VIOLÊNCIA E PSICANÁLISE
A questão fatídica para a espécie humana parece- me saber se, e até que ponto, seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelas pulsões humanas de agressão e autodestruição. (FREUD,1930, p.70).
A respeito da agressividade do homem, Lacan (1966) afirma que há uma verdadeira encruzilhada estrutural quando tentamos compreendê-la, pois não é simples entender a relação da agressividade com o próprio sujeito e com os objetos. A agressividade é uma relação erótica alienante em que o sujeito fixa em si mesmo. Essa é a forma de onde se origina a organização passional, “Essa forma se cristalizará com efeito na tensão conflitiva ao sujeito, que determina o despertar de seu desejo pelo objeto de desejo do outro” (LACAN, 1966, p.116).
No texto escrito em 1966, Lacan, em uma abordagem fenomenológica, baseada na experiência com a escuta e a palavra de seus pacientes na clínica psicanalítica, afirma que a agressividade humana faz parte da economia psíquica do homem, que por ela é marcado desde sua origem. É tida como uma tensão correlata à estrutura narcísica no devir do sujeito. O autor propõe cinco teses a respeito da agressividade para explicar o sentido e a implicação da subjetividade e da identificação no devir e no potencial agressivo que permeia o humano desde o seu status de infans. Suas teses dizem que:
a) a agressividade se manifesta numa experiência que é subjetiva por sua própria condição; b) a agressividade, na experiência, nos é dada como intenção de agressão e como imagem de desdobramento corporal, e é nessas modalidades que se demonstra eficiente; c) os impulsos de agressividade decidem sobre as razões que motivam a técnica da análise; d) a agressividade é a tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico e que determina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades característicos de seu mundo, e tal noção de agressividade, como das coordenadas intencionais do eu humano, e especialmente relativa à categoria do espaço, faz conceber seu papel na neurose moderna e no mal-estar na civilização. (p.104-122).
Logo, a partir das teses de Lacan, a agressividade pode ser apreendida como subjetivante, perpassando a experiência corporal, e também conflitante, estando na
base do narcisismo. No que diz respeito à convivência com os outros, é fonte de mal-estar.
A agressividade faz parte do psiquismo humano e subjaz à sua organização e existência, todavia, diferentemente da violência, não necessariamente seu emprego terá destinos destrutivos, pois a inserção “do filhote do homem” na cultura leva o sujeito a contê-la, mas nunca eliminá-la. Sua manifestação no contexto social poderá utilizar outras formas de expressão em direção ao objeto, como a simbólica, por exemplo. O uso da linguagem, a palavra, dá ao homem a possibilidade de ressignificar seu desejo de destruição. A força da pulsão destrutiva há que ser contida, ou desviada, para que a sociedade evolua e o homem resolva os conflitos inerentes à convivência na civilização de forma menos primitiva. Quanto a isso, Freud (1930) era pessimista, pois para ele o homem tem uma inclinação para o mal. Mas, por outro lado, depositava esperança nas “forças civilizatórias” para conter a agressividade humana.
Para Vilhena (2003), é a sociedade que gera, mas também restringe a expressão da agressividade humana. Assim, o ato violento é marcado por um desejo, que é o uso da agressividade. Nos tempos atuais, caracterizados pelo individualismo, o emprego da agressividade em atos violentos denuncia a negação da existência do outro semelhante, e a resistência às condições básicas para viver na sociedade, como, por exemplo, o respeito ao outro e aos bens comuns. Dessa forma, a ausência da solidariedade e da paz no mundo atual tornou-se fonte de mal- estar.
A respeito do mal-estar inerente a todo humano para viver na cultura, Freud (1930) indica que, de fato, uma das maiores fontes de mal-estar é justamente a convivência social, pois é subjacente à existência, no homem, a inclinação para a agressão. Em “Além do princípio do prazer”, Freud (1920) conceitua a pulsão de morte, concluindo que ao lado da pulsão de preservação da vida há uma pulsão paralela e contrária, a de morte. As ações de Eros são bastante visíveis e ruidosas, todavia a pulsão de morte age silenciosamente no interior do homem. Assim, a destrutividade humana pode muito bem agir silenciosamente. Para Freud (1930), toda a hostilidade que impera entre os homens põe a sociedade em risco e a civilização se vê permanentemente ameaçada de desintegração.
