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12 A Reforma Paula Souza, instituída pelo Decreto 3.876, de 11/07/1925, foi uma reforma sanitária que tinha, na

A visita domiciliar ganha destaque no Brasil a partir de sua incorporação aos serviços sanitários da década de 1920, voltada quase que exclusivamente para a eliminação das grandes epidemias de doenças infectocontagiosas (SANTOS; KIRSHBAUM, 2008).

Belo Horizonte, em 1933, estava dividida em 20 zonas, dentro de 9 distritos. A divisão era a seguinte:

A-B: zona da cidade, C-D: Barro Preto, E-F: Calafate e Gameleira, G-H: Carlos Prates, I-J: Lagoinha, K-L: Floresta, M-N: Santa Tereza, O-P-Q: Santa Efigênia, R-S-T: Santo Antônio e Serra, respectivamente no 1o, 2o, 3o, 4o, 5o,

6o, 7o distritos, O-P-Q dentro do 8o e 9o e R-S-T, dentro do 10o (PESSANHA,

1935, p. 1).

Laís Netto informa que o ponto de partida para a organização da saúde pública mineira foi o conhecimento desse serviço de visitadoras e sua estruturação prévia. Destaca a boa vontade e atenção recebidas de Eugênio Muller13 no Centro de Saúde, o que teria lhe proporcionado uma boa observação do serviço. Após esse reconhecimento, ela partiu para a revisão e reforma dos livros distritais. No relatório, ela incorpora a esses livros distritais “estatísticas e meios de controle” chamados de “modernos”, permitindo o reconhecimento das zonas de ação das visitadoras (REYS, 1933, p. 1).

Sobre as visitas, a então superintendente Laís Netto informa que o primeiro cuidado que teve foi o de elaborar a rotina de trabalho da enfermeira visitadora, estabelecendo critérios para a visita “ser bem feita”. Apontou “o objetivo da vigilância do domicílio; os problemas mais comuns nas visitas e qual a conduta a ser tomada; como agir em casos extraordinários; a importância dos relatórios, dos dados colhidos e como fazê-los de forma sintética mas clara e como colhê-los inteligentemente” (REYS, 1933, p. 3-4).

Cabe mencionar que as visitas poderiam ser “de notificação, solicitação ou propaganda”. Estas aconteciam com “regularidade, nos limites do possível, apesar do pequeno número de

unidades para os diversos casos a atender” (PESSANHA, 1935, p. 1, grifos nossos). Esse registro de Clytemnestra Pessanha mostra as dificuldades do serviço da visitação sanitária diante da estrutura deficiente e do pequeno número de profissionais para atendê-la, justificando a preocupação do estado de prover a saúde pública de enfermeiras.

Para assegurar a boa prática da rotina das visitas, Laís informa que elaborou “mapas controladores, diários e mensais da enfermeira e da chefe de serviço, bem como mapas gerais do serviço globalizado e mapas dos serviços especializados: Tuberculose, Lepra, Moléstias

Contagiosas, Higiene Infantil”. Adotou trabalhos estatísticos em relação às visitas e menciona ter interesse em realizar “um estudo comparativo do que rende para o serviço de Enfermeiras, para a Higiene e para o bem do povo o trabalho da Enfermeira Visitadora” (REYS, 1933, p. 4). O trabalho passou a ser dividido então em duas partes: externa e interna. “A primeira compreende o horário de 8h às 12h, em que a enfermeira visita a sua zona. A segunda parte, de 14h às 16h no escritório, onde ela faz a anotação do serviço e a estatística do movimento de sua zona e de suas atividades cotidianas”. Os trabalhos realizados eram registrados em folha impressa da respectiva zona e foi chamado de “resumo diário da enfermeira” (PESSANHA, 1935, p. 1).

Com o intuito de “controlar o trabalho das visitadoras”, outra enfermeira diplomada pela EEAN, em 1929, Clytemnestra Pessanha, foi requisitada. Até então o serviço de enfermeiras de Belo Horizonte contava com uma única enfermeira diplomada, Dolores Fulgêncio, formada pela EEAN, na turma de Clytemnestra (SANTOS, 2006, p. 86). Laís comenta que Clytemnestra foi “de grande auxílio”, pois fazia uma “fiscalização severa das atividades das enfermeiras visitadoras” (REYS, 1933, p. 4). A introdução do “resumo diário da enfermeira” foi um dos recursos instituídos para exercer controle e, alternadamente, a cada semana, Dolores e Clytemnestra dividiam-se entre a inspeção dos trabalhos externo e interno, ou seja, ora do serviço de Distrito, ora do escritório central” (PESSANHA, 1935, p. 2).

Há outros indícios da organização do trabalho exercido pelas enfermeiras visitadoras de saúde pública:

Cada ficha individual é arquivada com a ficha social, de modo a poder mais tarde o serviço de Belo Horizonte servir de padrão a todo o estado. Na curva de trabalho do distrito e dispensário, pelo número de visitas e injeções e curativos registrados, pode-se avaliar o grau de capacidade de trabalho da enfermeira. Além dos mapas estatísticos para cada zona [usados a partir da reorganização feita por Laís Netto], outro de todas as zonas, enviamos a cada um dos senhores médicos chefes do serviço um mapa das respectivas visitas. Nos livros das zonas são registrados os casos com todos os dados e o dia das visitas, assinalados os casos novos e suspensos do serviço (PESSANHA, 1935, p. 2).

Laís Netto dos Reys cita dados em seu relatório sobre o trabalho de visitação feito no período daqueles 3 meses de serviços prestados ao estado de Minas Gerais: “2581 visitas em 588 casas, predominando as visitas de verminose [911 visitas]” (REYS, 1933, p. 6). Maletta (1997) confirma esses dados, mostrando que, entre as doenças infectoparasitárias que assolavam Belo Horizonte na década de 1930, as gastroenterites estavam em primeiro lugar.

Marques e Gazzinelli (2013) apontam que as verminoses eram mesmo um problema de saúde pública que perdurava em Minas Gerais: “Em 1919, os trabalhos foram retomados [parceria entre o governo estadual e a Fundação Rockefeller para identificação e tratamento de ancilostomíase em Minas Gerais] e 8.499 pessoas foram examinadas, em vinte comunidades, incluindo Belo Horizonte; 72,3% estavam contaminadas”.

Pode-se afirmar que as disciplinas ministradas nos cursos rápidos foram organizadas com a intenção de atender essas demandas. Convém mencionar que os números das visitas para verminose mostram a precariedade das condições de vida da população.