• No results found

Conditions of supererogatory forgiveness

Is Forgiveness Supererogatory? 1

2. Conditions of supererogatory forgiveness

Como referido no segundo capítulo, o processo de produção de informação resulta de um conjunto de escolhas da responsabilidade de diferentes gates (portões) – teoria de ação pessoal ou do gatekeeper. Estes 'portões' representam os jornalistas que tomam as decisões relativas à seleção do que é ou não publicado (Traquina, 2002; Wolf, 1992).

Portanto, num segundo passo, os fotojornalistas repórteres têm de selecionar as fotografias, e Joaquim Dâmaso relembra que o objetivo das mesmas e, consequentemente, do fotojornalismo, é "retratar algo que está a acontecer e transmitir

isso o mais fiel à realidade."41 Mas como funciona esse processo? Que fotografias são

essas? O que são 'boas' fotografias da realidade?

A opinião de Miguel Madeira é que uma boa fotografia "deve-nos fazer parar um

bocado, pensar um bocado. Para nós que somos fotógrafos, uma boa fotografia é nós reconhecermos naquela fotografia uma coisa bem sacada, no fundo. É como ler uma frase e dizer: 'Porra, já vi esta coisa escrita de trinta mil maneiras e este gajo apanhou mesmo bem aqui isto. Juntou ali 20 palavras de uma maneira que nunca ninguém tinha feito e UAU!, isto está muito bem esgalhado.' Para mim, uma boa fotografia é um bocado isso. É muito de sensações. (...) Reconhecer que viu alguma coisa diferente, reconhecer que aquele equilíbrio dos enquadramentos está bem. É uma questão de nos contar a história."42

Na mesma linha de pensamento, Joaquim Dâmaso diz-nos que uma fotografia para ser boa "tem de comunicar comigo. Eu quando olho para a fotografia eu tenho de

gostar dela. A nossa preocupação é que a pessoa olhe para o jornal e que aquela imagem lhe transmita alguma coisa. E esse é o meu critério."43

40 Entrevista pessoal a João Carlos Santos - 30 de março de 2015 41 Entrevista pessoal a Joaquim Dâmaso - 14 de maio de 2015 42 Entrevista pessoal a Miguel Madeira - 31 de março de 2015 43 Entrevista pessoal a Joaquim Dâmaso - 14 de maio de 2015

91 Vendo através deste prisma, escolher fotografias parece-nos quase aleatório, um procedimento com um método pouco claro, ou consistente, tal como o estudo de White conclui: o processo de seleção de informação e notícias é completamente subjetivo (in Wolf, 1992), empírico (Traquina, 2001). Talvez por essa razão, Hugo Amaral, fotojornalista do Observador, nos diga que selecionar fotografias é um processo pouco coerente: "A seleção das fotografias acho que é completamente subjetiva. Está

dependente do gosto estético de cada um, está dependente também se é uma foto tecnicamente boa. Eu acho que a seleção das fotografias é uma coisa um bocado pessoal. Vai bater um bocado contra a cena do jornalismo: a objetividade. Mas o jornalismo tem sempre uma ponta de subjetividade, porque as pessoas são diferentes."

Também José Caria assume a seleção de imagens como "uma coisa muito pessoal. Não

há aquela regra, como há na matemática (...), mas eu tento fazer uma escolha por aquilo que se passou, no tempo que eu lá estive."44

As opiniões entre repórteres e editores convergem, à parte de critérios exteriores, até porque todos os profissionais que assumem agora o cargo de editor de fotografia foram repórteres fotográficos. João Carlos Santos, editor do Expresso, conta que "é

quase uma coisa empírica. Eu escolho muito, muito rápido. Eu tenho um método de trabalho desde que me conheço que é assim: eu abro as fotografias, passo uma a uma, mas passo mesmo muito rapidamente, e faço logo... [uma previsão]. Aliás, eu quando fotografo já sei exatamente aquilo que vou escolher quando chegar. Aquilo é rápido e raramente me surpreendo, a não ser pela negativa: eu achei que a fotografia ficou bem e afinal estava um bocado tremida."45

Ainda assim, e na sequência do processo de seleção de fotografias, a responsabilidade na última etapa recai sempre sobre os editores de fotografia de cada órgão de comunicação social. Os entrevistados enviam as suas fotografias por ordem de preferência pessoal, mas essa preferência nem sempre vai ao encontro das decisões dos editores.

Ana Jesus Ribeiro conta-nos que "uma frustração que eu tinha e que muitos

colegas ainda têm hoje: nós é que estamos no terreno a fazer a cobertura, nós é que temos noção do que aconteceu. Nós fazemos a nossa primeira triagem. Escolhemos o que vai ao encontro daquilo que presenciámos e cobrimos. Enviava as fotografias por ordem de preferência e, muitas vezes, a frustração é por nunca escolherem a primeira,

44 Entrevista pessoal a Hugo Amaral - 23 de junho de 2015 45 Entrevista pessoal a João Carlos Santos - 30 de março de 2015

92

ou a segunda opções. E nunca sabemos porquê."46 Ao invés, Rui Miguel Pedrosa tem

uma experiência mais positiva, na medida em que diz assumir mais vezes o poder de decisão sobre as suas fotografias: "às vezes eu ligo a sugerir a melhor fotografia e eles

até agradecem, porque nós é que estivemos no local. (…) Quem está a receber as fotografias, recebe milhares de fotos por dia. Eu acredito que esse editor de fotografia chega a uma altura que está em piloto automático."47

Numa visão de editor, João Carlos Santos diz-nos que "eu não posso estar a

analisar uma fotografia partindo do pressuposto de como é que eu a faria. Não faz sentido. Tenho de ter essa distância para perceber o que é que o jornal precisa, não o que eu vejo naquela imagem, ou no que é que eu me revejo naquela imagem – isso é, acho eu, que é terrível –, e acaba por cortar até um bocadinho a criatividade das outras pessoas se eu começar a querer que toda a gente fotografe como eu fotografo. Para já porque não sou garantidamente o melhor fotógrafo, mas tenho de perceber mais o espírito do jornal e o que o leitor do Expresso quer."48

Assistimos, no entanto, a realidades em que não existe editor de fotografia. Além do testemunho de Joaquim Dâmaso que, trabalhando num jornal regional, é o único jornalista que se encarrega da fotografia – realizando ambos os trabalhos: o de editor e o de repórter –, também Hugo Amaral experiencia um processo semelhante no

Observador. Este último jornal é exclusivamente online, funciona há cerca de um ano e,

instalada a crise, o fotojornalista diz que, embora cada um com a sua função, têm de se ir revezando pelo trabalho que está por fazer: "Na parte de imagem somos poucos em

comparação com a redação, que são uns 20. Na parte de imagem somos cinco. (...) A seleção é feita por nós. Não temos editor de fotografia, nós é que fazemos essa seleção."49