Preocupados com tal potencial destrutivo humano, no início do século XX, Freud e Einstein trocaram correspondências. Em 1932, os dois cientistas e intelectuais de renome internacional tiveram uma bela interlocução a respeito do, então urgente, problema para a civilização, que era a guerra. Em sua carta, Einstein expressa a preocupação com o problema tão ameaçador para a humanidade e que, de fato, como já falara Freud, em seu texto de 1930, colocava em risco a desintegração da sociedade. Assim, Einstein interpela Freud se existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra e argumenta que, até então, apesar de todo o empenho demonstrado, não havia nenhum sucesso na busca de solução para o horror que a guerra, ou mesmo sua ameaça, causava à humanidade. A esse respeito, em resposta a Einstein, Freud (1932) aponta como possibilidade para evitar o confronto e a violência entre os homens, notadamente as guerras, a união da humanidade e o estabelecimento de uma autoridade central, que seria legitimada a arbitrar os conflitos de interesse. Freud, apesar de argumentar a respeito de tal possibilidade, reconhece que “não existe, em nosso tempo, uma ideia, a que possamos atribuir uma autoridade unificadora desse tipo (...) assim, parece mesmo que a tentativa de substituir o poder real pelo poder das ideias ainda se acha condenado ao fracasso” (p. 425-426).
No mesmo texto de (1932), Freud, apropriadamente, afirma que duas condições têm o poder de manter uma comunidade: a coação da violência e as ligações afetivas. Todavia, assim como a violência pode ser derrotada pela união e o poder de muitos venha a representar o direito e se opor à violência de um indivíduo, de todo modo, é a violência que impera. Assim, afirma: “é ainda a violência pronta a se voltar contra todo indivíduo que a ela se oponha; trabalha com idênticos meios, persegue os mesmos fins” (p. 421). Quanto às ligações afetivas, afirma que tudo que produz laços emocionais entre os homens tem efeito contrário à guerra, mas de nada adianta e não há efeito algum se “a união de muitos não for constante e duradoura” (p. 421). Caso contrário, se a união se produzisse a fim de combater somente um indivíduo poderoso e ao alcançar o objetivo se desfizesse, nada seria alcançado. Mas, ao final de sua correspondência com Einstein, e após muitos argumentos a respeito da agressividade humana, Freud aponta “que não há maneira de eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem”, e recomenda, então, para combater as guerras, o antagonista da pulsão de morte, do “instinto destruidor”: Eros
(p. 430). Freud, ao final de seu texto, chama a atenção para o fato de que devemos ao processo de evolução da civilização o melhor daquilo que nos tornamos e, não obstante, parte do que sofremos. Assim, conclui com a importante e bela contribuição: “tudo o que promove a evolução cultural também trabalha contra a guerra” (p. 435).
Melman (2003) constata que, com a evolução da humanidade, novas dificuldades na convivência entre os sujeitos surgiram e, para tomar decisões em um mundo caracterizado pela violência, as pessoas, quando se veem diante de situações conflitantes com as quais se defrontam cotidianamente, como a morte, por exemplo, não podem contar com o apoio e nem o auxílio do outro. É uma sociedade do isolamento, do exibicionismo, que vive uma verdadeira crise de referências, onde a ordem do dia é gozar a qualquer preço. Todavia, os efeitos dessa extrema modificação social, que acontece nos tempos modernos, comprometem as relações sociais, tanto no plano individual quanto no plano coletivo. A esse respeito, Melman pondera que na realidade a situação atual é de uma mudança de grande amplitude, cujas consequências antropológicas podem ser incalculáveis, inclusive na economia psíquica dos sujeitos, cujo efeito subjetivante é a liberação de toda dívida simbólica com as gerações precedentes.
Sem dúvida, ponderar sobre a agressividade humana e suas diversas formas de manifestações remete à verdade de que ao aniquilar o outro, simbolicamente ou não, o futuro do homem contemporâneo fica ameaçado, quando se anuncia que não há mais impossível, que o homem tudo pode. Melman (2003) afirma que o homem moderno está ultrapassando os limites.
A violência se manifesta sob diversos aspectos, um deles parece ser quando a palavra sucumbe, já que o homem é um ser de linguagem e é por meio dela que se constitui. Retirar a palavra do outro, não escutá-lo, é mais uma manifestação da agressividade humana, no sentido do não reconhecimento da existência do outro, de seu apagamento, o que pode suscitar violência e levar a passagens ao ato. Quando o reconhecimento não ocorre, a violência pode sobrevir, a partir do momento em que aquele que fala deixa de ser reconhecido. Melman (2003) dá continuidade à análise do que chama “uma violência inelutável” (p. 68) e afirma que em algumas culturas no mundo a violência sobrevém incessantemente por tudo e do mesmo modo por
nada, já que nesses casos e nos diferentes arranjos culturais se tornou um modo de relacionamento social.
