Para o presente estudo, selecionamos 76 amostras de narrativas de experiência pessoal (NE) extraídas do banco de dados Iboruna que representam a comunidade de fala estudada. Essa seleção baseou-se em alguns perfis sociais dos informantes, tais como: informantes do sexo feminino e masculino, pertencentes a cinco faixas etárias (7
a 15 anos, 16 a 25 anos, 26 a 35 anos, 36 a 55 anos e mais de 55 anos) e a quatro níveis de escolaridade (1º EF, 2º EF, EM e ES), e a duas faixas de renda familiar (de até 5 salários mínimos e de 6 a 10 salários mínimos). A seleção de 76 amostras de fala resulta do cruzamento dos perfis sociais acima expostos [(5 faixas etárias x 4 faixas de escolaridade x 2 gêneros = 40 informantes) x 2 faixas de renda resulta em 80 informantes menos 4 informantes de 7 a 15 anos de nível superior = 76 informantes].14
A escolha por amostras de fala justifica-se pelo fato de o fenômeno linguístico estudado ser uma regra variável de ordem morfofonológica presente na fala dos informantes da região estudada. Além disso, a teoria variacionista proposta por Labov (1972) considera os estudos da relação entre linguagem e sociedade, com o intuito de descrever e analisar os fatos linguísticos sistematizáveis. Desse modo, com o uso dessa amostra buscamos estudar a linguagem de maneira aprofundada no contexto de uso real. A opção pela utilização do banco de dados Iboruna justifica-se pelo tipo de pesquisa sincrônica que realizamos e por ter sido composto de modo a se garantir qualidade, originalidade e coerência nas gravações e transcrições.
A seleção de apenas narrativas de experiência fundamenta-se na afirmação de Labov (1972) sobre o paradoxo do observador, em que descreve vários procedimentos para superar esse paradoxo, e um deles é tentar desviar a atenção do falante com assuntos e perguntas que possibilitem fortes emoções devido a alguma experiência do passado. Dessa forma, essas narrativas atendem melhor à nossa pesquisa sobre a comunidade de fala de São José do Rio Preto, pois elas se aproximam às falas das pessoas quando não estão sendo sistematicamente observadas, pois, ao produzir esse
14 Cabe observar que é impossível o preenchimento da célula social resultante do cruzamento da faixa
tipo de narrativa, o informante, em geral, está menos atento à forma como produz seus enunciados, afrouxando a preocupação com a norma padrão.
A escolha de informantes do sexo feminino e masculino se deve à representação de todos os gêneros da sociedade; assim, teremos uma amostra heterogênea abarcando os falantes da comunidade de fala a ser analisada.
A escolha das faixas etárias investigadas (7 a 15 anos, 16 a 25 anos, 26 a 35 anos, 36 a 55 anos e mais de 55 anos) se baseia nos resultados apresentados por Mollica (1989), que, como já anunciado, mostrou que informantes equivalentes ao da nossa segunda faixa etária (16 a 25 anos) tendem a realizar o gerúndio na sua forma em “- ndo”, contrariando os resultados esperados, que, de acordo com Labov (1972), preveriam que falantes mais velhos preservariam mais as formas antigas, o que pode acontecer também com as pessoas mais escolarizadas, ou das camadas da população que gozam de maior prestígio social. Entretanto, essa é uma hipótese a ser testada na nossa investigação.
Além da faixa etária, consideramos o nível de escolaridade dos informantes por ser esta variável mencionada nos trabalhos de sociolinguística como fator relevante para explicar processos variáveis como o que estamos considerando. Assim, cremos que ao controlar esses dois fatores em relação ao processo que investigamos poderemos esclarecer se ambos ou se somente um deles atuam de modo relevante na aplicação da regra variável em questão.
Cabe ainda justificar que a seleção de informantes pertencentes às faixas de renda familiar mais baixas que compõem o banco de dados (até 5 salários mínimos e de 6 a 10) se baseia na hipótese de esses informantes representarem a maioria da população
brasileira,15 portanto, a fala desses informantes pode ser considerada a mais representativa da variedade em estudo. Inicialmente, iríamos considerar a renda familiar como uma variável social, ou seja, as duas primeiras faixas de renda (1ª. renda familiar de até 5 salários mínimos; 2ª. renda familiar de 6 a 10 salários mínimos) do modo como estão estratificadas no Iboruna. Contudo, houve um afrouxamento desta variável durante a composição do banco de dados Iboruna para essas variantes, então, em nossa pesquisa, não consideraremos a variável social renda familiar, apesar de manter o mesmo número de 76 informantes na subamostra selecionada.
Descritas as características da subamostra de fala selecionada do banco Iboruna, passamos a apresentar as características acústicas das amostras e os procedimentos adotados no estudo.
Em um primeiro momento, havíamos previsto realizar análise acústica das formas de gerúndio por meio do programa Praat, com o intuito de verificarmos, por meio de uma análise auditiva e acústica,16 a aplicação ou não do processo. A qualidade das gravações é muito boa para uma análise auditiva, mas não é boa para uma análise acústica. Dessa forma, trabalhamos apenas com a análise de oitiva, para o conjunto de dados encontrados no corpus desta pesquisa. No entanto, não deixamos de realizar uma investigação acústica do fenômeno de redução do gerúndio a partir de um conjunto de dados controlados que gravamos com a qualidade acústica necessária para esse tipo de investigação. Na próxima subseção, tratamos da investigação acústica empreendida.
15Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000; Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho
e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2005.
16 A análise auditiva é a análise perceptual, de oitiva, em que ouvimos a realização do som e analisamos o
segmento percebido pelo pesquisador. Já a análise acústica é aquela em que fazemos por meio do programa Praat e analisamos os parâmetros acústicos dos sons produzidos apresentados pelo programa.