4. Literature review
4.6 Conservation Legislation
O desenvolvimento urbano da segunda à quarta década do século XX foi marcado pelo ritmo intenso de intervenções que definiram as administrações de Otávio Rocha (1924 -1928), Alberto Bins (1928 – 1937) e José Loureiro da Silva (1937 – 1943) e inauguraram o período das remodelações urbanas de Porto Alegre baseadas no Plano de Melhoramentos de Moreira Maciel.
Com o desenvolvimento do processo de industrialização vivido pelo país, as cidades brasileiras viram-se em meio à necessidade de adequar sua estrutura à complexidade crescente das dinâmicas citadinas. Nesse contexto, o arquiteto e urbanista francês Alfred Agache foi convidado a colaborar com as propostas urbanas para a cidade, através de sua visão de urbanismo científico e artístico representado pelas vias de tráfego e pelos pontos focais monumentais. Entretanto, segundo Bohrer, suas propostas não foram bem recebidas, na medida em que se tratava de uma avaliação estrangeira aos interesses locais. Assim, em 1936, o estudo foi delegado ao engenheiro Ubatuba de Faria e ao arquiteto Edvaldo Pereira Paiva.175
Paralelamente, a situação na Praia de Belas seguiu apresentando complicações sanitárias, falta de estrutura e de conexão com centro da cidade em função do riacho e do promontório∗. Faria e Paiva propuseram então o estabelecimento de uma região comercial no Bairro Praia de Belas, bem como mantiveram a entrada da cidade na Ponta da Cadeia proposta por Maciel, ambas ligadas à região central por um sistema de vias radiais.
175 BOHRER, Maria Dalila. Análise morfológica das destinações do aterro da Praia de Belas nas
propostas e planos urbanísticos de Porto Alegre. op. cit. p. 15.
∗ A partir de 1924, com o início das obras de abertura da Avenida Borges de Medeiros, tornou-se
cada vez mais possível estabelecer uma ligação entre o centro e essa parte da cidade, assim como quando solucionou-se o outro empecilho à essa conexão: a canalização do riacho, conhecido por Arroio Dilúvio, iniciada em meados dos anos 1940.
Figura 16 – Vista da entrada da cidade.
Fonte: Boletim da Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul, Julho de 1937, n. 21, p. 143.
A nova entrada da cidade teve a intenção de separar-se da entrada pelo porto, nas margens norte e central. Assim, a proposta sugeriu um ponto de recepção com maior minúcia estética e paisagística, situando a diferenciação de usos estabelecida entre a orla central/norte e a orla sul.
“A estrutura urbana multipolarizada plasma-se através da criação de um centro aero-ferroviário na zona norte e de um bairro residencial na zona sul, com a urbanização de extensa área a ser aterrada na enseada da Praia de Belas.”176 Ainda
seguindo a linha de Maciel, defenderam uma avenida percorrendo a orla:
Contornando o bairro numa extensão de 4 quilômetros e meio, traçamos uma grande avenida arborizada, uma verdadeira faixa verde. Essa avenida se desenvolverá desde a “Entrada da Cidade”, na ponta da Cadeia, até 400 metros adiante do Asilo Padre Cacique, onde coincidirá com a chapa de rodagem da Tristeza.177
176 Ibid. p. 19.
177 BOLETIM DA SOCIEDADE DE ENGENHARIA DO RIO GRANDE DO SUL. n. 21, Jul. 1937.
O estudo ainda previu um grande parque às margens do Guaíba, no qual convergiram grandes avenidas e se estabeleceria uma futura praia contornada por avenida e, nos quarteirões fronteiros, “pequeno comércio, comércio de luxo e habitações.”178 Além desse parque, outros dois foram previstos e mais 26 praças. Nas palavras de Edvaldo Pereira Paiva:
No centro do novo bairro, na face fronteira ao rio, aproveitamos a confluência de varias ruas e avenidas para aí traçarmos um grande parque de forma semi-circular [...] A ele estará reservado um grande papel na vida do bairro. [...] No ponto de deflexão da avenida Borges de Medeiros, projetamos um parque em redor da atual ponte de pedra [...] Esse parque deverá ser um recanto da natureza trazido para o centro da cidade. [...] Pouco antes do Asilo padre Cacique traçamos outro parque de grande proporções, que ficará colocado defronte da rua onde desce a chapa de concreto para a Tristeza. [...].179
A imagem seguinte ilustra a urbanização proposta para a região, na qual as áreas verdes eram parte vital. Nesse sentido, como se pode observar, as edificações convergem para um centro comum, o qual se estabeleceu como ponto focal do plano. Tal foco situa áreas de ajardinamento e faixa verde, acompanhadas de uma faixa de trânsito, conduzindo o olhar para a posição de destaque que o tratamento paisagístico recebeu na composição do projeto.
Edvaldo Pereira Paiva, sobre o projeto de remodelação da zona da Praia de Belas, projeto esse feito com a colaboração do engenheiro Ubatuba de Farias. p. 148.
178 BOHRER, Maria Dalila. Análise morfológica das destinações do aterro da Praia de Belas nas
propostas e planos urbanísticos de Porto Alegre, op. cit., p. 24.
Figura 17 – Urbanização da Praia de Belas.
Fonte: Boletim da Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul, Julho de 1937, n. 21, p.140.
A partir dessas diretrizes, Ubatuba e Paiva buscaram criar uma nova centralidade para a cidade e avançaram em relação ao plano de Maciel ao irem além da construção de uma avenida beira-rio, propondo um novo bairro:
Criaríamos um bairro modelo, regulamentado, com esplendidas condições higiênicas: pelo seu saneamento perfeito, pelas grandes áreas destinadas a vegetação, pelas proximidades do rio e pela disposição racional das ruas [...].Além disso criaríamos uma praia artificial onde se localizariam balneários, pois com a canalização do riacho e o consequente saneamento da praia, esta ficaria em ótimas condições de higiene e portanto juntaríamos as vantagens de um bairro longínquo, como o nosso Ipanema, com a proximidade do centro cívico e comercial da cidade.180
Localizada às margens do Guaíba, a região cumpriria a função de estabelecer uma mediação entre o centro da cidade e os balneários da zona sul. Ou ainda, entre o local condicionado pela urbanidade e o local marcado pela presença da natureza.