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6. Results and Discussion

6.7. Considerations on model systems

No dia 5 de dezembro, o cortejo do Pregão sai do Campo da Feira pelas 15h00, liderado pelo Primeiro Vogal da Academia a cavalo, vestido com o traje de gala (com laço branco e luvas brancas) e levando a Bandeira da Academia. O coche do Pregão, que vem atrás puxado por dois cavalos, transporta o Pregoeiro, o Presidente, o Vice-presidente e o Ponto, que assistirá o Pregoeiro. Um grupo de estudantes tocando o toque do Pregão encerra o cortejo. O Pregão é declamado sucessivamente em vários locais: Câmara Municipal, Escola Secundária Martins Sarmento, casa da Dona Aninhas, Torre dos Almadas e Largo do Toural.

Designado em virtude das suas capacidades vocais, o Pregoeiro tem uma tarefa árdua pela frente: o texto é bastante longo, deve ser dito de maneira entusiástica e deverá ser percetível pelo público sem o recurso a equipamento de amplificação. A ajuda do Ponto, escondido nas proximidades, será preciosa para suprir as falhas de memória. Francisco Guise conta assim os seus preparativos:

eu tinha de ter noção de que não podia dar-me ao luxo de chegar ali à Câmara e de me engasgar, cheio de tosse ou com dores de garganta, tenho de ter cuidado... deixar de fumar, deixar de beber coisas frias, beber um leite com mel antes de ir para a cama, tentar não apanhar frio e andar com a capa traçada. Portanto, o Pregoeiro tem de ter noção disto, de que não pode ficar mal, e ter noção da responsabilidade, cuidar da saúde para não correr mal. Por exemplo, no dia do Pinheiro começou a chover e o meu pai foi buscar o impermeável para meter por baixo da camisa para não me constipar, porque entre o Pinheiro e o Pregão ainda são seis dias e alguma coisa pode correr mal. Também nas Posses fiquei todo suado e até acabei por deitar a camisa fora e tive de a tirar para não me constipar. E mesmo nessa noite ainda fui à Torre dos Almadas para ensaiar outra vez. […] A partir de uma certa altura, já nem tenho de me preocupar com o texto porque se uma pessoa treinar muitas vezes aprende facilmente e às vezes até é o Ponto que tem de se preparar mais para não falhar. Ele está atrás, vai dizendo as coisas e ele é que tem de treinar bem para dizer tudo com calma, e o Pregoeiro só tem é de estudar e estar com a cabeça fresca porque o Ponto é que tem de estar a recitar por trás e o Pregoeiro entoa da maneira que acha melhor. Nisso, um mau Ponto dá geralmente um mau Pregoeiro. O Ponto é que tem de estudar a olhar para o papel e o Pregoeiro tem de ouvir... o Ponto também deve olhar para o papel e ir fazendo anotações: por exemplo, alguns versos tem de dizê-lo junto em vez de parar porque eu ali estou a contar uma história, até posso nem rimar, mas o objetivo é

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que as pessoas entendam aquilo direitinho. E mesmo os autores do pregão ajudam nisso, eles é que o fazem e é que sabem como deve ser dito... este ano já fui acompanhado por velhos e antigos pregoeiros que faziam as anotações necessárias em alguns versos, para se saber como dizê-los... Basicamente, é como se o Ponto tivesse um mapa e me dissesse por onde é que eu tenho de ir, é o nosso GPS.

A primeira declamação tem lugar numa varanda da Câmara Municipal, na presença do presidente da Câmara, a quem é entregue um exemplar do texto e que se mostra paciente ao longo da meia hora de duração aproximada da récita. Os outros membros da Comissão, dispersos entre a multidão agrupada no largo, têm a responsabilidade de assegurar que seja respeitado o maior silêncio possível. O número de assistentes vai variando ao longo da tarde, nunca chegando a ultrapassar mais de trezentas pessoas nos últimos anos, entre estudantes e moradores do centro, e vão escasseando aos poucos até à última declamação, no Toural, que termina já de noite, acompanhada sobretudo pelos nicolinos mais entusiastas. Segundo a opinião geral, depois de vários anos de decadência, o Pregão tem conseguido ultimamente voltar a atrair mais espectadores. Panfletos com o texto são distribuídos aos presentes, existindo também uma edição de melhor qualidade, os Pregões Dourados.

