Dando prosseguimento às categorias maffesolianas, pontuarei no presente subcapítulo, a categoria nomadismo, visto que essa categoria é importante para esta pesquisa, pois observo que a figura do vadio buarqueano está sempre em trânsito. É um sujeito extremamente móbil.
Maffesoli (2001), em Sobre o Nomadismo: vagabundagens pós-modernas, esclarece-nos que a pós-modernidade está se constituindo em torno da ideia de enraizamento dinâmico, a partir de uma vagabundagem existencial que se desenrola a partir do oco, da sede do infinito e do desejo de outro lugar.
Segundo o autor, o par antinômico nomadismo / sedentarismo se expressa e constitui um dado mundano, uma espécie de enraizamento dinâmico, em que os dois polos dessa ambivalência possam se articular harmoniosamente.
Maffesoli (2001) explica-nos que na modernidade o sedentarismo, a territorialização individual (identidade) ou social (instituição) estariam dando lugar ao nomadismo e à errância. Seguindo uma dialética, "como o vaivém das peças que dão equilíbrio às máquinas, aquele [polo] que se descuidou retoma a importância" (MAFFESOLI, 2001, p.103).
Maffesoli (2001) pretende comprovar, com uma espécie de metafísica
sociológica (segundo suas próprias palavras), que a errância e o nomadismo, sob
diversas variações, tornam-se um fato cada vez mais evidente e estão ligados a um gesto de resistência porque o nomadismo vai corresponder a esse confronto com o mundo produtivo.
Esse nomadismo, essas vagabundagens pós-modernas, segundo o autor, tratam-se de "uma tendência geral de uma época que, por uma volta cíclica dos valores esquecidos se liga a uma contemplação daquilo que é" (MAFFESOLI, 2001, p. 28).
Sarmento-Pantoja (2011), no seu ensaio “Do êxtase do Quase outro: da distopia à utopia inacabada em Benedicto Monteiro”, nos dá um exemplo desse ser transgressor, nômade: o personagem Miguel dos Anjos Prazeres, protagonista do romance A Terceira Margem, do autor citado. Segundo a autora:
Miguel também resiste à ordem cultural vigente: resiste ao casamento, resiste a tudo que evoca formas de aprisionamento e obediência. E, principalmente, resiste ao aprisionamento ao tempo útil e à vida adulta. Resiste a ser um homem do trabalho, disciplinado e previsível (SARMENTO-PANTOJA, 2011, p. 246).
Para Maffesoli (2001), o homem pós-moderno estaria impregnado de errância, que transparece, por exemplo, nas migrações do trabalho e do consumo, nas migrações sazonais do turismo e das viagens e nas migrações induzidas por desigualdades econômicas. Mas a ideia de nomadismo e de errância desenvolvidas por Maffesoli (2001) se referem, principalmente, à não fixação em uma profissão, em uma identidade, em uma família ou mesmo em um gênero, uma sede do infinito, que põe em movimento a resistência. Uma busca do Graal, da aventura, do invisível,
daquilo que não se sabe ao certo o que é. A errância possui, assim, um lado místico, que é também de religação.
Pensando nesses aspectos apontados por Maffesoli, volto mais uma vez ao trabalho de Sarmento-Pantoja (2011, p. 247), para quem a constituição do personagem Miguel dos Santos Prazeres abrange significações de “um sujeito singular, que atua contra o seu tempo, como transgressor e resiliente”. Poreli e Giannattasio (2008, p. 246), no que se refere a esse ato transgressor do homem pós-moderno, afirmam que esse ato deve ser entendido “não como uma força negativa e reativa às várias formas de poder, mas na condição de uma força positiva, ou seja, uma aliança do necessário com o impossível”, ideia com a qual a autora também concorda.
Segundo Maffesoli (2001), os habitantes das megalópoles seriam, de certo modo, um novo tipo de nômade, um errante que muda de aparência e de papéis na "vasta teatralidade social" (MAFFESOLI, 2001, p. 90). Ele nos esclarece que, paradoxalmente ao tribalismo, com seu sentimento de pertencimento a partir do local, o nômade seria o não-ser, o oco, o vazio, o dinâmico, e é ele, o nômade, o não-ser, a ausência de estabilidade do ser, a ausência de substancialidade existencial, que se tornaria evidente na pós-modernidade.
Acredito que uma das características do nomadismo pós-moderno está na ênfase que este dá à dimensão qualitativa da existência. Nesse sentido, Maffesoli (2001) frisa que o nomadismo não é determinado unicamente pela necessidade econômica ou por uma simples funcionalidade. Para ele, o que o move é o desejo de evasão: "É uma espécie de pulsão migratória incitando o (indivíduo) a mudar de lugar, de hábito, de parceiros, e isso para realizar a diversidade de facetas de sua personalidade" (MAFFESOLI, 2001, p. 51). Resumindo, um desejo de outro lugar.
