2.3.1 Mescla intracomunidade e intercomunidade
O português que circula nessa comunidade de fala se configura a partir da diversidade linguística trazida das regiões brasileiras de onde partiram nossos imigrantes, sendo recriado através do contato com o inglês. Poderíamos imaginar, então, que haveria um apagamento das marcas de regionalismo do português do Brasil; tal não ocorre, porque predomina uma tendência ao ―dialeto mineiro‖, já que foram eles os primeiros a chegar aos Estados Unidos. Nesse sentido, os falares dos imigrantes recém-chegados, vindos de várias regiões brasileiras, são recriados a partir da convivência com os mineiros, já considerados ―donos do pedaço‖. (MOTA, 2007, p. 31)
A comunidade dos imigrantes brasileiros em Framingham vive uma situação de (bi)multilinguismo, devido à presença de outras comunidades imigrantes, além da americana local. Nesse contexto, o bilinguismo é um ponto de conflito tanto por aqueles que possuem uma maior proficiência na língua inglesa quanto pelos que, no continuum, estão mais próximo da língua portuguesa. Pelas observações e pelos dados que reunimos antes e no decorrer da pesquisa, pudemos fazer algumas inferências sobre a variação e a mudança linguística no local. Tais fatores pareciam incomodar e causar estranhamento, o que nos motivou a buscar apreender a tensão entre ―nós‖ e os ―outros‖, descrita por Gumperz (1982).
Observamos a produção de pelo menos dois tipos de mistura – mescla intracomunidade e intercomunidade (TARALLO e ALKMIM, 1987, p. 11) –, em que a primeira revela a presença das variantes regionais das várias regiões do Brasil. A predominância das variantes do Estado de Minas, especialmente da Cidade de Governador Valadares e redondezas, causa a impressão, para alguns falantes, de que ela é única. Entretanto, nos
últimos anos, a imigração mineira tem diminuído dando lugar à imigração de outras partes do Brasil. Vale ressaltar que a mistura linguística das variedades português com inglês é, às vezes, confundida com o falar dos mineiros ou indivíduos da zona rural – a ―roça‖ –, como se mescla intercomunidade e intercomunidade fossem a mesma coisa. No primeiro excerto de entrevista que mostraremos a seguir, apesar de ilustrarmos nossa pergunta com as palavras serapear e breiquear, a informante demonstra não fazer distinção entre os dois tipos de mescla.
E; E para você... Você me falou de algumas palavras. Falou do serapear, do
breiquear... As palavras mais comuns, assim?
C: Serapear, brequear... Surrar... Outro dia eu escutei surrar... E: Surrar? Surrar de bater?
C: Não, surrar era esfregar a pia. Aì, a pessoa assim: ―Já surrei a pia‖. Eu digo: O quê?
Surrei a pia? É ariar.
E: Então, mas vem de que palavra? Que expressão?
C: É o que eu estou falando, são gírias deles, da terra deles, entende? Então, cada um vem com um... Meu marido falava muito isso. ―Pode deixar aì que eu já surrei a pia‖.
Surrar a pia... Vai bater na pia... Mas, ela tinha ariado a pia. E: E você sabe de onde que ela é?
C: Ela é lá daquelas bandas aí, deve ser de Valadares. Não é de Tarumirim não. Acho que ele é de Valadares ou de Ipatinga. Ela é de Valadares sim, porque ela é da mesma cidade da Carla. (Cristina)
No próximo excerto, não fizemos uso de exemplos, mas dizemos claramente se tratar de uma ―mistura de línguas‖ – as variantes do português brasileiro com o inglês. Porém, a resposta que obtivemos fez referência apenas à variável ―roça‖:
Eu acho que é essa questão de diferença de estado. Eu acho que quem é do mesmo estado não percebe muito essa diferença porque já tem o costume de ouvir desde o Brasil de ouvir aquilo... Eu já percebo tipo... Que tem aquelas pessoas que a maioria fala errado. (Rose)
Tentamos confirmar se a entrevistada tinha clareza sobre o que lhe foi perguntado. Ao responder: ―Também, mas...‖, restou-nos a dúvida sobre até que ponto a informante fazia uma distinção clara entre a mescla intercomunidade: ―o português errado‖ e a intercomunidade, que engloba o primeiro tipo de mescla:
E: Você fala das que misturam o inglês com o português?
