Perrenoud (1999a) traduz bem o delicado posicionamento dos docentes brasileiros, inseridos em um contexto de difícil atuação, com inúmeros problemas e muitas das vezes com uma formação falha. Por um lado há dificuldades tais como o desrespeito dos alunos pela figura do professor, a falta de infra-estrutura nas escolas, a alta carga de trabalho e os baixos salários e por outro, há uma série de exigências, como por exemplo, a de cumprir com a totalidade de conteúdos previstos para o ano letivo ou a de não ter alunos com notas baixa. Sem ter recursos para lidar com situações como estas, é esperado do professor uma atitude reflexiva, que lhe permita encontrar novas saídas.
Por que seria necessário inscrever a atitude reflexiva na identidade profissional dos professores? Responderei inicialmente: para liberar os profissionais do trabalho prescrito, para convidá-los a construir suas próprias iniciativas, em função dos alunos, do campo, do meio ambiente, das parcerias e cooperações possíveis, dos recursos e das limitações próprias do estabelecimento, dos obstáculos encontrados ou previsíveis (PERRENOUD, 1999a, p. 11).
Entretanto, Perrenoud (1999a) argumenta que aprender a ser reflexivo sem ter nenhum tipo de apoio é algo que pode causar sofrimento ao docente. Só lhe resta aprender por tentativa e erro e por insistência. Há também outro caminho, o da prática defensiva, em que o docente rejeita os problemas, não faz nada para mudá-los e procura não se envolver. Aqui, o importante é que o tempo passe e que ninguém note, que há um professor ali, sem perspectivas e que há alunos sem aprender.
Perrenoud (2002) descreve a gênese do conceito de profissional reflexivo como uma ideia presente em diversos pensadores, que consideram o professor como um inventor, um aventureiro, um pesquisador. Já, a expressão “pensamento reflexivo” tem suas origens em Dewey (GOMES & CASAGRANDE, 2002; PERRENOUD, 2002; CARABETTA JUNIOR, 2010). Sua importância é reforçada por Gomes & Casagrande.
A origem da “cultura reflexiva” no ensino tem, como marco, a Teoria da
Indagação, de John Dewey (1859-1952), que foi um filósofo, psicólogo e educador norte-americano que influenciou, de forma determinante, o pensamento pedagógico contemporâneo. Suas obras foram fundamentais para que o movimento da Escola Nova tomasse impulso e se propagasse por quase todo o mundo, sendo citado, por muitos, como o pai da educação progressista. O enfoque que dava à pedagogia era voltado à experiência prática, sendo, por isso, às vezes, chamada de fazendo e aprendendo (GOMES & CASAGRANDE, 2002, p. 700).
Lawrence Stenhouse é outra referência na luta por um reconhecimento do professor, enquanto um produtor de conhecimentos a partir de sua vivência e não apenas como um simples executor de uma tarefa previamente planejada (GOMES & CASAGRANDE, 2002).
As obras de Donald Schön também são apontadas como um marco do conceito de profissional reflexivo (PERRENOUD, 1999a; CARABETTA JUNIOR, 2010).
Para assumir uma postura reflexiva, Schön destaca a necessidade de que o professor analise diferentes aspectos da prática pedagógica, tais como: a compreensão de sua matéria pelos alunos, os tipos de relações interpessoais que se estabelecem entre ele e os alunos, bem como a dimensão burocrática da prática pedagógica (CARABETTA JUNIOR, 2010, p. 581).
Para tratar da reflexão do profissional Schön inicialmente apresenta o conceito de conhecimento na ação, que também é conhecido como conhecimento tácito ou um conhecimento que surge na ação. A partir da ação e deste componente o profissional tem então a oportunidade de refletir. Para Schön, a reflexão pode ocorrer de três formas: a reflexão sobre a ação, a reflexão na ação e a reflexão sobre a reflexão na ação (GOMES & CASAGRANDE, 2002).
A reflexão sobre a ação é a que acontece após a ação, retrospectivamente, visando compreender como seu o conhecimento na ação e porque este produziu determinados resultados. A reflexão na ação é a que ocorre no momento em que a ação se dá, conduzindo e modificando a ação de forma instantânea. E, finalmente, a reflexão sobre a reflexão na ação, é um repensar sobre uma reflexão que já foi feita, consolidando a compreensão sobre a situação
passada e possibilitando a construção de novas estratégias de ação. É com base nestes pressupostos que Schön centra sua concepção de desenvolvimento de uma prática reflexiva (GOMES & CASAGRANDE, 2002).
