• No results found

Connecting physical characteristics of Greenland fjord/shelf environments to differentially expressed biological pathways

Os três primeiros séculos de vida urbana da cidade do Natal podem, grosso modo, se resumirem numa singela anedota contada desde meados do século XVIII:

Natal? Não há tal98. De cidade, a capital só teria então o nome, como apregoou

Câmara Cascudo (1929 apud ARRAIS, 2005). Um dos primeiros relatos do século XIX sobre Natal reforçava a idéia de que esta possuía poucos elementos ditos urbanos que a pudessem caracterizar como uma cidade. O viajante inglês, Henry Koster (1816, 2002, p.158), ao visitar Natal em 1810, afi ava ue u est a gei o ue po a aso, venha a desembarcar nesse ponto, chegando nessa costa do Brasil, teria uma opinião desagradável do estado da população nesse País, porque, se lugares como esse são ha ados idades, o o se ia as vilas e aldeias? . O aspe to de aldeia se efo çava, ainda, no fato de não haver nenhum calçamento nas ruas, tomadas por areia solta. Na parte baixa, ou a Ribeira, o rio dominava a paisagem, em contraste ao aspecto vilanesco do lo al: situada nas margens do rio e as casas ocupam as ribas meridionais e o h , e t e elas e o io, se o a la gu a da ua KOSTER, 1816, 2002, p.158).

A fisionomia urbana da cidade pouco mudara, setenta anos depois. Sua população não passava dos 12 mil habitantes – inexpressiva, se comparada à

98

As fontes mais antigas conhecidas sugerem que o primeiro a realizar tal gracejo foi o bispo de Olinda, Dom João da Purificação, durante a visita ad limina à província em 1746. Entretanto, Câmara Cascudo (1968) aponta outro eclesiástico como o responsável pela citação. Segundo o historiador, o Frei Luís de Sa ta Te eza, ta e , havia p o u iado as segui tes palav as: A civitate Natali, seu NON

TALI, ut attenta ejus teneutate per jocum dictur Cidade do Natal, ou NÃO TAL, como em vista da sua

pequenez). Cf. MARINHO, Francisco Fernandes. O Rio Grande do Norte sob o olhar dos bispos de Olinda. Natal: Nordeste, 2006; CASCUDO, Luís da Câmara. Nomes da terra: história, geografia e toponímia do Rio Grande do Norte. Natal: Fundação José Augusto, 1968.

população total da província, que contava com 233.960 habitantes e significava que a capital contava com apenas 5,13% da população total do Rio Grande. Como conseqüência, o número de habitações era igualmente reduzido, havendo apenas esparsas moradias dentro do seu perímetro99. Na análise da obra de Lindolpho Câmara, Veríssimo de Melo aponta uma forte presença dos elementos naturais que envolvia a cidade, que repercutia fortemente na população, carente de equipamentos u a os: os ue a ui as e , (...), em face da precariedade do meio, só tinham condições de ser pescadores, roceiros e soldados da polícia. O comércio era pobre. N o havia gua e a ada, e esgoto, e luz MELO, 1972, 2006, p.11). 100

As áreas naturais, dentro da cidade, mantinham uma presença constante, tornando-se sinônimo toponímico e referencial. Um exemplo se mostra na localização dos mercados públicos, em 1872, que por não possuírem edificações próprias, desenvolviam suas atividades de maneira improvisada embaixo de grandes árvores: os dois e ados e iste tes e a p e ios: o da Ri ei a fu io ava de ai o de u a velha tatajubeira. O da Cidade Alta so frondosas gameleiras MELO, 1972, 2006, p.14, grifos nossos). Além disso, outra relação entre o meio natural e a cidade, apontada por este autor, residia na idéia de uma cidade profundamente marcada pelo manto verde de uma vegetação que se impunha sobre ela, na medida em que Melo vai inventariando a grande quantidade de árvores frutíferas espalhadas nas regiões i u vizi has e ale ta do ue, pa a olhe essas f utas, havia de e f e ta i i igos

99

Não existem informações, até então, que forneçam dados sobre o número exato de residências. O relatório do Governador Joaquim Ferreira Chaves (1896) informava à Assembléia Legislativa do Estado que a população natalense contava com aproximadamente 18.299 habitantes, dispersos em pouco mais de 1.332 km² de área urbana, em 1896. Ao se comparar com os dados do IBGE de 1920, quando Natal contava com uma população em torno de 30 mil habitantes, o número de residências era de 4.754 unidades. A título de inferência, se a proporção for mantida, no período deveria existir cerca de 1.900 residências. Cf. IBGE. Anuário estatístico do Brasil, 1936. Rio de Janeiro: Tipografia do Depto. de Estatística, 1936 e LIMA, Pedro. Saneamento e modernização em Natal: Jannuário Cicco, 1920. Natal: Sebo vermelho, 2003.

