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No cotidiano da vida na cidade de Uberlândia, no plano local, são oferecidos aos jovens adolescentes, além do shopping, outras formas e espaços de lazer voltadas para eventos promovidos por publicitários, empresários e, também, pela prefeitura da cidade.

Os espaços de lazer que ocorrem na vida urbana noturna, através da oferta de serviços privados, são boates e shows de meio e final de semana. Esse lazer oferecido pelo setor privado é uma mercadoria que acompanha na sua oferta outros bens de consumo não materiais do tipo cultural: shows de rock, MPB, sertanejo, pagode, forró, e outros diferentes estilos musicais.

A Prefeitura Municipal mantém diversos espaços de lazer público na cidade e, através de sua Secretaria de Cultura, oferece alguns eventos tradicionais e que marcam o calendário das atividades culturais da cidade, como: carnaval, festa do congado, feira agropecuária (no CAMARU) e da indústria e do comércio (na FENIUB), festa de folia dos reis, festival de dança do Triângulo Mineiro, Forró na Praça. Entre esses espaços de lazer, as festas do CAMARU e FENIUB incluem os shows e as exposições agro-pecuárias e da indústria e comércio, que ao mesmo tempo dão destaque aos eventos e os tornam lugares de grande público. A festa do CAMARU 33, que marca as festividades do aniversário da cidade, tem a duração de uma semana, atraindo um grande público de todas as classes sociais. Esses espaços de lazer abrem um leque de opções às atividades culturais e também ao consumo de produtos diversos que, entre shows e entretenimentos, são oferecidos e comercializados pela iniciativa privada.

Os micro e macro-empresários planejam e mantêm shows e boates semanais em casas noturnas, oferecendo diferentes estilos de música e, ainda, promovem os eventos anuais de grande público em associação com a prefeitura . Assim são promovidos os

33 CAMARU: Exposição Agropecuária do CAMARU (Parque de Exposições) Ocorre durante a semana da

data do aniversário da cidade oferecendo: exposição de animais e de produtos; leilões, concursos e desfiles de animais; shows; rodeios; parque de diversões; competições de jet-sky; rituais de abertura, cívicos e homenagens públicas. Na organização desse evento estão diretores, técnicos e burocratas do Sindicato Rural; expositores de animais, empresários associados na promoção e produção do evento, gerentes de empresas de produtos agropecuários, vendedores autônomos, artesãos, artistas plásticos, trabalhadores temporários, como garotas-propaganda, cantores e músicos de restaurantes, peões e auxiliares de rodeio, vigias de estacionamento de veículos, guardadores de veículos e, ainda, vendedores ambulantes com barracas de bebidas, alimentos, brinquedos, etc.

espaços culturais de entretenimento e lazer, espaços multi-culturais, que visam atender as diversas camadas das classes sociais e atrair um maior número de pessoas da cidade e da região. Para isso, sua programação aciona a publicidade e o ‘marketing’.

Nesse sentido, nesta parte da nossa análise, a concepção do lazer se verticaliza, como uma atividade/mercadoria que é ofertada para o consumo de todos os níveis sócio- econômicos e, no entanto, é adquirida por pessoas que se identificam com o local de lazer que, por sua vez, se revela pelo estilo da música que é oferecida. Ou seja, o local oferece um estilo, a marca dos seus produtos e os freqüentadores consomem não só bens materiais, mas também imateriais, que são culturais. São, então, atividades de lazer para diferentes públicos, como elemento presente na vida social urbana da sociedade de consumo, que se expõe e se impõe pela publicidade e pelo ‘marketing’, produzindo uma identidade abstrata, pois se é reconhecido pelo que é dado pela propaganda do lugar em que se consome o lazer (CARLOS, 1996, p.123).

Com essa referência é que vamos analisar a questão34, apresentada aos jovens adolescentes, sobre os eventos culturais da cidade que mais gostam de freqüentar, buscando conhecer em quais espaços multiculturais da cidade se reconhecem, quais freqüentam e estabelecer relação entre esses espaços e o que os identifica com o(a)s jovens adolescentes, tornando-os, portanto, parte dos seus espaços e meios de socialização.