Diversos temas fixos estão presentes nos pregões: exaltação de Guimarães e de Portugal; elogio a São Nicolau; referências à mitologia clássica; considerações futebolísticas acerca dos resultados do Vitória Sport Club; culto do amor; apreciação do estado das Festas Nicolinas e da qualidade da sua realização; opiniões sobre as suas possíveis evoluções; apelo à energia dos tocadores de caixas e bombos… As notas mais satíricas dizem habitualmente respeito a referências à política local e nacional e podem fornecer interessantes perspetivas e pormenores, como se verifica em particular nos textos mais antigos. De todos os pregões coligidos até à data (editados em dois volumes pela AAELG / VN, contendo os textos até 1997 e os vinte anos seguintes), o mais antigo é de 1817, sendo provável que tenha havido outros antes. O historiador António Amaro das Neves, no seu blogue Memória de Araduca, tem explorado este manancial de informações vimaranenses de uma maneira muito atenta, articulando assim interesses nicolinos de outros tempos com a vida quotidiana da cidade. O eventual interesse dos pregões atuais para as gerações vindouras poderá ser diferente: as mascarilhas (respetivamente branca e verde) nas testas do Pregoeiro e do Primeiro Vogal da Academia têm hoje uma função meramente simbólica, evocativa de tempos em que a expressão pública de divergências podia ter consequências drásticas. Na época atual de fake news, redes sociais desenfreadas e comentários desbocados a artigos de jornais, a sátira do Pregão, escrita com cuidado num estilo desusado, parece hoje muito inócua. Como aconteceu em 2011, será preciso um ataque pessoal, qualificado num comunicado oficial de «mentira torpe e populista que põe em causa o [seu] bom nome e a [sua] dignidade» para suscitar a manifestação pública da ira do presidente da Câmara, e voltar a atribuir a um número das Festas Nicolinas um travo de irreverência real, menos esperada e previsível.

O Pregão pode ter sido escolhido por votação entre várias propostas e a sua qualidade pode variar ao longo das edições sucessivas das Festas (sendo muitos deles escritos por figuras intelectuais da cidade).

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De ano para ano, existe uma certa competição entre os candidatos, que expressam por vezes opiniões muito críticas acerca das competências retóricas e da qualidade estilística dos seus concorrentes. Mas os vimaranenses que consideram que este número festivo tem vindo a perder a sua alma apontam sobretudo para o que entendem ser uma deficiente preparação oratória dos estudantes.

No dia do Pregão, a Comissão almoça em casa do autor do texto selecionado e janta com a família do Pregoeiro, o qual procede a mais uma declamação em privado. Esta prática inabitual é mais uma indicação da importância atribuída a este número programático, encarado pelos nicolinos como uma ponte perfeita entre os conhecimentos escolares e a alegre irreverência estudantil. Este último atributo manifesta-se ainda de outra forma no Pregão: as garrafas transportadas na carroça vão sendo esvaziadas pelas gargantas da Comissão, um esforço referido por um Presidente como uma manifestação de «solidariedade com o Pregoeiro», cuja laringe passa por uma dura prova. Realmente empenhado, este apoio é prestado ao longo de toda a tarde, sem grandes preocupações de discrição, e suscita nos adultos presentes comentários que vão desde uma jovial indulgência cúmplice («isto não é nada, o ano passado, no Toural, o rapaz já não se aguentava em cima do cavalo») a uma censura inquieta («está a ser de mais», «há mesmo um problema», «Tem de se fazer algo»). Como acontece com a questão das «praxes», trata-se de outra indicação problemática suscitada hoje pela presença do álcool em festas juvenis. Sabe-se que, para adolescentes e jovens adultos, o álcool constitui um forte vetor de sociabilidade. No entanto, num tempo em que as modalidades e a aceitação social (ou mesmo a legalidade) deste consumo, em particular em público, se afastam daquilo que foram durante décadas ou séculos, nomeadamente nas festas populares, o que podia ser visto como uma «tradição» ganha dimensões cada vez mais controversas.

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A Entrega das Maçãs (Maçãzinhas)