Reflection recipes and stabilizers
4.2 Our construction of polytopes
Na tentativa de compreender sua vivência com o diabetes, os sujeitos do estudo buscam explicações para a inserção da doença em suas vidas, bem como a classificam. Para Augras (2000, p. 23), “a conscientização do fracasso desemboca na explicitação, isto é, na elaboração de um conjunto de significações que procuram dar conta da situação do ser no mundo, descrever suas contradições, enfim, interpretá-la”.
4.3.1.1 As causas da doença
A inserção do diabetes na trajetória de vida suscita a busca de compreensão do porquê da doença. Hereditariedade, gravidez, hábitos alimentares e motivos espirituais são mencionados pelos sujeitos do estudo como causas da doença. Sentimento de culpa, “vitimização” e predestinação divina estão presentes nos depoimentos.
Francisco, nos vãos das palavras, com voz quase sussurrada contrapõe o “corpo forte” da época que trabalhava como tropeiro ao “corpo de dor” do presente. Recorda-se da grande quantidade de rapadura que comia em suas viagens pelo sertão da Bahia. O sentimento de culpa faz-se presente. Há uma transferência da visão atual sobre dieta para uma época na qual os costumes alimentares eram regidos por outros princípios e necessidades.
Por outro lado, Joel tem consciência do erro alimentar do passado, porém ele o contextualiza, afirmando que “o brasileiro gosta de rapadura, farinha, macarrão, arroz, batata doce, batata
inglesa, cará, tudo coisa forte”. Para ele, “a diabetes é nada mais é do que a educação que eu
não tive, de comer as coisas certas na hora certa”. Não obstante à presença do fator genético na família, Joel acredita que a “cadeia de transmissão da doença” pode ser quebrada através da educação dada aos filhos.
“Meus filhos têm uma vantagem, eles adoram um legume, verde, qualquer verde que você colocar, eu acho que até capim se você colocar eles comem. É bom, é gostoso, entendeu? (...) agora ele tá com 15 anos, ele tá cuidando, eu espero que ele continue assim, pra não chegar na minha idade e tá como eu estou, cheio de tric tric, cada hora é um negócio que chega”.
Segundo Sontag (1984, p. 84), “os pacientes que estão sendo instruídos no sentido de que, involuntariamente, causaram sua própria doença, também são levados a sentir que eles a merecem”. O sujeito é impelido a acreditar que é responsável tanto pela instalação da doença
quanto pela evolução do estado clínico. Para Carvalho, Y.(2001, p.168):
A Saúde Pública reforça a idéia de que o indivíduo é o responsável pela degradação de sua qualidade de vida. A sua mensagem fundamenta-se no pressuposto de que as enfermidades são causadas pela negligência do indivíduo com ao seu corpo. Está constantemente lembrando à população o seu compromisso com os cuidados alimentares, o excesso de bebida, o fumo e a necessidade de atividade física para promoção da saúde.
O sentido do diabetes como refinamento espiritual também emerge dos depoimentos. “Deus
quis assim” (Marinalva). A via crucis é a própria vida após a doença, os espinhos são as complicações do diabetes, os quais muitas vezes deixam cicatrizes no corpo de padecimento ou penitência. A trajetória da vida ou a própria vida torna-se um “peso” a ser carregado. A pessoa recebe a doença e suas repercussões com resignação. Acredita que este é seu destino. É a doença-punição na qual o sujeito experimenta ou deve experimentar a culpabilidade pelo adoecimento por se tratar de um castigo merecido (LAPLANTINE, 1991).
4.3.1.2 A classificação da doença
A doença não existe fora do sujeito. É o portador de diabetes quem vivencia as alterações fisiopatológicas da doença em seu corpo e as repercussões no mundo-da-vida. Assim, no intuito de melhor compreender o seu processo de adoecimento, os portadores de diabetes classificam sua doença usando seus próprios critérios, como peso, medicamentos e estado emocional.
Para alguns, o diabetes torna-se realidade quando há prescrição de medicamentos e a gravidade da doença é medida em relação à “potência” do fármaco prescrito.
“Só que eu não sei te explicar direito se a diabetes que eu tenho, no início ela era tipo 1, agora eu não sei por que igual agora essa vez que tive internada tive que tomar um remédio potente, então, eu não sei” (Marinalva).
“Parece-me, pelo que eu sei, que eu tô na fase inicial que é a diabetes tipo 2, não é a que usa insulina, eu nunca usei” (Davi).
A visão do processo de adoecimento pelo diabetes interfere no posicionamento do sujeito frente ao autocuidado. Uma vez que a pessoa associa e classifica a ação da doença à prescrição de fármacos, existe a propensão ao adiamento dos cuidados, como revela o depoimento acerca da adoção da dieta no período após o recebimento do diagnóstico da intolerância à glicose: “Eu fui diminuindo um bocado. Mas com o passar do tempo, dia-a-dia,
relaxei. Ai pronto, ela (o diabetes) veio” (Joel).
O ganho ou perda de peso também são critérios para classificar a doença, “tem a diabetes que
engorda e a que emagrece”, afirma Marinalva. Contudo, há uma incerteza quanto à relação entre oscilação de peso e o tipo do diabetes. Engordar e emagrecer recebe significações diversas e até opostas, se para alguns sujeitos do estudo, o ganho de peso, ao contrário do emagrecimento, é imagem de um “tipo” de diabetes mais brando, para outros é a própria impressão da cronicidade da doença no corpo, pois a obesidade passa a ser vista como atributo inerente à doença.
Para Joel, existem dois tipos de portadores de diabetes:
“Porque tem o diabético, aquele doente diabético e o doente diabético psicológico,
que tem medo das dificuldades da vida, passa por certos apertos e, como não, os remédios não fazem efeito. Não tem como fazer efeito, porque, tá na cabeça, a cabeça não ajuda”.
O portador de diabetes “temeroso da vida” estaria fadado ao insucesso na intervenção farmacológica. Talvez essa visão aponte para a tentativa de integralidade do corpo, na qual não basta investir no biológico.
Os sintomas do diabetes não se manifestam igualmente para todos os sujeitos. Uma mesma taxa glicêmica pode desencadear reações distintas. Regina percebeu esse comportamento da doença e parece usá-lo para justificar a não adesão declarada à dieta recomendada.
“Mas eu já vi gente em coma com 170 de glicose... cada um é de jeito, então a pessoa às vezes por causa de 130, 140, já tá passando mal, enquanto que um com 500 não sente nada, não sente nada mesmo”.
Joel compara o diabetes ao câncer e à AIDS: “a diabetes é mesmo como se fosse um câncer,
uma AIDS, ela vai comendo aos poucos, devagar, quando você assusta, não tem mais jeito”.
O câncer é metaforizado como “algo que desgasta, corrói, corrompe ou consome vagarosa e secretamente” (SONTAG, 1984, p.15). Adam e Herzlich (2001) afirmam que a pessoa soropositivo está marcada por uma grande incerteza quanto ao futuro. Assim, o diabetes é comparado com duas doenças estigmatizadas na atualidade, o câncer e a AIDS.