Catadores de lixo reutilizável ou reciclável estão presentes em nossa sociedade há séculos. Na Roma antiga existiam pessoas que buscavam materiais descartados nas “cloacas” e que ainda poderiam ter alguma utilidade, valor de venda ou de troca. Tais pessoas eram chamados de canicolae (EIGENHEER, 2009).
O reaproveitamento de resíduos é algo presente em praticamente toda a história humana, como já foi dito anteriormente. Nas áreas rurais a destinação dos resíduos e seu reaproveitamento eram resolvidos nas unidades domésticas, sendo pouco desenvolvido um mercado de troca ou de coleta por terceiros. Com o adensamento urbano, a impossibilidade de se realizar o reaproveitamento e a eliminação do lixo, várias cidades, ou mesmo domicílios particulares, começaram a pagar a terceiros pela coleta de lixo. Além disso, com o crescimento de manufaturas e de indústrias que necessitavam de algumas matérias-primas oriundas do lixo, como metais, trapos de roupas e ossos, a atividade de coleta de resíduos recicláveis e reutilizáveis passou a ter alguma importância econômica. E aí surgem os primeiros catadores de resíduos recicláveis e reutilizáveis.
Em um dos registros mais antigos desses coletores de resíduos da França, datado do século XVI, um trapeiro-sucateiro é retratado em uma gravura sobre madeira típica do final da Idade Média, chamada “Cris de Paris” – Gritos de Paris –, como um errante que caminha por toda a cidade procurando materiais valiosos entre os resíduos despejados pela mais importante metrópole medieval da França.
Figura 1. Le chiffonnier-ferrailleur - Cris de Paris. Anônimo (Séc. XVI). (Musée historique de l’enviroment urbain).
Nota-se na gravura que os objetos carregados pelo homem retratado são trapos e metais, materiais com valor de mercado. Os trapos, os metais e os ossos – de animais, obviamente – tornam-se, desde o fim da Idade Média, resíduos valiosos para a indústria nascente. Desde a Antiguidade, os objetos de metal inutilizados eram reaproveitados, por meio da fundição de novos objetos. Os trapos, desde o século XII na Europa, eram utilizados para a produção de papel. E os ossos eram utilizados para fabricação de sebo, cola e
sabão. (Barles, 2005) No entanto, é somente com o desenvolvimento da indústria, e o consequente adensamento das cidades, que a catação de trapos, metais e ossos passa a constituir uma importante atividade econômica.
O trapo de origem vegetal é bastante usado para a fabricação de papel, sendo vertiginoso o crescimento da produção papeleira ao longo do século XIX, não só na França, mas em toda a Europa e também nos Estados Unidos. Na França, a produção de papel passa de 18 mil toneladas/ano em 1812 para 350 mil toneladas/ano em 1900. A importância do trapo é tão grande para essa indústria que, desde 1771, a exportação dessa matéria-prima é proibida na França (Barles, 2011). Nos Estados Unidos, o desenvolvimento do mercado de trapos para a fabricação de papel foi fundamental no processo de independência, uma vez que a publicação de jornais e folhetos, que divulgavam importantes informações a respeito das atividades revolucionárias, necessitava de papel – então já produzido nos Estados Unidos – e de sua matéria-prima, o trapo – cuja parcela considerável ainda era importada. A estocagem de trapos nos domicílios foi até mesmo chamada de “tarefa patriótica”, assim que se iniciou o processo revolucionário de independência dos Estados Unidos (Strasser, 2000).
Enquanto o trapo vegetal possuía apenas um uso, na indústria de papel, o osso animal era utilizado de várias formas. Como já foi dito, a partir do osso poderiam ser fabricados sebo, cola e sabão. Não menos importante era a utilização do osso animal na indústria de alimentos, que utilizavam seus substratos na produção de gelatina, geleias, cremes e caldos “nutritivos”. O osso foi utilizado também, a partir de 1830, na produção de palitos de fósforo. Do “carvão animal”, originado na queima do osso, extraía-se uma substância que servia para clarear o açúcar que se retirava da beterraba, tornando o processo mais rentável. Com o crescimento do consumo de açúcar, especialmente nas grandes cidades, a utilização do carvão animal também cresceu vertiginosamente (Barles, 2011). Nos Estados Unidos, a coleta de ossos e sua utilização na indústria também se desenvolveram bastante ao longo do século XIX. Além de utilizar o osso animal como fonte de fósforo e como carvão animal na indústria de açúcar, destaca-se o setor de fertilizantes
como importante nicho de mercado para os ossos nos Estados Unidos (Strasser, 2000).
