A valsa Amor de mãe, uma das primeiras composições criadas por João Tomé, está registrada em braille, a tinta e existe gravação feita pelo autor (Ilustração 11). A forma musical está escrita (em braille e a tinta) como AABAA. Analisando a construção e divisão das frases das partes A e B, podemos escrever a segunda parte com as casas 1 e 2 acrescentando assim um ritornelo e considerando a repetição da parte B, ou seja, na realidade, a forma musical da valsa com o número de compassos é A(16) A(16) B(16) B(16) A(16) A(16), ou seja, forma Rondó. Em tonalidade de lá menor, a parte A está no campo harmônico de lá menor e a parte B, em dó maior. Escrita em compasso ternário, típico de valsa por se tratar de um tipo de dança, com melodia anacrústica e total de 57 compassos mais anacruse inicial.
Dois registros foram gravados em Brasília, na sala do apartamento em que João vivia. As gravações caseiras eram comuns, como relata sua filha Dolores:
O que eu lembro muito é dele ficar tocando lá na sala de casa. Cavaquinho, violão, fazendo aquelas gravações em fita de rolo, fazendo montagem. Pegava uma música, ‘Meditação’, ele mesmo colocava a flauta, depois o cavaquinho, depois o violão sete cordas, depois o bandolim... Isso eu lembro muito.
A primeira delas, que será denominada G1 (gravação 1), tem a instrumentação em violão fazendo a voz do baixo, cavaquinho fazendo o centro (tempos 2 e 3) e a flauta solo. Todas as vozes foram gravadas por João Tomé. A segunda, G2 (gravação 2), contém dois instrumentos, o violão acompanhamento e acordeom solo. Ao violão está João Tomé e ao acordeom, Gilson. As gravações G1 e G2 são da mesma época, gravadas entre 1966 e 1971, período em que João adquirira o gravador.
Descrevamos as características das duas gravações e comparemos a instrumentação da voz melódica, do acompanhamento, a forma e o andamento.
Gravação G1: Esse registro foi todo produzido pelo próprio compositor. Não se sabe a ordem utilizada na gravação, mas é possível perceber a função de cada voz instrumental. A harmonização está no campo tonal de lá menor harmônico na parte A e na parte B modula para a relativa de lá menor, ou seja, dó maior. O violão tem função de baixo, e não se sabe se o músico utilizou um violão sete ou seis cordas, mas pode-se perceber a marcação do primeiro tempo (bordão) e intervenções melódicas com a voz principal, quando há notas paradas ou nas pausas dos tempos 2 e 3 da voz solista. A condução do baixo é caracterizada pela simplicidade melódica, sem a intenção de competir com a melodia principal.
Para complementar o acompanhamento da valsa o autor acrescentou a voz (linha musical) do cavaquinho fazendo a marcação dos tempos 2 e 3 com ritmos alternando em pausa de colcheia e colcheia no primeiro tempo, duas semínimas no segundo e terceiro tempo, ou, pausa de semínima no primeiro tempo e duas semínimas nos tempos 2 e 3. O cavaquinho completa a harmonia e por isso essa maneira de acompanhamento é denominada pelos músicos populares de ‘cavaco de centro’.
A melodia foi interpretada na flauta transversal, instrumento que Tomé dominava. A linha melódica segue como a escrita originalmente em braille, sem uso de improvisos, apenas algumas mudanças nos ritmos, alongando ou encurtando notas, podendo ser considerado escolhas interpretativas sem modificações na melodia. Na última apresentação do tema A como segunda vez (casa 2) a flauta soa uma oitava acima do original escrito.
Quanto à forma, primeiro é preciso explicar a sistematização escolhida para denominar cada parte da música, como descrito no início do texto. A valsa contém duas partes, chamadas de A e B. Cada parte possui duas grandes frases e quatro frases menores, que estão divididas em duas, formando assim um total de quatro semifrases dentro da parte A1 e A2 (A1 vai para a casa 1, com ritornelo e A2 vai para a casa 2 seguindo para a parte B, ou, quando da última vez, torna-se o fim da música). As duas primeiras semifrases da parte A1 são as mesmas da parte A2. O que vai diferenciar A1 de A2 são as duas últimas semifrases. Na parte B, há a mesma organização de compassos, frases principais e semifrases, podendo ser aplicada a mesma lógica da parte A, ou seja, teremos os primeiros seis compassos da melodia de B1 o mesmo para B2 e a mesma harmonia nos primeiros sete compassos, sendo elas diferenciadas pelos compassos restantes, ou seja, os dez seguintes de cada uma (B1 e B2). A referida gravação foi copiada em formato Wave. É possível perceber distorção sonora pela rotação lenta, abaixo da normal. A tonalidade de lá menor tornou-se perceptivelmente lá bemol menor
e consequentemente, o andamento também foi mais lento. Considerando a rotação alterada, pode-se concluir andamento aproximado com base na semínima 60 batidas57 por segundo. A forma interpretada foi A1A2-B1B2-A1A2, tendo a minutagem de 3 minutos e 30 segundos (3:30).
Gravação G2: Com dois instrumentos, a segunda versão tem instrumentação de solo e acompanhamento, respectivamente acordeom e violão. O acordeom é tocado por Gilson Machado, ex-aluno de Tomé, ainda em Uberaba, e também funcionário da emissora de rádio e TV Nacional de Brasília. Na gravação, a harmonia utilizada no violão de acompanhamento é a mesma do exemplo ‘G1’. O violão faz as notas do baixo e algumas intervenções de características de violão sete cordas, com timbre grave. Em algumas partes, o violão faz duas vozes ao mesmo tempo, em terças, sempre tocadas nos tempos 2 e 3.
A forma musical registrada na interpretação analisada é diferente do primeiro exemplo, seguindo o padrão A2-B1B2-A1A2, tendo a minutagem de dois minutos e cinquenta e cinco segundos (2:55). O andamento também difere do primeiro exemplo, mas a ideia de pulso é próxima à da gravação anteriormente apresentada na interpretação com flauta solo.
No último compasso, o acordeom termina com o acorde de lá menor com sétima maior (Am7M), dando um colorido diferente, uma sensação de suspensão no acorde da fundamental.
Nas duas gravações é possível perceber que os acordes utilizados não estão na posição natural, ou seja, a fundamental do acorde não está no baixo, e sim, as notas das inversões: o uso da terça no baixo (primeira inversão) e quinta no baixo (segunda inversão). É possível notar que os baixos dos acordes invertidos, em muitos momentos, têm uma sequência crescente ou decrescente, dependendo do direcionamento da melodia principal.
O violão, além de ser empregado no papel de acompanhador é trabalhado com o uso de pequenas intervenções melódicas, sempre quando a linha melódica está parada. A direção musical explorada pelo violão na movimentação do baixo – contraponto com a melodia – faz pontes nas modulações e finalizações de frase.