De acordo com as declarações dos alunos e alunas, por um lado nota-se que ele(a)s já não estão dando preferência ou estão freqüentes em festas de amigos, em festas folclóricas e tradicionais. Por outro lado, eles mais do que elas, as jovens adolescentes, preferem não sair, ou não têm preferência e gostam menos de festas. Entre os espaços multi-culturais de lazer e entretenimento na cidade de Uberlândia, a opção do(a)s aluno(a)s convergiu para três tipos de lugares públicos: CAMARU e FENIUB, que representam eventos anuais em espaço aberto para atender a um grande público; CARNATRIÂNGULO, que ocorre na rua após o carnaval; boates e shows de casas noturnas da cidade, que são freqüentados principalmente nos finais de semana.

O(a)s jovens adolescentes marcam presença no evento do aniversário da cidade, a festa no CAMARU, e também em outras festas da cidade que representam eventos

ofertados como lazer para o consumo da vida social urbana, e nas quais as exposições estão presentes: FENIUB, ou shows: como COWBOY FOREVER.

Esses eventos, espaços transitados e freqüentados pelos alunos e alunas, têm características em comum, o que permite agrupá-los para análise. São espaços oferecidos para um grande público, de festas tradicionais e sempre presentes no calendário das atividades político-culturais da cidade. Nesses eventos, organizados pela prefeitura e também pelos setores da classe empresarial, são ofertados ao público bens de serviços materiais e imateriais. Esses eventos - festas, exposições e feiras rurais, rodeios, shows em diversos espaços sociais - referem-se a um só produto ou atividade mas incluem outras atividades e produtos, como a indústria simbólica, configurando-se uma matriz refundadora da categoria rural. Portanto, esses espaços têm em comum a ressignificação da nova ruralidade brasileira que se constitui muito além da dicotomia campo-cidade.

Fonte: Pesquisa direta - Uberlândia - ago-out/1999 Todas MASCULINO FEMININO Não responderam Não tem preferência Não gostam de festas Não saem Festas Juninas Em outras cidades Festa de amigos da turma Boates/Shows Carnatriângulo Camaru % 7,4 0,9 11,8 18,2 2,9 7,3 2,2 0,9 1,5 10,0 0,7 0,9 0,7 1,8 6,6 2,7 14,0 12,7 15,4 15,4 36,8 29,1

O evento CAMARU é marcado pela forte presença do mundo rural na cidade. Por um lado, tem a marca dos eventos de ‘agribusiness’ dos empresários ruralistas do município e da região e a exposição de gado e eqüinos e, por outro, tem a presença massiva da população, no melhor estilo ‘country’ nos shows populares de música sertanejo- ‘country’ ou nos rodeios, entre outras atrações.

É um estilo de festa próprio de cidades como Uberlândia, ligada tradicionalmente à agricultura. Esse evento, com sua especificidade local, se inclui, pelos seus objetivos e atividades, nos eventos dessa natureza que ocorrem pelo interior do Brasil, tendo a cidade de Barretos como sua maior expressão, à semelhança do que se vê em cidades dos Estados Unidos da América como Pecos e Dallas (Texas), Oklahoma City (Oklahoma), Los Angeles (California) e Las Vegas (Nevada). Com a realização de diversos circuitos35 de rodeios de peões e shows, durante o ano, várias localidades (entre as do Triângulo Mineiro se destacam Uberaba, Araguari, Uberlândia) passaram a se inserir nesses circuitos e a reforçar esse estilo de festa na vida do lazer urbano.

A semana no CAMARU, um grande espaço para receber todas as classes sociais, inclui exposições, feira rural, rodeios e shows nacionais e internacionais, nos quais o mundo rural, trazido para o espaço urbano, é reelaborado, atraindo e envolvendo o público com shows de música neo-sertaneja, peões e rodeios. Através, principalmente, do CAMARU36, mas também pelos outros eventos, Uberlândia se inscreve no rol dos eventos nacionais, que expandiram práticas, representações e consumo de símbolos do mundo rural, em diversos espaços sociais, numa nova configuração, contando com o reforço dos programas de rádio, televisão, indústria fonográfica, revistas, suplementos de jornal e produção publicitária.