Com a demanda crescente da indústria ao longo do século XIX, o mercado de reciclagem se desenvolve, o que permite o crescimento do número de pessoas que trabalham com a coleta e a venda desses materiais. Chamados de scavengers, chiffonniers1, trapeiros, esses catadores são parte
importante da cadeia produtiva da reciclagem, mas não são os únicos. Pequenos empreendedores, mascates, sucateiros, industriais e grandes corporações fazem parte desse mercado crescente de reaproveitamento do lixo.
Na França, os trapeiros – chiffonniers – tornam-se parte do ambiente urbano, e a atividade de catação desenvolve-se enormemente no século XIX. Em Paris, o departamento de polícia – Prefecture de Police – começa a regular a atividade, obrigando o cadastro de trapeiros e o uso de uma medalha de identificação. De acordo com dados do departamento de polícia parisiense, em 1828, havia 1.841 chiffonniers cadastrados na capital francesa e em 1872, 11.767.
Originalmente, a atividade de catação é realizada por trapeiros que, usando um grande espeto e um saco (ou cesto), percorrem toda a cidade solitariamente, coletando seus bens preciosos, os descartes recicláveis. Poderiam sair a qualquer hora do dia, mas aqueles que trabalhavam à noite e de madrugada obtinham os maiores ganhos, pois passavam à frente dos outros, coletando materiais mais valiosos. Em geral, não possuíam moradia fixa, dormiam sob as marquises, em frente às portas das igrejas abundantes em Paris, nas calçadas e sob as pontes que cruzam o Sena. Dentre os indesejáveis que habitavam a cidade, os trapeiros, produtos do crescimento da produção industrial e do consumo em massa, confundiam-se com diversos loucos e miseráveis e se distinguiam por encontrar no lixo sua fonte de renda e de insumos necessários à sobrevivência. Ao consumir, trocar ou vender o que encontravam no lixo, os trapeiros seguiam sua vida. Eram tidos como loucos, desvalidos, boêmios, inadaptáveis, indesejáveis.
1 A palavra chiffonnier vem de chiffon, que significa trapo em francês. Por isso, na língua
Esses trapeiros eram objeto de preocupação da polícia, que procurava mantê-los sob estrito controle, mas também tinham a atenção de parte dos intelectuais, artistas e revolucionários franceses do século XIX. Trapeiros são retratados por pintores, como Manet (1869) e Gavarni (1852), são descritos por poetas e escritores, como Charles Baudelaire (Les fleurs du mal, 1857) e Victor Hugo (Les miserables, 1862), e servem como fonte de inspiração para revolucionários e reformadores sociais, como Le Play (1849-50), que via na figura dos trapeiros “aqueles que abalavam os alicerces dessa sociedade”.
Figura 2. Le chiffonnier. Edouard Manet (1869). (The Norton Simon Foundation).
Walter Benjamin nota a importância dos trapeiros naquele momento da segunda metade do século XIX, especialmente em Paris:
Maior número de trapeiros surgiu nas cidades desde que, graças aos novos métodos industriais, os rejeitos ganharam certo valor. Trabalhavam para intermediários e representavam uma espécie de indústria caseira situada na rua. O trapeiro fascinava a sua época. Encantados, os olhares dos primeiros investigadores do pauperismo nele se fixaram com a pergunta muda: “Onde seria alcançado o limite da miséria humana?” Frégier lhe dedica seis páginas do seu As Classes Perigosas da População. Le Play fornece para o período de 1849 a 1850, presumivelmente aquele em que nasceu o poema de Baudelaire, o orçamento de um trapeiro parisiense e dependentes.
