O policial militar entende o bico como um serviço como outro qualquer; e por isso, deve possuir regras para o seu funcionamento. Assim, o reconhecimento profissional está atrelado ao fato de que no serviço de “segurança” não há problema. A idéia é que o policial militar é de confiança.
Para explicar este contexto do bico é necessário compreender que existe uma desconstrução do modelo institucional, baseada na hierarquia que estipula os cargos por meio da graduação e do posto, sendo a disciplina que estipula os direitos e deveres do policial militar na corporação.
O trabalho paralelo (bico) possui regras próprias que são estabelecidas a partir de quem consegue o serviço de segurança, portanto, o dono do bico é o policial militar mais antigo no estabelecimento privado e os demais seguranças o devem respeito. A organização cabe ao dono do serviço, assim, há toda uma estrutura organizacional que se mantém não por lei estabelecida, mas por acordos firmados entres os seguranças.
Assim, o desempenho do trabalho paralelo depende do acordo firmado, por isso deparamos com uma realidade distinta da corporação que reconhece os seus profissionais pelo posto e habilidades. No bico, o reconhecimento vem por meio do trabalho desempenhado; é necessário que todos os integrantes sejam confiáveis e que as pessoas acreditem em sua honestidade, principalmente o dono do bico e/ou o proprietário do estabelecimento privado; e não adianta possuir vários cursos se estes não podem se aplicados no serviço de segurança privada, pois para a compreensão do funcionamento do bico é necessário adentrar nas categorias existentes no trabalho paralelo.
O bico pode ser considerado uma forma digna de trabalho, e deve ser reconhecido como tal, visto que, possibilita o sustento da família do policial militar, que vislumbra uma oportunidade de melhoria de condições financeiras e realizações pessoais:
Divergindo dos oficiais, as praças ouvidas não definiram o “bico” como desvio de ou fonte de desvios, mas como meio honesto de aumentar seus magros salários, já que os governos têm se preocupado mais em comprar viaturas e armamentos do que investir na valorização dos policiais de ponta. (LEMGRUBER, ET AL, 2003, p. 81, grifo nosso).
Por isso, deparamos com policias militares descontentes com a instituição militar, que procuram no bico a sua forma de “ganhar o pão de cada dia”, não se submetendo as regras estabelecidas pela corporação, e não vislumbrando na sua atitude um desvio de conduta. Assim, quando desempenha o trabalho paralelo não estão regidos por normas institucionais militares, pelo fato de possuírem as suas próprias regras, que permitem a desconstrução do preceito institucional, como detectado no comentário a seguir:
A gente pensa que não, mas até oficial tira bico. Claro, eles também tiram bico. Eu conheço um monte que tira bico. Tira bico com praças. Estes que tiram bico com o praça e que são amigo do praça. Sempre ali conversando com o praça, eles são dos lados dos praças e não dos oficiais. Como todo mundo diz: a polícia é dos oficiais. É verdade! Eu quando tirei bico, tirei junto com o tenente. Ele junto com a gente. (soldado, 08 anos de serviços).
Neste momento o círculo hierárquico é rompido, e todos são iguais. Há uma cumplicidade que permite identificar quem realiza o bico, e, portanto, qual o tipo de serviço está habilitado. No bico, os policiais militares são identificados não por sua patente, mas pelo serviço de segurança desempenhado, como podemos notar neste comentário:
É pelo dia-a-dia mesmo. É tradição já. Este colega que eu tiro lá, eu confio mais nele do que em mim. O cara é muito competente, preparado e profissional. (cabo, 17 anos de serviço).
Dessa forma, podemos identificar que o princípio empregado na instituição militar, não pode ser aplicado no bico que possui normas próprias, estabelecidas a partir de acordo entres os integrantes da segurança, que estipulam os procedimentos que devem ser adotados para o funcionamento do serviço de segurança.
Afinal, no bico, como pode um soldado comandar sargento, cabo ou até tenente? Pelo acordo do trabalho, quem consegue o serviço de segurança é quem determina o funcionamento do serviço. É o dono do bico, independente do seu posto na corporação é o chefe do serviço e o restante dos policiais militares será considerado seus subordinados (segurança):
Não, por que eles atendem aos nossos pedidos, dentro do respeito. Ele é subtenente, eu sou sargento, e pronto. Mas aí quando é repassada a ordem, nós não estamos visando a patente. (sargento, 19 anos de serviço).
O policial militar não visa a patente e sim o serviço. Afinal, a integridade física dos membros da segurança, depende da responsabilidade de cada um. O subtenente é um posto acima do sargento, porém, ele não pode se constranger ao receber ordens de um sargento, pois, se houver tal ato, dificilmente consegue outra colocação no bico. O fato é que a hierárquica estabelecida na instituição militar não se estende ao serviço de segurança privada, pois, este possui regras próprias que estipulam o funcionamento:
No inferninho era eu o dono do bico. Neste outro era um colega que era mais antigo, era cabo também. Mas era mais antigo no local. Ele era o dono do bico. (cabo, 17 anos de serviço).
Na corporação militar, os funcionários são identificados pelo posto ou graduação, função, habilidade e outras modalidades. No bico, toda essa estrutura estabelecida na instituição militar, é desconstruída do “portão para fora”; o destaque é do policial militar que desempenha o serviço de segurança, por muito tempo, sem apresentar problema no serviço, principalmente quando no local em que trabalhar não tenha ocorrido assalto. É considerado de “boa índole” e não paira dúvidas sobre o seu comprometimento com o serviço de segurança:
Tem o cabo que é biqueiro antigo que trabalha com telefone, quando ele está de folga. Gente boa! Mora aqui do lado. (sargento, 19 anos de serviço).
3.2 A INVERSÃO DOS PAPEIS: A DESCONSTRUÇÃO DA HIERARQUIA E DA