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6.   Conclusion

6.1   Contribution and future research

42 O projeto implantado na escola em 2006 foi publicado no caderno Pais e Mestres do JT, uma parceria com o NCE-ECA USP.

Todas as atividades desta fase, após serem fotografadas, foram enviadas para a escola de ensino fundamental II em Itaberá-SP. Como as respostas não chegavam, viajei até a cidade de Itaberá e deparei com uma surpresa, as correspondências haviam sido extraviadas e sem as primeiras atividades realizadas pelos educandos da cidade ficaria muito difícil dar continuidade ao projeto. Naquele momento decidi realizar o projeto no assentamento, com o apoio de um educando do MST. Na escola, combinamos de reunir os juvenis da Agrovila à tarde na sala da Ciranda para conhecer o projeto e realizar as atividades de arte. Naquela tarde realizamos as atividades da primeira fase. O grupo participou de todas as atividades da semana. Durante os encontros, após a apresentação das obras, os adolescentes começavam a desenhar e alguns terminavam os desenhos em casa, para entregar no dia seguinte. Nesse encontro as cartas fizeram muita falta, pois eles estavam ansiosos para se corresponderem com algum aluno da cidade. Forneci alguns nomes.

Houve grande interesse pelas obras, diálogo com perguntas e conexões pertinentes, que foram aproveitadas para alimentar o debate e provocar a curiosidade. A falta de um computador inviabilizou a apresentação de todas as imagens apresentadas na cidade, limitando-se às reproduções em papel de seis auto-retratos. Quanto ao fazer artístico, houve uma heterogeneidade nos desenhos, as crianças da mesma faixa etária dos educandos da cidade, apresentavam um nível de qualidade equiparado aos melhores desenhos da cidade, mas houve casos de muita dificuldade em desenhar. Um menino de 12 anos não conseguia desenhar seu auto-retrato, desenhou uma figura pequena no centro da folha e de tanto apagar, desistiu e entregou um papel sujo e borrado. Outro menino de 12 anos, porém interessou-se pelo desenho do E. do qual relatei acima sobre seu interesse por mangá. O menino fez um desenho de mangá e escreveu a sua carta ao menino da cidade. Seu desenho indica a mesma influência que a televisão exerce também no campo. Notei um grande interesse pelos desenhos dos alunos da cidade, que não haviam sido postados.

Às 17h, outro grupo já se reunia para a aula. Era o grupo de alfabetização do Projeto de Cuba, com aproximadamente dez pessoas, entre elas um senhor de 73 anos, ainda na ativa. Ao ser apresentada, o grupo também se interessou pelo projeto e todos se propuseram a participar. Apresentei-lhes as obras de cada fase e recebi os desenhos da maioria dos participantes.

O desenho mais significativo foi de uma senhora de 67 anos. Seu auto-retrato era de corpo inteiro ao lado de um vaso de flores da sua altura. Os desenhos em geral equiparavam- se ao nível de escolaridade e semelhantes aos desenhos infantis da mesma série, são estereotipados e sem proporção. Uma senhora de 61 anos, desenhou seu auto-retrato com uma cabeça bem grande em relação ao corpo e aos braços, um par de brincos, faces rosadas, sombrancelhas bem delineadas, boca grande e vermelha e o vestido com detalhes no decote e um cinto em cor contrastante. Nota-se neste desenho uma preocupação estética, na simetria do desenho, equilibrado com duas flores iguais nas laterais. Outra senhora desenhou seu auto- retrato na mesma proporção dos auto-retratos apresentados, com destaque para o rosto. Neste desenho observa-se uma proporção de medidas. Os olhos amendoados e inclinados dão um ar sensual à imagem, as pupilas indicam um olhar para a direita, numa tentativa de não retratar a imagem de frente. Na figura não há pescoço e a linha corpo está na altura dos lábios. Ao lado do desenho ela escreveu uma carta carinhosa onde relata sua relação com o MST, a vida sossegada e convida seu amigo para vir passear no assentamento.

No período noturno, na escola ao lado da Ciranda, funciona o EJA, Educação de Jovens e Adultos, freqüentado, em geral pelos pais das crianças do ciclo I da escola que funciona no período diurno. A primeira e a segunda fase do projeto foi apresentada aos alunos de EJA nas duas aulas de artes. Falei sobre a proposta e apresentei as obras, numa relação dialógica. O professor de artes acompanhou a apresentação e ao final do encontro, incentivou os alunos a escrever e desenhar como forma de fixação do aprendizado, e em particular agradeceu e afirmou que aprendera muito naquela noite, pois estava iniciando na carreira do magistério e aproveitou a oportunidade para solicitar a doação de qualquer material de arte que eu pudesse dispor para suas aulas, porque na região era muito difícil o acesso aos recursos didáticos que eu havia utilizado para a apresentação. Açõe solidárias como esta são muito incentivadas entre as escolas irmãs. Os educandos desenharam seus auto-retratos, escreveram suas biografias e entregaram na sexta-feira, conforme o combinado, apesar de trabalharem durante o dia e estudarem à noite.

Uma das alunas se destacou pelo interesse e participação diante das obras apresentadas, com várias intervenções durante a exposição e escreveu uma carta dirigida ao aluno da 8ª. C que a fez circular entre os alunos da escola. A carta comoveu muitos alunos e foi a melhor forma de falar do MST e da vida no assentamento. Em sua carta ela relata o período que passou no acampamento, sob barracos de lona, que passou fome, teve medos, fez

novenas e contou com o apoio de visitantes e dos assentamentos da região. A resposta do aluno não foi menos comovente, porém carregada de um sentimento de amor e solidariedade.

Os desenhos revelavam o domínio das proporções e da composição, o grande problema foi a falta de papel, muitos alunos fizeram os desenhos na folha de caderno, mas isto não desmerece a qualidade dos trabalhos, ao contrário, serviu de álibi para sensibilizar os alunos da cidade sobre o desperdício de papel e material escolar.

O mais curioso dos trabalhos apresentados foi um auto-retrato com moldura desenhada. Um detalhe que revela o conceito que o educando tem sobre a arte associado à idéia da arte clássica, uma herança cultural da missão francesa no Brasil.