Esses três processos descritos - “o conhecimento-na-ação”, “a reflexão-na-
ação” e a “reflexão sobre a reflexão-na-ação” - constituem o “pensamento prático” do profissional, com o qual enfrenta as situações “divergentes” da
prática. Esses processos não são independentes, mas, sim, completam-se entre si para garantir uma intervenção prática racional (GOMES & CASAGRANDE, 2002, p. 702).
Perrenoud (2002) afirma que a prática reflexiva deve ser uma atitude constante e assim diferenciar-se de uma reflexão episódica.
Visando chegar a uma verdadeira prática reflexiva, essa postura deve se tornar quase permanente, inserir-se em uma relação analítica com a ação, a qual se torna relativamente independente dos obstáculos encontrados ou das decepções (PERRENOUD, 2002, p. 13).
Ter professores reflexivos em sala de aula não é uma tarefa fácil, não é algo que se muda do dia para noite. Dessa forma, o autor sugere que se tenha uma "estratégia de guerra”, bem formulada e persistente, para que, a longo prazo, a realidade se altere. Em suas reflexões Perrenoud (1999a) sugere uma lista de competências a serem perseguidas na formação de professores reflexivos, que estão apresentadas a seguir.
1. Organizar e coordenar as situações de aprendizagem. 2. Gerir a progressão das aprendizagens.
3. Conceber e fazer evoluir dispositivos de diferenciação. 4. Envolver os alunos em sua aprendizagem e seu trabalho. 5. Trabalhar em equipe.
6. Participar da gestão da escola. 7. Informar e envolver os pais. 8. Servir-se de novas tecnologias.
9. Enfrentar os deveres e dilemas éticos da profissão. 10. Gerir sua própria formação contínua.
Mais uma vez percebe-se que a questão da formação do professor é algo que precisa de atenção, para que o professor tenha ferramentas para atuar como um verdadeiro transformador social.
Não é somente o professor que deve estar preparado para se ter um ensino de qualidade, mas também as escolas que, enquanto organizações, devem fornecer as condições de trabalho e saúde adequadas para o exercício da profissão. Um ambiente social de apoio, com a participação ativa da direção escolar, de outros professores e da sociedade pode fazer a diferença para o processo educativo.
Meira (1998) apresenta o apoio dos pares, a valorização social e a existência de recursos materiais adequados como algumas das condições para um processo pedagógico de qualidade, além de outros fatores como: formação adequada; salários dignos e espaço de estudo e reflexão. Petroni e Souza (2010) também apresentam, por meio de uma pesquisa, o quanto a emancipação do docente está relacionada às boas condições de trabalho.
Para Bronfenbrenner (2011), os processos que acontecem dentro de um determinado contexto devem ser baseados em trocas intersubjetivas verdadeiras, onde cada ator percebe o outro e deixa ser percebido pelo outro, qualidade esta da relação que é por ele denominada como verdadeiras díades e se apresenta como condição necessária para o desenvolvimento humano. Alarcão (2001) faz uma transposição do modelo Bioecológico de Bronfenbrenner para compreender o desenvolvimento da escola, apresentando um modelo para uma escola reflexiva.
Entendo que é essa a escola que se quer mais autônoma, mas participativa e democrática, que produz uma cultura interna própria, constrói conhecimentos de forma coletiva e preocupa-se com a formação contínua de seus profissionais; é aquele que sugere ter potencial para transformar-se em uma escola reflexiva (2001, p. 68).
Portanto, num ambiente escolar em que há um caminhar coletivo em direção a metas mutuamente acordadas e num trabalho de gestão democrática que permite ao mesmo tempo o intercâmbio de ideias e a tomada de consciência de todos os participantes do processo, são construídos novos conhecimentos e novas formas de ser, respondendo às necessidades que o cotidiano coloca. Uma liderança e pares que dão apoio ao docente contribuem para que estes superem seus desafios e criem uma escola que não é apenas reprodutora, mas também criadora.
Asbahr (2005) traz como questão importante para a construção escolar, os benefícios de se criar um Projeto Político Pedagógico, que permite aos professores articularem suas ações e organizarem o trabalho pedagógico na escola de apoio mútuo. “Ao projetarem, os professores em coletividade aprimoram não só sua compreensão sobre o cenário escolar e a
organização da escola no sentido da qualidade do ensino, mas também se desenvolvem profissionalmente e pessoalmente” (p. 29).