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Segundo Rabatel (2008, p. 12), quem escreve, quem narra, assume o papel de

homo narrans. Ele acredita que é preciso que haja interesse pelo homem que conta, ou

ainda, se considerarmos essa atividade do “contar” em sua dimensão linguística e

antropológica, pelo homem que narra. O homo narrans tal como ele existe no e pelo

discurso.

Em outras palavras, é preciso que examinemos o Homem narrante não mais através de uma lógica da narrativa que reduz seu papel a uma voz mais ou menos desencarnada, assegurando funções de “mão de obra narrativa”, mas através de uma lógica da narração que confere a essa voz um corpo, um tom, um estilo, uma inscrição em uma história (em todos os sentidos do termo), gostos e desgostos, preconceitos que só existem através da maneira de criar mundos e personagens, e que é profundamente modificada e interrogada por esse processo criador, tendo em vista sua dimensão radicalmente dialógica.17

Para Rabatel (2008, p. 18), homo narrans indica o descentramento teórico em

curso do relato em direção à narração. Rabatel diz que o “Homem narrante” é, antes de

tudo, um sujeito que conta histórias a um tipo de auditório e acrescenta:

[...] Homo narrans é certamente um criador, mas que é amplamente filho de suas obras, assim como ele está no cruzamento das relações pelas quais um homem se torna o que ele é, durante o processo socializado ininterrupto de construção de sua identidade. Todo indivíduo, em sua singularidade da construção social, só existe para outros e graças à coletividade a qual ele pertence, pelos pertencimentos múltiplos que o ajudam a construir sua personalidade, seus valores, a ajustar seus comportamentos práticos e suas representações.18

17 Autrement dit, il nous faut examiner l’Homme narrant non plus à travers une logique du récit qui réduit

son rôle à une voix plus ou moins désincarnée assurant des fonctions de « régie narrative », mais à travers une logique de la narration qui confère à cette voix un corps, un ton, un style, une inscription dans une histoire (à tous les sens du terme), des goûts et des dégoûts, des partis-pris qui n’existent qu’à travers la manière de créer des mondes et des personnages, et qui est profondément modifiée et interrogée par ce processus créateur, étant donné sa dimension radicalement dialogique.

18 [...] Homo narrans est certes un créateur, mais qu’il est largement fils de ses oeuvres, tout comme il est

au croisement des interrelations par lesquelles un homme devient ce qu’il est, au cours du processus socialisé ininterrompu de construction de son identité. Tout individu, dans la singularité de sa construction sociale, n’existe que par autrui et grâce à la collectivité à laquelle il appartient, par les appartenances multiples qui l’aident à construire sa personalité, ses valeurs, à ajuster ses comportements pratiques et ses répresentations.

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Nesse sentido, é válido observarmos que, de acordo com Rabatel, o homo

narrans é um sujeito que conta histórias a um auditório, que é filho de suas obras e só

existe para outrem e graças à coletividade a qual ele pertence, o que o ajuda a construir

sua personalidade e seus valores.

Rabatel (2008, p. 25) nos fala sobre o trabalho de alguns escritores a respeito da

enunciação narrativa:

A enunciação narrativa em ato, que Labov 1972/1978 mostra a partir das narrativas orais, é evidentemente muito marcada nas interações orais, à medida dos comentários dos destinatários das narrativas, que, pela natureza de suas avaliações, influenciam sobre as escolhas do emissor – escolha do tema, de seu desenvolvimento ou da passagem a um outro tema suscetível de melhor suscitar a aprovação do auditório, escolha do registro, etc. Mas a dimensão interacional também existe, é sob uma forma mediatizada, nas narrativas escritas, literárias ou não.

Na crítica rigorosa dos trabalhos estruturalistas sobre a narrativa, Bres (1994) destaca que a narrativa não se reduz a um conjunto monológico de estruturas descontextualizadas e de fechamentos internos remetendo a sentido imanente, a uma estrutura profunda (recusando toda dimensão “psicologisante” e/ou “sociologisante”, sob sua dura versão autotélica). Em referência aos trabalhos de Bakhtin e Labov, Bres destaca a dimensão sócio-historicamente construída do sentido que resulta relações práticas dos homens entre eles e com o mundo.19

Logo, podemos observar, a partir do fragmento supracitado, que o estudo das

narrativas aconteceu sob várias perspectivas. Labov com seus estudos mais voltados

para a oralidade. Bres, por sua vez, com críticas aos trabalhos estruturalistas sobre a

narrativa. Rabatel surge para analisar narrativas à luz da ótica da noção de ponto de

vista. Veremos na próxima seção os pressupostos labovianos acerca da narrativa.

19L’énonciation narrative en acte, que Labov 1972/1978 met au jour à partir des récits oraux, est

évidemment très marquée dans les interactions orales, à la mesure des commentaires des récepteurs du récit, qui, par la nature de leurs évaluations, influent sur les choix de l’émetteur − choix du thème, de son développement ou du passage à un autre thème susceptible de mieux susciter l’approbation de l’auditoire, choix du registre, etc. Mais la dimension interactionnelle existe aussi, fût-ce sous une forme médiatisée, dans les récits écrits, littéraires ou non.

Dans sa critique serrée des travaux structuralistes sur le récit, Bres (1994) souligne que le récit ne se réduit pas à un ensemble monologique de structures décontextualisées et de clôtures internes renvoyant à un sens immanent, à une structure profonde (refusant toute dimension « psychologisante » et/ou « sociologisante », sous sa version autotélique dure). En référence aux travaux de Bakhtine et de Labov, Bres met en relief la dimension socio-historiquement construite du sens qui découle des rapports pratiques des hommes entre eux et avec le monde.

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