dos seus avós, pais e maridos, ela aparece intrinsecamente em suas ações, o que demonstra o quanto suas identidade no, dizer Hall (2001, p.150), “[...] não estão fixas em nenhum lugar, carregando os traços das culturas, das tradições, das linguagens e das histórias particulares pelas quais foram marcadas”. Pois ao chegarem na Amazônia, esses nordestinos também traziam seus costumes e padrões culturais.

Ainda conforme Hall (2001, p. 100):

[...] a diferença é que elas não são e nunca serão unificadas no velho sentido, porque elas são o produto de várias histórias e culturas interconectadas, pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias ‘casas’ (e não a uma casa particular).

Deste modo, os Juruna carregam essas histórias e dependendo da situação lançam mão ora de uma ora de outra ou como uma índia Juruna mesmo afirmou: “Ora nós somos branco, ora nós somos índio. Tudo um pouco pra gente se defender”, ou seja, utilizam o jogo das identidades como uma estratégia de sobrevivência.