Naturalmente, o trapeiro não pode ser incluído na boemia. Mas, desde o literato até o conspirador profissional, cada um que pertencesse à boemia podia reencontrar no trapeiro um pedaço de si mesmo. Cada um deles se encontrava, num protesto mais ou menos surdo contra a sociedade, diante de um amanhã mais ou menos precário. Em boa hora, podia simpatizar com aqueles que abalavam os alicerces dessa sociedade. O trapeiro não está sozinho no seu sonho. Acompanham-no camaradas; também à sua volta há o cheiro de barris, e ele também encaneceu em batalhas. (Benjamin, 1989, p. 16)
Para além das visões estigmatizantes ou romantizadas, trapeiros seguiam uma dura rotina diária que podia durar até 18 horas. Muitos viam na atividade uma boa fonte de renda e a possibilidade do trabalho autônomo, sem horário fixo, sem patrão, sem regras. Mas, na verdade, era um trabalho estruturado, especialmente para os que auferiam melhor renda. Havia basicamente três tipos de trapeiros, os que trabalhavam sempre em um mesmo lugar – geralmente em uma ou duas ruas –, os que percorriam toda a cidade em busca do seu material e os que trabalhavam nos locais de despejo dos materiais orgânicos, locais de compostagem de lixo, onde se produzia adubo. Os catadores “fixos” – placiers – eram os que tinham maior renda, pois recolhiam os materiais descartados em sua fonte, nas próprias moradias, e criavam um laço de confiança com os moradores e os donos dos imóveis, fazendo até mesmo outros serviços para os senhorios, como a limpeza das áreas comuns dos prédios, ou mesmo dos apartamentos desocupados. Os
catadores ambulantes – coureurs – obtinham uma renda menor, ainda variável a depender do horário em que realizavam a coleta, mas tinham maior liberdade de andar por toda a cidade e não precisavam coletar todos os dias no mesmo horário, uma vez que não tinham obrigação com ninguém a não ser consigo. Os catadores dos locais de compostagem – gadouilleurs – eram os mais miseráveis, buscavam retirar principalmente os ossos misturados à matéria orgânica, ganhavam menos e trabalhavam durante uma jornada de mais de 14 horas diárias em situação bastante precária (Barles, 2011).
Nos Estados Unidos, a coleta do material reciclável agregou diferentes tipos de pessoas. Com uma mão de obra mais escassa do que na Europa, a coleta de materiais descartados para a indústria estadunidense possuía uma dinâmica diferente da europeia. Entre o fim do século XVIII e meados do século XIX, a figura central na compra e venda de recicláveis eram os mascates –
peddlers –, vendedores ambulantes de quinquilharias, que percorriam pequenos vilarejos, grandes e médias cidades e a área rural, buscando vender seus produtos, em grande parte panelas e outros objetos metálicos de uso doméstico, e comprando trapos nas casas que visitavam. Carregavam o vagão de trapos enquanto iam descarregando os metais nas casas dos compradores. Vários negócios eram feitos sem necessidade de moeda, trocava-se panela por trapos. A indústria pagava bem por aqueles trapos e o mascate andava com o carro sempre cheio de mercadorias, buscando sempre melhores negócios. As mulheres donas de casa, geralmente responsáveis por receberem os mascates e fazerem a negociação, se organizavam de maneira a preservar seus trapos separados e em boas condições (Strasser, 2000).
Figura 3. The yankee pedlar: A recent sketch in Vermont. USA. The pictorial world. (1875). A partir da segunda metade do século XIX, além dos mascates, que compravam os materiais e tinham grande importância na área rural, a coleta de materiais recicláveis nos centros urbanos passou a ser realizada principalmente por mulheres e crianças de famílias de imigrantes. Com a escassez de mão de obra e o baixo nível de desemprego nos EUA até a crise de 1929, tal atividade não era atrativa para os homens adultos. Mulheres e crianças participavam de um mercado organizado hierarquicamente, onde os mais frágeis e miseráveis eram a base, homens embrutecidos eram intermediários e grandes industriais ocupavam o topo (Strasser, 2000, p.113). Os negociantes de lixo e pequenos sucateiros geralmente recrutavam, entre as famílias mais pobres, as mulheres e as crianças para coletar os materiais descartados pela população dos grandes centros urbanos. Alguns trabalhavam nas ruas e outros nos lixões. Pequenas firmas pagavam à prefeitura pelo direito de coletar nos lixões, mas colocavam terceiros para fazerem o trabalho de catação. Esses catadores de lixão – scavengers – eram os mais miseráveis dentre os catadores norte-americanos do século XIX. Juntamente com os trapeiros – ragpickers –, que coletavam nas ruas, os catadores de lixão
tornaram-se os maiores fornecedores de materiais recicláveis para a indústria norte-americana no período.
A atividade de catação nas ruas era bastante malvista pelas autoridades. Era comum que as crianças que realizavam a atividade fossem alvo de acusações de furtos, sendo constantemente perseguidas pelos agentes policiais. Por conta de estarem associados a esse tipo de problema e de sua situação de pobreza, Charles Loring Brace listou os trapeiros entre as “classes perigosas nova-iorquinas” em seu livro The dangerous classes of New York (1872).