Os eventos desse estilo cultural, com rodeios e/ou shows neo-sertanejos, ganharam dimensão nacional, principalmente, após a divulgação deles pela mídia37, reforçando a

35 Em 1991, a Rede Globo começou a promover o Circuito Espora de Ouro e a Rede Manchete, o Circuito

Fivela de Prata.

36 Segundo ALEM, no estado de Minas Gerais entre 1990 e 1995, o número de eventos regulares ficou entre

200 e 300, o que é significativo em um estado com 756 municípios (1995), e “bastante significativo em termos mercadológicos com implicações políticas e culturais que, sem dúvida, expressam mudança na configuração social da ruralidade brasileira” (1996, p. 88).

37 Salientando a Festa do Peão Boiadeiro em Barretos, que existe desde os anos 40 para divertir a população

presença do público e a marca desse estilo e, com isso, configurando-se uma rede simbólica38da ruralidade:

A categoria rural expandiu-se para o que é socialmente impreciso, até tornar-se quase indefinida, graças à potência publicitária abrangente que lhe conferiram esses eventos, seus rituais e produtos. (...). A produção da nova ruralidade ultrapassa significações originais, singularidades do mundo rural, quando invade as cidades, seja através do vasto comércio ambulante das calçadas e das lojas populares, seja nas butiques e griffes de prestígio encontradas nos grandes shoppings urbanos. Também no circuito do lazer e do turismo urbano, na vida noturna das festas, boates e danceterias, nos clubes, nos motéis, a configuração caipira/country reelaborou o ruralismo, principalmente nas cidades do interior, mas representou, também, durante algum tempo, uma verdadeira ‘febre’ nas capitais (ALEM, 1996, p.1-2).

Nos diferentes locais, esses eventos da nova ruralidade passaram a compor uma integração simbólica, onde convivem os mais diversos sujeitos sociais e o(a)s jovens adolescentes se misturam, na busca de espaços de lazer. E se identificam em meio aos shows, aos rodeios e circulam em torno dos símbolos caipira/country, consomem roupas, chapéus, música, etc., enquanto os empresários realizam a comercialização dos produtos capitalizados no meio rural.

Para ALEM, essa nova ruralidade no urbano e a reconstrução (re-significando-a) cultural da ruralidade não deve ser considerada apenas pelo foco da indústria cultural. Esta, sem dúvida, “encampou a ruralidade em outros termos, ao reelaborar suas modalidades culturais conhecidas sob as marcas da rusticidade, do folclore, da tradição, do atraso, da nostalgia, resignificando a experiência histórica e cultural campestre” (1996, p.19). Essa nova ruralidade, embora tenha sua matriz cultural nos elementos do campo, foi expandida para outros espaços sociais e

participação de patrocinadores de peso na publicidade (Brahma, Bradesco, Credicard e Philip Moris), da mídia na década de 80 (através das Organizações Roberto Marinho - GLOBO; Adolfo Bloch - Grupo Manchete, Victor Civita - Grupo Abril, Simon Abravanel - Grupo Sílvio Santos entre os mais conhecidos programas de shows musicais, na televisão, rádio e discos abrindo a base de participação nos eventos). Entre 1991 e 1993, a Rede Globo promoveu o Circuito Espora de Ouro de Rodeio integrando membros dos Clubes ‘Independentes de Barretos’ e ‘Os Inconfidentes’ de Araguari/ MG, dando impulso à profissionalização do rodeio e, através da venda do circuito, objetivando integrar e ampliar a venda simultânea de publicações, programas de televisão e rádio, discos, vídeos, enfim, produtos das empresas do sistema Globo e, além disso, vender publicidade de empresas e setores da economia, sem exceção (p. 166- 171).

