2.2 Constrained edit distance
2.2.3 Constrained edit distance for application in cryptanalysis
Em Teoria do Agir Comunicativo (1981), Habermas sustenta ser possível um entendimento discursivo entre sujeitos capazes de agir comunicativamente em busca de um consenso. Para chegar a essa forma de ação, Habermas desenvolve os seguintes conceitos: agir teleológico, agir normativo, agir dramatúrgico e o agir comunicativo. O primeiro visa à realização de um objetivo, o alcance de uma meta. O segundo refere-se à obediência às normas seguidas por membros de um determinado grupo. Já o agir dramatúrgico é a representação diante de um público, enquanto o agir comunicativo refere-se ao entendimento entre sujeitos capazes de falar e agir (REESE-SCHÄFER, 2008, p. 46).
O agir comunicativo pressupõe, no entanto, que sejam atendidas quatro pretensões de validade: inteligibilidade, verdade, correção (em relação às normas) e veracidade, das quais a inteligibilidade é condição essencial para as demais. O discurso tem de atender a essas condições para que se produza o agir comunicativo baseado no entendimento recíproco. Na esteira de Habermas, Bohman (1996), citado por Maia (2008), também sustenta a tese de que a inteligibilidade, a faculdade de se fazer entender, é razão necessária para que haja comunicação. “Para que as razões sejam públicas, elas devem ser comunicadas de tal modo que qualquer outro cidadão seja capaz de entendê-las, aceitá-las e responder livremente em seus próprios termos” (BOHMAN, apud MAIA, 2008, p.9).
Para teorizar sobre as diversas formas de agir do homem, Habermas concebe a sociedade moderna como uma divisão entre o mundo da vida, composto pelas relações sociais cotidianas que utilizamos uns com os outros, e os sistemas sociais, dos quais os mais importantes são a economia e a política (DURÃO, 2006).
Em artigo publicado na revista Ethic@, em 2006, Durão explica que, segundo o pensamento habermasiano, cada sistema, além de possuir um conjunto de instituições específicas, é regido por uma racionalidade própria, de modo que o agente modifica a lógica que governa as suas ações à medida que transita de um sistema para o outro. Existem duas formas básicas de racionalidade na sociedade complexa: a racionalidade comunicativa é
empregada pelos agentes no mundo da vida e se caracteriza pela busca cooperativa do entendimento recíproco, enquanto a racionalidade estratégica, usada nos sistemas sociais, consiste na orientação da ação para o êxito a partir de uma avaliação das condições dadas. Contudo, o êxito da ação segundo a racionalidade estratégica depende do sistema social envolvido, assim, o êxito no sistema econômico é medido pelo meio dinheiro, enquanto na política é avaliado pelo meio poder. A estratégia na economia deve ser maximizar o benefício em função do custo na obtenção do lucro, enquanto na política é a conquista da confiança dos eleitores traduzida em votos.
Um dos problemas apontados por Habermas é que há a colonização do mundo da vida pelo mundo sistêmico. O agir estratégico ocupa o lugar do agir comunicativo nas relações interpessoais.
Nesse ponto, o pensamento de Habermas aproxima-se do de Bourdieu (1930-2002), porém, onde o francês vê apenas a dominação de um campo sobre outro, sem perspectivas de emancipação, Habermas, apesar do pessimismo, enxerga ações capazes de produzir consensos.
Para Cohen e Arato (1994), a distinção analítica feita por Habermas entre a lógica sistêmica e a lógica do mundo da vida permite-lhes situar a sociedade civil no interior de um marco analítico capaz de facilitar uma análise abrangente das várias dinâmicas das sociedades ocidentais contemporâneas.
Como aponta Durão, a racionalidade comunicativa também se nutre das relações de solidariedade presentes na comunicação cotidiana entre os indivíduos, por isso, permite que os falantes se entendam no mundo da vida por meio de atos da fala que enunciam locutoriamente um conteúdo proposicional e apresentam ilocutoriamente uma pretensão de validade. “Assim, os atos da fala constatativos, que descrevem objetos no mundo externo, pretendem ser verdadeiros, os atos da fala regulativos, que expressam as normas orientadoras da ação dos agentes sociais, pretendem ser retos, enquanto os atos da fala representativos, que manifestam as intenções dos sujeitos, pretendem ser sinceros” (DURÃO, 2006, p. 105).