Maffesoli (2001, p. 21) afirma que "em breve, quando não houver fome, vai- se morrer de tédio ou desespero". A pulsão da errância seria, então, resposta a um mundo que não satisfaz mais. Assim, o autor compreende que "talvez não seja mais admissível opor uma errância elitista, a do jet-set, a uma errância da pobreza, a da imigração à procura de um trabalho ou em busca da liberdade" ( MAFFESOLI, 2001, p.132).
O errante, para Maffesoli (2001, p. 70), contudo, também busca "escapar da solidão gregária própria da organização racional e mecânica da vida social moderna". Assim, compreende-se que o nômade, para além de uma estrutura de base, de uma constante antropológica, seria também fundador. Mesmo que com variadas modulações, o desejo de errância é visto pelo autor como um dos polos fundadores de qualquer estrutura social.
Segundo Maffesoli (2001), na base de toda estruturação social se encontraria ainda a tensão entre um lugar e um não-lugar (um topos e um u-topos), e essa dialética faria com que uma estrutura estável tivesse necessidade do seu contrário (o nomadismo) para "dar força à existência" ("existência", como impermanência, mudança contínua).
Maffesoli (2001) explica que o nomadismo tende a destacar-se em épocas em que o desfrute do presente assume grande importância e se ligaria assim a um outro fenômeno, uma busca em viver o presente, um presenteísmo. Postos diante do tédio e solidão que se instalam, e que geram essa "pulsão migratória" e o desejo de outro lugar, a errância e o nomadismo pós-modernos podem parecer sintomas de uma sociedade em que o presente é impossível de ser vivido, e a festa, por consequência, é sentida sempre como estando em outro lugar.
No entanto, compreendo que o caráter libertário que Maffesoli (2001) enfatiza em relação à tendência atual em que se configura o nomadismo, assim como todo o quadro idílico que ele constrói, ao longo do livro, acerca das implicações desse fenômeno talvez demonstre um dos pontos mais facilmente criticáveis da obra, visto que essa distinção, não parece clara. Pode-se supor ser, em razão dessa não distinção, que Maffesoli (2001) acaba atribuindo ao mundo como ele é as expectativas depositadas nele, os investimentos feitos pelos indivíduos em busca da realização dos seus desejos.
Desse modo, entendo que "as megalópoles contemporâneas nada mais são do que uma sequência de passagens, de derivas “psicogeográficas”, de possíveis aventuras de todos os gêneros" (MAFFESOLI, 2001, p. 140-141). A contradição entre a própria ideia de deriva psicogeográfica - tomada emprestada dos situacionistas, e que em si mesma é uma crítica à cidade e ao urbanismo - e a descrição das megalópoles como uma sequência de derivas psicogeográficas ilustra bem o risco que corre o autor, de terminar assim por enxergar no mundo como ele é,
aquilo que esse mundo de fato não é. Como o intuito da presente pesquisa não é estabelecer um comentário à obra de Maffesoli, mas extrair dela uma categorização da Vadiagem e por tabela, também do nomadismo, limitei uma breve crítica ao trabalho do estudioso francês.
Para os limites da presente investigação, observei que os ensaios acerca da Vadiagem de que trata Maffesoli (2001) têm oferecido condições para que outros estudiosos dessem prosseguimento às especulações sobre essa categoria – e outras como é o caso do nomadismo – e mesmo sobre um pensar acerca das posturas humanas no século XXI. Dentre esses estudiosos, destaco o trabalho desenvolvido por Poreli e Giannattásio (2008) acerca do vadio, que é aqui tido como um ser transgressor, nômade, cuja vida permanece estranha à cultura da coletividade.
Por essa perspectiva, a vadiagem pode ser vista como uma vida errante, venturosa, ociosa, sem teto, e sem recurso. Já como ilícito penal, consiste em um mecanismo de controle do Estado sobre a liberdade do indivíduo (PORELI; GIANNATTÁSIO, 2008, p. 477).
Por conta de toda essa dimensão transformadora, transgressora, utópica, subversiva é que o vadio é mal visto pela sociedade e seu comportamento incomoda tanto que passa a ser criminalizado, como veremos a seguir. Para entender melhor esse processo de criminalização, saí da abordagem de Maffesoli (2001) para entrar na compreensão dos mecanismos punitivos, inclusive juridicamente, em relação à figura do vadio. Esse aspecto é importante de ser destacado, pois percebo ressonâncias desses mecanismos nas canções analisadas.