R: Também, mas do português errado mesmo. Não sei se é por ser do... Interior... Porque a maioria do pessoal que tá aqui é beem da roça, mesmo.
E: Ahã.
R: Então eu acho que isso influencia muito... Porque nenhum estudado tá aqui trabalhando pra ganhar dólar, né? Sei lá! Né? (Rose)
A comunidade brasileira de Framingham é constituída por imigrantes de diferentes regiões do Brasil, o que resulta no contato de culturas e de variedades linguísticas. A convivência entre essas variedades não é sempre pacífica (ALKMIM, 1987, p. 11). Por outro lado, ela nem sempre será conflituosa. Não se pode afirmar que sempre haverá preconceito ou estigmatização apenas por estarmos diante de indivíduos que usam a língua de forma diferente da que estamos habituados. De acordo com Bortoni-Ricardo (2001, p. 28), ―quando interagimos com brasileiros nascidos e criados na região rural ou
rurbana do contínuo de urbanização, observamos muitos usos linguísticos que são diferentes dos nossos‖. Para os mineiros, por exemplo, é comum não pronunciar o final de uma palavra emendando-a com a que vem a seguir como se fosse uma só. Mais uma vez nas palavras de Bortoni-Ricardo (2001, p. 2):
Não dizem: "onde eu estou? Dizem: ôndôtô Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.
A interação entre brasileiros residentes em Framingham, predominantemente os mineiros advindos da região rurbana (microrregião de Valadares) entre eles e com imigrantes de outras áreas do país, será ilustrada com alguns exemplos a seguir. Não há necessariamente conflitos nas situações apresentadas. Há sim inicialmente, um estranhamento, mas os informantes não fazem, nesses casos, juízos de valor.
C: Eu assistia aos programas e... Eu gosto de novela. Não é, mãe? Eu assisto a esses programas... (Como diz o mineiro, ―tuquantuá‖). É outro vocabulário que a gente vai aprendendo também aqui. Sei lá da onde. Em Minas eles falam cada coisa!
E: Mas, tem hora que você não consegue entender?
C: Não consigo não (...). Porque, igual, no dia que falaram para mim esse negócio de tuquantuá. Aì eu: ―Tuquantuá?‖. É tudo quanto há! Eles falam tudo junto. Eles misturam...
E: Ah, aí você pensou que fosse uma coisa só?
C: é. Eu tô assim: ―O que é tuquantuá‖? (resposta) Tuquantuá.
Um fato curioso é que logo em seguida, a entrevistada fez o uso da mistura ao falar com a filha. Por não sermos ainda tão fluentes na ―lìngua‖, estranhamos aquele diálogo que parecia não fazer sentido: ―Pega a Penha‖. ―A Penha aì!‖ Pensamos: ―Penha, quê?‖. Vejamos o que ocorreu:
R: Ah, pega a pen aí. C: Cê viu? Pega a pen aí!
E: Ah, pega a pen aí! Eu estou assim, gente: pega a penha... Pega a penha... Eu entendi que ela tinha falado outra coisa. (Cristina e Renata)
Foi naquele momento como uma inversão de papéis: uma falante do mineirês:
toquascabano (tô quase acabando), gendocéu (gente do céu!), tiáana (tia Ana) etc., caindo nas armadilhas do portinglês brazuca.
2.3.2 Onde vivem os brasileiros
A comunidade brasileira vive, em sua maioria, no centro de Framingham, local onde a grande parte dos negócios também se situa. Na área residencial, há dois complexos de
apartamentos onde a concentração de brasileiros é grande, além de residências em forma de casas, conforme mostra a Figura 3. De acordo com alguns entrevistados, morar no centro é mais conveniente para os imigrantes que não têm carro, e nem carteira de motorista. Há imigrantes que utilizam o trem como meio de transporte para chegarem ao trabalho. Portanto, a localização da estação no centro, possibilita a mobilidade desse imigrante, para Boston, principalmente.
Figura 3: Mapa da região central de Framingham
2.4 Políticas linguísticas para o imigrante de Framingham