38 “entendida como a combinação dos meios de produção e dos veículos da indústria cultural com as práticas

é parte de dois processos conectados, irreversíveis e socialmente inclusivos: a expansão generalizada, social e geográfica da indústria cultural no Brasil consolidada depois dos anos 80 e a modernização das relações agrárias, da forma como foi operada depois dos anos 60, entendidos como processos que se constituem para desdobramentos no longo prazo, portanto, permanentes (ALEM, 1996, p.19).

Considerando a inserção de Uberlândia no projeto de modernização da agricultura (de Cerrado) brasileira, que apresentou uma transformação conservadora (manteve a concentração da posse e da renda da terra), tendo promovido a capitalização e a tecnificação da estrutura agrária (e ao mesmo tempo a exclusão de muitos), permaneceram as relações rurais com forte estigma de atraso e conservadorismo que são personalizadas na figura do caipira. Da mesma forma que em todo o Brasil o rural, o caipira, era sinal de relações arcaicas, atrasadas e não compatíveis com a nova modernização rural. Na modernização das relações rurais, e da relação do campo com esse rural, a mídia participa criando e divulgando uma identidade para a nova ruralidade. Esse redimensionamento do significado da nova ruralidade é construído e assimilado como representação de novas sociabilidades e está presente nesta cidade. Nessa nova ruralidade, também observada em Uberlândia, agora modernizada também nas relações de sociabilidade, as representações predominantes

giram em torno das sociabilidades inovadas nos rituais do ruralismo redivivo: o brilho das empresas, dos empresários, dos intelectuais e técnicos, das próprias técnicas, dos artistas, dos peões de rodeios enriquecidos, enfim, das pessoas e grupos, das práticas ‘country’, que sugerem estilos de vida e de comportamento muito distantes do Jeca Tatu de Monteiro Lobato, do Sertanejo de Euclides da Cunha, dos jagunços de Guimarães Rosa ou dos caipiras de Antônio Candido e, na aparência, também, distantes do estilo de vida dos velhos coronéis oligarcas (ALEM, 1996, p.4).

O(a)s jovens adolescentes socializam-se no estilo caipira/country e a identificação com esse estilo não os impede de manifestar outros estilos da cultura juvenil, assim como não os impede de freqüentar espaços de entretenimento que oferecem produtos culturais diversos, para todas as tribos. Não estão apenas na festa do CAMARU e na FENIUB ou no COWBOY FOREVER. Estão, também, presentes em outros espaços de sociabilidade, como nas boates e os shows noturnos, nos espaços de estilos e cultura diferenciados: forró,

rock, tecno music, rock pesado, ‘country’, sertanejo, pagode, samba, etc.. São lugares cada vez mais freqüentados e apreciados pelo(a)s jovens adolescentes enquanto diminuem outros espaços de sociabilidade e cultura, como em casas de amigo(a)s que reunem para comemoração e festas entre eles e elas.

O CARNATRIÂNGULO é outro evento que ocorre no pós-carnaval nas ruas e nas avenidas, trazendo cantores populares e suas músicas como pagode e axé da Bahia com trios elétricos, seguido e apreciado mais por elas do que por eles, acompanhando outra expressão de cultura popular que se diversifica e se expande, principalmente, através da indústria cultural.

Nesses formas de lazer a que a maioria dele(a)s dá preferência, o que passa a ocorrer é a verticalização da indústria cultural, que amplia, entre outros, os símbolos de caipira/country. Com isso, o lazer em que buscam prazer e identificação

é um elemento do processo de reprodução, um tempo que se organiza em função da reprodução de relações sociais. (...) O que organiza toda vida social, porque organiza a sociedade de consumo, organizando lazeres. Impõe-se pela publicidade e pelo marketing. Aqui se produz a identidade abstrata (CARLOS, 1996, p.123).

No entanto, podemos pensar que nesses espaços de práticas multi-culturais ele(a)s socializam diferentes maneiras de pensar, e o lugar ganha expressão festiva, de lúdico, mais pela dimensão do uso do tempo livre e pela possibilidade de estarem juntos, que suplanta a dimensão dos objetivos dessas atividades de consumo.

3. Outros Espaços e Meios de Socialização: a mídia