100 Na realidade, os trechos utilizados nesse trabalho originam-se do livro de Veríssimo de Melo,

publicado originalmente em 1972, pela Revista do Instituto de Ciências Humanas, da Universidade do Rio Grande do Norte. Tratava-se de comentários sobre a obra de Lindolpho Câmara, Memórias e

Devaneios, la çado e , o Rio de Ja ei o, o ual t açou u a eve adiog afia da idade e

1872. Infelizmente não foi possível encontrar a obra original. Dessa forma, a falta de um rigor metodológico para a análise da obra original faz com que dificulte saber quem fala, se o próprio Melo ou Lindolpho Câmara, apesar da existência de algumas passagens distintas. Seja como for, é importante enfatizar tal fato, uma vez que se percebe uma manutenção de uma idéia que não se modificou com o passar do tempo. Logo, manteve-se – mesmo cem anos depois – o pensamento que Natal só se tornou cidade a partir do período republicano, idéia que o primeiro autor evidencia e o segundo justifica.

t aiçoei os os atos: as fo igas de fogo, o as as oitas e vespas as galhadas (MELO, 1972, 2006, p.15-17).101

As vésperas do fim do século XIX, Natal encontrava-se num processo de transição singular. Os diversos melhoramentos ditos urbanos que tiveram início nesse momento ainda não permitiam caracterizá-la como uma cidade de fato, uma vez que esta a apital alargou-se, estendeu-se, porém os melhoramentos não alteraram a sua ph sio o ia de aldeia CASTRICIANO, 1902, 1993, p. 223)102. Tratava-se, de uma,

Modesta capital, dividida em dois pequenos bairros de ruas impossíveis, ou sem calçamento ou grosseiramente calçadas de pedra bruta, sem edifícios, sem jardins, com pequeno comércio e nenhuma indústria, [que] parecerá mais uma vila pacata de interior do que uma capital marítima (FEITOSA, 1899, 200-?, p.12).

Como Koster, Polycarpo Feitosa (1899, 200-?., p.9)103 retoma o exemplo do olhar do estrangeiro que porventura vislumbrasse Natal pela primeira vez, ao adentrar no cais Pedro de Barros104 ou pela a apu a da Alf dega . I i ial e te, não encontraria uma vegetaç o lu u ia te, a flo esta espl dida, so ia e i t i ada, cuja verdura incomparável e perpétua tenta seduzi o est a gei o FEITOSA, 1899, 200-?, p.9-10). Se o mesmo não encontrara um manto verde cobrindo a costa, deveria então se deparar com os elementos urbano característicos de uma cidade, mas o autor e e ita sua i o ia ao afi a ue out a oisa ue o est a gei o o v a idade (FEITOSA, 1899, 200-?., p.11). E com uma única frase, Feitosa a vaticinou como uma Met pole I díge a , voltada apenas para o matuto, ao homem do interior, cuja vinda a Natal se motivava pela busca por mantimentos, vestuário e notícias da política.

101 Cabe observar que Melo (2006) se aproveita para classificar as árvores frutíferas de acordo com a sua

disponibilidade, em 1972: a) ainda abundantes: mangabeiras, cajueiros e pés de cajarana; b) difíceis de encontrar: pés de maçarandubas, gerabirabas, camboins, ingás de corda e oitizeiros; e c) desconhecidas: pés de ubai e guajerus. Isso sugere os danos ambientais causados pelo potiguar que não possuía preocupação preservacionista, discutido mais adiante.

102 Sobre as transformações urbanas que as elites natalenses da Primeira República empreenderam, ver

OLIVEIRA, Giovana Paiva. De cidade a Cidade: o processo de modernização do Natal 1889/1913. Natal: EDUFRN, 2000.

