Apresentaremos neste tópico o que seria o mau do ponto de vista de um progresso da humanidade, do ponto de vista da necessidade de tornar pública as nossas intenções, a fim de colocar à prova a concordância ou não de nossos pares. Traremos a princípio uma questão kantiana que reflete sobre o moralmente bom e o bom cidadão.
(...) a Revolução Americana e principalmente a Revolução Francesa haviam-no [Kant] despertado de seu sono político (assim como Hume despertara-o, na juventude, de seu sono dogmático e, na maturidade, Rousseau despertara-o do sono moral) (...) ele sabia que sua filosofia moral não ajudaria aqui. Assim, afastou-se de toda moralização e compreendeu que o problema era como forçar o homem a ‘ser um bom cidadão, mesmo se (ele não é) uma pessoa moralmente boa’.197
A preocupação de Kant na velhice é com a política, não mais com a moral. O problema de como constituir um bom Estado era independente da moral do homem, ou seja, homens maus podem constituir um Estado bom. Basta que os ‘demônios’ cumpram a lei. Uma boa constituição torna um Estado bom, independentemente do padrão moral das pessoas. Um homem que não age de acordo com o imperativo categórico pode agir de acordo com a lei do Estado. No limite, ao invés de agir pelo cumprimento do dever moral, agiria de acordo com a lei do Estado com medo de penalidades.
Mas por que Kant está pensando aqui em uma Constituição para demônios? Que demônios seriam esses? Veremos adiante que estes demônios estão sempre presentes na sociedade. Trata-se da ausência da publicidade das intenções que são de interesse social. Todos nós somos demônios quando não expomos nossas intenções que tenham repercussão sobre o todo da humanidade. A publicidade é o que nos impede de sermos demônios.
A necessidade da publicidade da conduta é essencial para o progresso da humanidade (quanto menor a privacidade de minhas idéias, mais a humanidade está
em comunhão, pois as idéias, as posições, as opiniões, são públicas, como veremos). A despeito de uma boa Constituição, a boa humanidade é construída através da publicidade das intenções. A melhor Constituição não é a da letra da lei, mas é a que se dá quanto maior for a comunicação entre as pessoas.
Podemos verificar a conexão entre o mau e a privacidade das intenções na seguinte passagem:
A questão é muito simples. Nos próprios termos de Kant: eu posso querer uma mentira particular, mas não posso ‘de modo algum querer que a mentira torne-se a lei universal. Pois com essa lei não haveria promessas’. Ou: eu posso querer roubar, mas não posso querer que o roubo se torne uma lei universal; porque com essa lei não haveria propriedade. Segundo Kant, o homem mau é aquele que abre uma exceção para si; ele não é o homem que quer o mal, pois isso é impossível para Kant. Assim, a ‘raça de demônios’ não é aqui a de demônios no sentido usual do termo, mas a daqueles que estão ‘secretamente inclinados a excetuar-se’. A questão é o
secretamente: não poderiam fazer isso publicamente porque, nesse caso,
obviamente estariam contra o interesse comum - seriam inimigos do povo, mesmo que esse povo fosse uma raça de demônios. E, em política, distintamente da moral, tudo depende da conduta pública. 198
O homem mau de Kant seria aquele que pretende se afastar da regra moral como se ele fosse uma exceção. Pretende mentir ou roubar, por exemplo, precisa simultaneamente que os demais continuem agindo de acordo com a lei moral. Caso todos roubassem, não existiria propriedade, e ele não poderia mais roubar. O homem mau necessita que o imperativo categórico seja ao menos a regra da maioria dos homens, o homem mau só é possível por causa da existência daqueles que agem de acordo com o imperativo categórico. Por isso quer ser uma exceção à regra, quer roubar, mas só ele, pois se todos roubam não tem mais propriedade. Quer roubar, mas certamente não quer que roubem dele. Também espera ouvir a verdade das demais pessoas, não quer viver em um mundo onde todos mentem o tempo todo, como conviver desse jeito, sem confiar em ninguém?
A exceção à regra não pode ser comunicada aos demais. Claro que isso não é uma regra absoluta, alguém que rouba muitas vezes participando de uma quadrilha, ou conta para os ‘amigos’, enfim, sempre tem alguém sabendo que a
198 ARENDT, H. Lições sobre a filosofia política de Kant, Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
pessoa roubou, sempre ele comunica a alguém. O que se pretende dizer com a ausência de publicidade quando do descumprimento da regra é que não é algo comunicável à sociedade como um todo. O que pertence ao público é algo que não pode ser segredo para ninguém, é uma abertura de nós mesmos aos demais por não termos nada a esconder. O descumprimento da regra pertence à esfera privada, a pessoa sabe que está errada frente às demais, sabe que a regra deve permanecer, e pretende ser uma exceção.
Disso surge uma constatação importante, quanto mais as pessoas permanecerem com coisas incomunicáveis,199 quanto mais ações ou intenções que serão efetivamente realizadas precisarem permanecer no campo privado, menos progresso terá sido estabelecido. O progresso pode ser medido pela possibilidade das ações serem publicáveis, por conta da possibilidade da pessoa se permitir ser observada por inteiro pelos demais. A publicidade é a medida do progresso da humanidade. E o julgamento, a reflexão enquanto expectadora dos acontecimentos, certamente tem uma relação com o progresso da humanidade.