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Contextualización y definición de “Mystery Shopper”

Como já foi assinalado anteriormente, os profissionais do PMF vêem a questão da violência a partir de uma perspectiva local, quer dizer, da observação do que acontece nas comunidades onde desenvolvem suas atividades. Segundo a visão destes profissionais a violência está fundamentalmente relacionada à questão do tráfico de drogas. Embora, algumas vezes essa questão não seja colocada diretamente, percebemos nos depoimentos uma alusão a esse problema.

Nessa perspectiva, apenas uma das entrevistadas disse que no “seu setor” a situação era pior do que nos outros setores. Seis entrevistados assinalaram que a situação nos “morros” era muito mais tranqüila e menos assustadora do que se pensava, especialmente, quando essa realidade compara-se com outros bairros de Niterói ou do Rio de Janeiro. Dois deles reafirmam essa percepção apesar de relatarem a presença de “corpos” na comunidade mas que atribuem ao enfrentamento entre grupos que controlam o tráfico de drogas em bairros próximos. Os seguintes depoimentos ilustram como a questão da violência é vista pelos profissionais:

“olha só! A violência aqui, de um modo geral, é até menos assustadora do que eu imaginava. Então quando eu vim trabalhar no módulo eu pensava que isso aqui fosse o pior lugar da face da terra. Para mim, que morei no Rio por muitos e muitos anos, morando próximo de morros, eu sabia desse tipo de violência (...) Então com a minha vinda para o módulo, eu vi que o bicho não era tão feio”.

(médica - PMF)

“Eu acho que não tem ... pra mim não tem tanta e quando acontece de ter é por influência de pessoas de fora, não da própria comunidade. Acontece de ter com pessoas da comunidade no meio mas é influência de pessoas de fora. Eu acho tranqüilo”.

(auxiliar de enfermagem - PMF)

“Eu acho que o morro é mais ou menos tranqüilo, perto das outras áreas que sofrem mais com isso, porque embora não tenham tráfico de drogas aqui, eles estão muito próximos de um lugar que tem ...”.

Apenas uma das entrevistadas falou sobre a violência como um problema da sociedade no seu conjunto e não restrita às comunidades onde o PMF está implementado. A fala da entrevistada ilustra a sua preocupação com respeito a essa questão e à ausência de vontade política para enfrentar esta problemática:

“É uma questão muito séria que eu particularmente acho que não é vista com a seriedade que a situação exige. É uma coisa que precisa que você queira fazer alguma coisa e querer fazer a coisa acontecer”.

(médica - PMF)

A questão do tráfico de drogas foi ressaltada pelos profissionais devido às repercussões que produz no cotidiano da vida e da saúde da população. Alguns deles (3) colocaram que o uso de drogas é um problema importante entre os jovens e que, em muitos casos, gera mais violência, produto das tensões interpessoais relacionadas ao consumo da droga.

“... eles ficam drogados, fica tudo maluco, um querendo pegar o outro, no meu setor tem muito disso, eu tiro assim porque o meu setor é o pior que tem (...) eu tiro um exemplo desses dois, eles eram tão amigos, de repente ... por causa de drogas, ... parece que o outro queria, ele não foi dar, parece que não tinha dado o dinheiro pra comprar a droga, só tinha dado ele, aí começou a briga dos dois ... agora a arma deles é a faca, um enfiou a faca no outro. É um absurdo!”

(auxiliar de enfermagem - PMF)

Porém, o aspecto mais destacado pelos profissionais (10) são as conseqüências da ação repressiva da polícia para combater o tráfico de drogas, nos momentos em que acontece a “invasão” das comunidades. Essa situação é relatada como um fator importante que ocasiona sérios distúrbios para a saúde da população (hipertensão, ansiedade, insônia, entre outros) e, inclusive, percebe-se como a demanda dos usuários naquelas circunstâncias “tem uma característica específica”. Assim também, referiram que em algumas oportunidades, o desenvolvimento de suas atividades tiveram que ser interrompidas pela inexistência de condições de segurança tanto para os profissionais como para os usuários.

“... de vez em quando tem tiroteio com a polícia, fuga de pessoas, eles sofrem com isso, não dormem, medo de bala perdida, a polícia invade o quintal de alguém. Inclusive a

gente, quando a polícia está não sobe1 ... ontem mesmo, a gente estava fazendo recadastramento (...) e uma moradora falou: ‘vocês já ouviram o tiroteio?’. A gente: ‘o quê?, está havendo tiroteio?’. A gente fica assustada e volta. Eu nunca subo o morro sozinha, eu subo sempre com a auxiliar, ela não vai me proteger mas é uma pessoa conhecida na comunidade. Quando a polícia está no morro a gente não sobe”.

(médica - PMF)

“... em compensação hipertenso que desce, e crianças, mulheres, gestantes se escondem na comunidade, ninguém desce para nada ... só aquelas pessoas de emergência. As vezes a gente tem que atender pessoas envolvidas diretamente com a violência e isso também é complicado à beça, traz insegurança para as pessoas”.

(enfermeira - PMF)

Sobre as causas da violência, quatro profissionais se referiram a essa questão como um problema estrutural, relacionado com as condições de pobreza e de miséria dos setores menos favorecidos da sociedade, nos quais se incluem os moradores das comunidades onde desenvolvem suas ações. Ao mesmo tempo apontam a complexidade das “raízes da violência”, devido a que as condições de escassez não são suficientes para explicar os processos desencadeantes de situações de violência, já que em diversas circunstâncias essa violência pode voltar-se contra o próprio indivíduo, como nos casos de usuários de drogas, que segundo um dos entrevistados “os viciados não tem respeito nenhum pela vida, para eles a vida não é nada, nem a dele, nem sequer para dizer, você não respeita a vida dos outros, não. Eles não respeitam a vida deles ...”.

“... de uma forma geral a violência passou a ser uma coisa assim de várias raízes. Uma época andei pensando que caminho é esse que as pessoas fazem para chegar nela, porque é uma coisa que tem tantas variáveis, que vai desde a educação, a condição sócio- econômica que a família tem, desde aquilo que conhece no mundo, tipo assim, seu pai sendo honesto, trabalhador, tem fulaninho de tal que v. quer o que ele tem, v. vê que o meio que ele conseguiu não é o meio que v. conhece. Então, automaticamente v. não vai seguir o meio que ele seguiu, qualquer que seja esse, um trabalho honesto ou o crime, o tráfico. Eu acho que é um conjunto de variáveis...”.

(médica - PMF)

Assim mesmo, esses profissionais sentem que “tem contato próximo com todo tipo de violência” e que “de alguma forma se deparam” com esse fenômeno, através de suas 1

vivências diretamente relacionadas com as condições de vida da população (saneamento ambiental precário, desnutrição infantil, desemprego, escassos recursos sociais) e dos relatos de moradores sobre a violência “armada” que sofrem pelas ações da polícia. Um dos entrevistados expressa uma posição mais crítica com respeito à participação do Estado como elemento gerador da violência, devido a sua ineficiência e falta de compromisso para proporcionar condições de bem-estar à população garantindo o seu desenvolvimento :

“A violência que eu mais vivi foi a violência contra a comunidade, a violência contra as pessoas, a violência do crime organizado, a violência da polícia (...) No fundo, no fundo, eu acho que toda essa violência gerada vem pelo fato de que o Estado não assume o seu papel (...) Está faltando muito para uma nação. O Estado não se preocupa em nada com o bem-estar da população, eu acho que a pior violência é essa (...) tá ficando de lado, questionar o papel do Estado”

TEMA 6.1.3: A PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS SOBRE A MAGNITUDE DA(S)