A Análise de Discurso Crítica (ADC) é uma perspectiva dos estudos da linguagem que considera o texto como a unidade básica da comunicação. Esses estudos caracterizam-se por seu engajamento político e social (Fairclough, 2001). A ADC preocupa-se em investigar criticamente os modos como as desigualdades sociais, as ideologias e as relações de poder – cujos efeitos na produção dos sentidos são obscurecidos e naturalizados, considerados ‘dados’, estabelecidos – são expressas, constituídas e legitimadas pela linguagem (Magalhães, 2005). Para isso, além de focalizar textos escritos e orais como objetos de investigação, também provê explanações sobre os processos e as práticas sociais que estão subjacentes à produção de um texto, por meio dos quais os sujeitos criam sentidos de suas práticas. Existem várias versões de ADC (Fairclough 1989, 2001; Chouliaraki e Fairclough, 1999; Kress, 1990; Wodak, 1989, 1990; Van Dijk, 1993; Kress e Van Leeuven, 1996), que, embora apresentem algumas diferenças, comungam
69 a mesma linha de pensamento ao considerarem discurso como o uso da linguagem nas práticas sociais (Fairclough, 2001). Nesta pesquisa, sigo a proposta de Fairclough (2003: 209) e Chouliaraki e Fairclough (1999: 60) como teoria e método para análise dos textos em práticas de letramento das aulas de Língua Portuguesa.
Chouliaraki e Fairclough (1999: 60) apresentam um modelo analítico que relaciona linguagem, ideologia e poder para a compreensão sobre como surge o problema a ser estudado e como está atrelado aos modos de organização da vida social. Esse modelo foi desenvolvido por Bhaskar (1986), segundo o esquema que segue (Magalhães, 2000: 195-6):
1. Um problema (atividade, reflexividade) 2. Obstáculos na superação do problemas:
(a) análise de conjuntura
(b) análise da prática e do momento discursivo: i. prática(s) relevante(s)
ii. relação do discurso com outros momentos – discurso como parte da atividade
– discurso e reflexividade (c) análise do discurso:
i. análise estrutural: a ordem de discurso ii. análise interacional:
– análise interdiscursiva
– análise semiótica e lingüística 3. Funcionamento do problema na prática 4. Maneiras possíveis de superar os obstáculos 5. Reflexão sobre a análise
O estágio 1 problematiza a prática social relacionando-a aos seus aspectos semióticos. Nesta pesquisa, estudo a relação entre os gêneros e as práticas de letramento em aulas de Língua Portuguesa porque tradicionalmente os textos são objetos para o estudo de regras gramaticais, sendo ignorada a dimensão do contexto sócio-histórico, que determina a configuração contextual e lingüística dos textos nas práticas sociais. O problema social aqui são os
70 modos descontextualizados de usar o texto em eventos de letramento nas aulas de Língua Portuguesa dos últimos ciclos do Ensino Fundamental e quais os significados das práticas de letramento associadas a esses textos.
Conforme o primeiro aspecto do estágio 2, os textos usados em aula – geralmente os do livro didático – são o centro de atividades típicas do contexto das aulas de Português, em que os textos constituem objetos para descrição da gramática e da estrutura textual, sem relação com outras práticas sociais, em que textos escritos desempenham uma função e são relevantes para a realização de atividades. O segundo aspecto do estágio 2, nesta pesquisa, refere-se ao modo descontextualizado como os textos são usados em aula sem relação com os valores e significados culturais dos letramentos Tradicionalmente, o ensino da escrita fundamenta-se na aplicação de conhecimentos sobre regras e padrões lingüísticos. Essa prática baseia-se na concepção a-social de letramento autônomo, diferenciada por Street (1985) do letramento ideológico, que associa práticas de letramento a práticas culturais e sociais de diferentes contextos de leitura e escrita.
O terceiro aspecto do estágio 2 diz respeito à análise orientada simultaneamente para a estrutura e para a interação, direcionada, por sua vez, para o interdiscurso, que possibilita e ao mesmo tempo restringe a interação, e para a sua realização na linguagem e em outras semioses. Na ordem do discurso das aulas de Língua Portuguesa, é indicado verificar como o discurso das professoras articula discursos e vozes de outras ordens de discurso (por exemplo, de documentos curriculares oficiais), análise interacional (modos de utilização dos textos na interação professoras-estudantes, estudantes- estudantes, estudantes-escritores), análise interdiscursiva (como os textos são recontextualizados nas práticas de letramento), e análise lingüística dos textos usados em aula. Para análise lingüística, uso o arcabouço teórico da Lingüística Sistêmico-Funcional (Halliday e Matthiessen, 2004) como instrumento para a descrição e análise gramatical dos textos. Entretanto, nesta tese, como o foco não é a análise lingüística de textos, mas captar a relação entre as características lingüísticas e o contexto sócio-cultural dos textos nos eventos de letramento, as análises lingüísticas não serão detalhadas nem aprofundadas. Será dada uma pequena amostra com a finalidade de apontar a LSF como teoria gramatical compatível com os propósitos da ADC.
71 Para compreender a relação entre a linguagem e as práticas sociais, associo a Análise de Discurso Crítica aos pressupostos da Lingüística Sistêmico-Funcional (LSF), porque é uma teoria da linguagem que situa os textos em contextos culturais e sociais específicos. Contexto de situação é um conceito-chave para a LSF, definido como “relação sistêmica entre o ambiente social, por um lado, e a organização da linguagem, por outro” (Halliday, 1985:11; Chouliaraki e Fairclough 1999: 139-140; Fairclough, 2003: 5-6, 26-28; Magalhães, 2004).
Para a LSF, a linguagem é definida como um recurso sistêmico, em que o princípio organizador na descrição lingüística é o sistema, em vez da estrutura, e vista como potencial semiótico: a descrição lingüística é uma descrição em diferentes níveis – semântico, léxico-gramatical e fonológico – das escolhas disponíveis conforme o contexto em que a linguagem é usada. Na teoria sistêmica, a estrutura lingüística dos textos é representada pela léxico-gramatica, cujos níveis devem ser descritos como um todo, porque a unidade de análise da LSF é o texto, formado pelos significados funcionais da linguagem. Halliday (1985:10) afirma que “para um/a lingüista, descrever a linguagem sem considerar o texto é estéril; descrever o texto sem relacioná-lo à linguagem é vazio”. A LSF fornece instrumental apropriado para análises de textos e de discursos de uma perspectiva social e semiótica (Eggins, 1994; Thompson, 1994)13.
No estágio 3, analiso como opera a ideologia no discurso das professoras sobre o ensino da gramática e de textos. No estágio 4, mostro que o ensino de textos precisa ser fundamentado teoricamente e, para esse fim, proponho a articulação de três abordagens teóricas: ADC, LSF e Novos Estudos do Letramento. No estágio 5, apresento minhas reflexões sobre como a articulação dessas teorias pode contribuir para a elaboração de uma pedagogia crítica para o ensino da escrita (veja as Considerações finais, pp. 158-160, 164-166, 168) , baseada no estudo e na apropriação de gêneros, como recursos para @s estudantes se desenvolverem como cidadãos e terem acesso a bens e serviços, e ao patrimônio cultural da humanidade.
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Um ‘website’ informativo sobre aspectos e aplicações da Lingüística Sistêmico-Funcional, e referências bibliográficas atualizadas, pode ser encontrado na http://wagsoft.com/Systemics/.
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