103 Personagem fictício, pseudônimo de Antônio José de Melo e Souza, governador do estado em duas

ocasiões: entre 1907 a 1908 e 1920 a 1924. A o a Vida Pot gua de sua auto ia, es ita e e reeditada pelo Sebo Vermelho que não incluiu a data dessa edição – provavelmente na primeira década do século XXI.

Com uma verve irônica revestida de crítica, eto a o velho t o adilho: N o h tal . (FEITOSA, 1899, 200-?, p.11).

Certamente, tanto Lindolpho Câmara quanto Polycarpo Feitosa ressaltavam u a us a pelo ode o, pelo ivilizado , ue o e o t ava espaldo a paisage urbana da cidade. Ao projetar suas visões de época – no momento em quem escreviam suas crônicas – na pequena capital potiguar, com seus ares coloniais, percebiam-na e representavam-na de forma pejorativa, enfatizando sempre os aspectos negativos de uma localidade que não se considerava uma cidade. Aparentemente, ambos inferem certa indolência dos órgãos administrativos, que compactuavam para tal situação, e do próprio povo potigua ue ... vive o o ue espera que os melhoramentos de qualquer espécie, os benefícios, o progresso lhe aia p o tos e se t a alho seu, do alto do u ou do alto do gove o FEITOSA,

1899, 200-?, p.13).

Contudo, diversos esforços por parte da administração pública foram empreendidos no sentido de dotar a cidade de melhoramentos e aformoseamentos desde meados do século XIX e, às po tas do ovo s ulo, ... ouve-se o apelo por parte dos reformadores para que afrontasse força imperiosa de uma natureza que se a ifesta de dive sas fo as, a a do o p og esso ARRAIS, , p. . Assi , ainda que as ações de intervenção estatal esbarrassem, geralmente, na falta de recursos ou na falta de um corpo técnico105 que levasse adiante as obras almejadas pela sociedade, manifestadas nos jornais do período – e necessárias à cidade –, o principal obstáculo, aquele que mais atravancava e mais externava tais carências era, sem dúvida, o elemento natural.

105

Em 1859, por exemplo, a diretoria de obras públicas do estado contava apenas com um diretor, um amanuense e um expediente. A falta de recursos pecuniários, inclusive, acarretou na demissão do encarregado de obras públicas de Natal, em 1887. Cf. GONÇALVES, Antônio M. N. Relatório... Maranhão: T p. Co e ial de A t io Pe ei a Ra os d Al eida, e CARVALHO, A to io Pe ei a.

A definição sobre a localização de Natal, no século XVI, deveu-se, principalmente, à sua posição geográfica privilegiada – no alto de um morro, com boa visibilidade da costa e da entrada do rio –, fatores considerados determinantes para defesa de uma cidade, no caso de invasões por terra ou por mar106. Porém, havia uma clara desvantagem nessa escolha: o isolamento físico da cidade em relação ao resto da região. A posição topográfica da cidade tinha por limites, ao norte, o rio Potengi (de difícil transposição), e a leste e a sul, paredões de dunas margeando a cidade. Além disso, havia a questão do acesso ao ancoradouro interno, apontado como o principal obstáculo à entrada de navios que, cada vez, aumentavam de calado:

Distando apenas do nosso porto cerca de três kilometros a entrada de nossa barra é feita um kilometro mais ou menos, por um canal tortuoso e de difficil navegação. A sudoeste deste existem grandes dunas que diariamente avançam, e do lado norte uma rocha quasi sempre submersa, que denominam Baixinha. (MELHORAMENTOS..., 1893, p.2).

106 Sobre os critérios adotados pelos portugueses, no período colonial, para a localização das suas

cidades e povoações – o adoç o do odelo de a pole – ver MARX, Murillo. Cidade Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1980; REIS FILHO, Nestor Goulart. Imagens de vilas e cidades do Brasil colonial. São Paulo: EDUSP, 2000. Mesmo não sendo a tônica deste trabalho os motivos da fundação de Natal, o usta le a os dize es de Cas udo , p. : NATAL ja ais fo a Povoaç o ou Vila. Nas eu cidade .