A pretensão de validade dos atos da fala pode ser problematizada de várias formas. No caso dos atos da fala regulativos − que são as formas de comunicação correspondentes ao âmbito da filosofia prática −, pode-se questionar, em um primeiro nível, se o agente violou a
solução se dá a partir dos mecanismos de solução de conflito presentes na própria ação comunicativa. Contudo, em um segundo nível, os agentes podem questionar a validade da própria norma de ação, o que demanda a suspensão da ação comunicativa, que é uma amálgama de ação e linguagem, e a passagem para os discursos práticos, em que somente são permitidos argumentos que possibilitem chegar a um consenso racional entre os falantes sobre a validade da norma.
Em Consciência moral e agir comunicativo (1983), Habermas aponta a ética do discurso como o caminho para se alcançar o agir comunicativo. Nesse livro, segundo Reese- Schäfer (2008, p. 64), ele busca dar à ética um fundamento racional por meio da ideia de que a reflexão sobre os pressupostos da comunicação interpessoal permite identificar os princípios morais realmente irrenunciáveis que devem ser a base de toda convivência humana: o reconhecimento do outro, a não coação da comunicação, a disposição para a solução de problemas e a fundamentação de normas pelo discurso livre e igual.
Segundo Habermas, mesmo quem age estrategicamente, com o objetivo de enganar, precisa agir na situação de discurso como se reconhecesse o parceiro de discussão. “As regras do discurso são válidas também quando são faticamente infringidas”, explica Reese-Schäfer. No entanto, mesmo sendo usado estrategicamente, o discurso, para ser ético, pressupõe que todos os participantes entendam e concordem com as normas praticadas. “De acordo com a ética do discurso, uma norma só pode pretender validez quando todos os que possam ser concernidos por ela cheguem (ou possam chegar), enquanto participantes de um discurso prático, a um acordo quanto à validez dessa norma.” (HABERMAS, apud Reese-Schäfer, 2008, p. 77).
Mais do que ditar o que é moral, do que ter uma visão normativa do que é justo, Habermas acredita que a ética do discurso, a oferta de condições para o agir comunicativo são caminhos para que a emancipação da sociedade em busca do que é justo.
Contra o individualismo metodológico, Habermas mostra que o indivíduo não é dissociável da sociedade, da linguagem, da cultura. As intenções e os interesses individuais são suscetíveis de interpretação, de discussão e de mudança. Essa definição é dada por Sfez (2000:107), para quem Habermas busca uma racionalidade comunicativa, intersubjetiva, fundada numa compreensão mútua, num livre reconhecimento, numa autodeterminação combinada com uma autorrealização. O que, para Sfez, é uma visão utópica.
Para esse autor, o mundo da vida e a teoria dos sistemas são as duas faces de uma mesma coisa: uma face voltada para as “vivências” culturais; a outra, para a atividade de grupos socialmente integrados. O problema é que o mundo da vida parece cada vez mais colonizado pelo sistema, cada vez menos autônomo.
Numa linguagem telegráfica, Sfez faz um resumo da Teoria do Agir Comunicativo. A comunicação está no social, na língua que é social, no implícito, no pressuposto. A comunicação não é maquinal, mas compreensiva. Ela emerge no momento de rupturas. O vivido do mundo é captado, tecnicizado por atores responsáveis. É então transformado e colonizado. Mas ele ainda tem suas chances... Naturalmente, desde que escape às estratégias lineares do
sucesso e se oriente para o acordo. Pois a estratégia do sucesso não pode
assegurar a transmissão de valores (SFEZ, 2000, p. 111).
O francês, no entanto, não acredita ser possível, a partir dos elementos dados, a obtenção de acordos. Essa crítica Habermas responde na obra Direito e democracia – entre facticidade e validade, dividida em dois volumes.