Figura 05 - Cidade do Natal, 1864. O alagado da Campina da Ribeira e a

ladeira dividiam a cidade em dois núcleos citadinos distintos. Igualmente, mostra o muro de proteção, construído a partir de 1860 para conter o avanço das águas em direção à campina da Ribeira.

Dessa forma, o então presidente da província, José Bento da Cunha Figueiredo Júnior (1862, p.27) sentenciou: a situação [geográfica] da capital é a mais poderosa causa do seu at aso . A pouca acessibilidade e a falta de uma comunicação mais eficiente com o interior, tiveram como conseqüência uma ameaça à hegemonia política de Natal107. Afinal, sem as vias de acesso às principais praças comerciais da província, a economia da cidade não conseguia desenvolver-se, encontrando-se estrangulada, e, com freqüência, os comerciantes interioranos preferiam negociar com outras paragens, conforme a mensagem proferida pelo presidente da província, Antônio M. N. Gonçalves, em 1859:

Cercada pelo lado Leste e do Sul por uma cordilheira de morros de arêa de difficil accesso, que se prolongão na extensão de muitas legoas em incultas e estereis chapadas, tendo em frente pelo Oeste o Rio Potengi com 265 braças de largura, e ao Norte o oceano na distancia de duas milhas, comprehende-se facilmente quam penosa deve ser a communicação com as comarcas do Assú, Seridó e Maioridade e com uma grande parte da mesma comarca da Capital, que abrange os Municípios de São Gonçalo, Extremoz e Touros, são os generos alimenticios e todos os productos, que se destinão á exportação, levados para os portos de Aracati na província do Ceará, de Macáo e outros nessa província. Por outro lado segregada pelos môrros de arêa da importantíssima e extensa comarca de São José, são desviados para os mercados da Parahiba e Pernambuco todo o assucar nella produzido, o gado, o algodão e mais generos da comarca do Seridó, que deixão de ser enviados para o Aracati. (GONÇALVES, 1859, p.16).

E o lui: E po este odo ue se e pli a o fa to a o ado, ue a ui se observa, isto é, a pobreza e decadência da capital na razão inversa da riqueza e e g a de i e to dos de ais povoados da p oví ia GONÇALVES, , p. 108

. E

107 A ameaça à hegemonia se deu, principalmente, pelas propostas e debates para a mudança física da

apital pa a luga es ais a essíveis at , ua do ... a uda ça de apital hegou a se u a alternativa plausível para a resolução do problema de escoamento da produção e da fraqueza e isola e to da p aça o e ial de Natal RODRIGUES, , p. . So e te o as iniciativas políticas para a criação de vias de comunicação e de penetração e as diversas intervenções na cidade possibilitaram a manutenção de Natal ao seu status quo de capital da província. Cf. MEDEIROS, SILVA, SIMONINI. Configurando o território das secas no RN: as estradas de ferro, os açudes e a hegemonia econômico-administrativa de Natal (1881 – 1935). In: SEMINÁRIO DE HISTÓRIA DA CIDADE E DO URBANISMO, 10. 2008, Recife. Anais eletrônios.... Recife: CECI, 2008, p. 1-14.

108

Para se entender como a economia da capital sofria com esse isolamento, basta tomar como exemplo a fala do presidente Luiz Barbosa da Silva, em 1867, o qual afirmava que o abastecimento de g e os ali e tí ios de Natal se dava so e te po Ma aí a, e p oveito e lusivo de algu s pou os

este mesmo presidente enfatizava que, somente com a construção de estradas e de uma ponte seria possível eliminar o isolamento de Natal – mesmo ciente das diversas tentativas anteriores de construção de uma ponte sobre o Rio Potengi não terem saído do papel por falta de recursos109. Dessa forma, deu-se continuidade à única obra que dava à cidade uma ligação com o interior da província, o Aterro do Salgado (RODRIGUES, 2003). Esse aterro, localizado na margem esquerda do rio, facilitaria a instalação de um cais de desembarque cujo acesso às vias de circulação permitiria a chegada da produção agrícola do interior a Natal. O transporte se daria então por embarcações que cruzavam o rio entre esse cais e o cais de desembarque localizado próximo à Cidade Alta que, segundo o presidente Pedro de Barros Cavalcante de Al u ue ue, possuía o o desva tage s ... il i o ve ie tes, al do encommodo e demora dos condu to es ALBUQUERQUE, , p. .