Na controvérsia e nos equívocos que fazem parte do psiquismo humano, as moções de violência e de passagem ao ato são analisadas por Dejours (2011), na perspectiva da identidade do sujeito violento. O autor pondera que este passa ao ato para não perder sua identidade e ao mesmo tempo aniquilar a de sua vítima. A partir dos conceitos de violência ativa, considera que na forma ativa a visada é atingir, degradar e destruir a identidade do outro; excepcionalmente pode voltar-se contra si mesmo, nos atos suicidas. A conduta é sempre intersubjetiva e orientada para a destruição. Todavia, só há violência quando o sujeito violentado sofre a ação agressiva e sente no agente da ação um desejo de destruição.
É também pertinente pensar a violência enquanto um fenômeno social, uma vez que atinge o outro e o próprio sujeito quando volta contra ele mesmo. Portanto, existem várias formas de manifestações, além de ser um fenômeno multifacetado “que assume formas e sentidos variados em conformidade com o momento histórico e a cultura em que ele é produzido” (CAMPOS e CAMPOS, 2011).
Na análise de Campos e Campos (2011), o fenômeno da violência é consequência da modernidade, pois os tempos atuais produzem nos sujeitos um efeito de desencaixe dos vínculos sociais e de falta de raízes. Atualmente, parece que as pessoas vivem apartadas da alteridade e dos substitutos culturais do Outro, efeitos de fragmentação no real. A sociedade atual é representada por um imaginário da violência como objeto de gozo, de negação da castração, pois a legitimam como recurso da subjetividade para o sucesso. Notadamente, essa “sociedade do espetáculo” (MELMAN, 2003), é solo fértil para o sintoma perverso e propicia a negação da existência do outro ou mesmo sua submissão.
Todavia, mesmo que a violência nos dias atuais seja uma forte marca na sociedade, essa não é a única forma de os sujeitos estabelecerem vínculos sociais. A esse respeito, Campos e Campos (2011) ponderam que, de fato, a violência não pode ser considerada na centralidade das subjetividades do mundo contemporâneo, mas parte dela, uma vez que reconhecem que esta é a dimensão da expressão de um conflito interior ligada a uma dinâmica de poder, pois se trata de uma real possibilidade de eliminação do outro se este resiste e faz obstáculo ao gozo do sujeito.
O conceito de gozo é teorizado por Lacan (1966) para demonstrar que a perda irreparável do objeto e a tensão primordial que dela advém leva o sujeito a uma busca incessante e um desejo de recuperação e reparação do prazer uma vez vivido, mas para sempre perdido. “Portanto a noção de gozo se liga àquilo que repararia uma perda, à busca de algo para sempre perdido” (MOURÃO, 2011, p. 125). Assim, ao sentir-se ameaçado em sua possibilidade de gozo pleno, o homem pode passar ao ato e reagir violentamente.
Na sociedade atual parece haver um incentivo desenfreado do individualismo, quando o modo de relacionamento social se apoia em tentar erguer verdadeiros muros de resistência ao outro para a própria satisfação narcísica. Neste sentido, não há mensuração dos atos para alcançar tal objetivo. Elimina-se o outro de diversas formas, nesse excesso do individualismo com passagens a atos destrutivos. Também, uma forma de minimizar ou, até mesmo, extinguir a existência do outro, como já apontado neste trabalho, é a negação das normas sociais e da autoridade, e estas são, para o infans, legitimadas pelo Nome-do-Pai. O pai, em sua função primordial, para Lacan a metáfora paterna, assegura a entrada da criança em um mundo regido por leis, normas e condutas, às quais ele mesmo é submetido, pois é simbolicamente representante do mundo da linguagem e da cultura. Esse conjunto de regras é necessário à evolução social e cultural, já que põe a operacionalizar o que Freud chamou de castração.
No entanto, quando o individualismo evolui, evolui justamente para a negação da alteridade, da existência do outro, cujo efeito é “corolariamente o aniquilamento do próprio sujeito, uma vez que toda subjetividade só pode se constituir em referência e através da alteridade (no outro, chez l’autre)”, conforme Campos e Campos (2011, p. 142).
Para Costa (2003), o princípio ordenador da cultura são as leis da linguagem e do simbólico. “O pai, cuja lei porta seu nome, na verdade é suporte de uma função que o transcende. Ele é a fonte empírica da lei” (p. 47).
A respeito da linguagem, uma das condições para se viver em sociedade, pois legitima e operacionaliza normas e leis necessárias ao convívio social, Martins (2011) assevera que, tanto quanto a cultura, ela é mutável. Notadamente, o inconsciente “acompanha” tal mudança, posto que se constitui no social. Embora se reconheça que as mudanças sociais aceleradas tenham efeitos subjetivantes e que
vivemos e compartilhamos o mundo moderno permeado pelo narcisismo e individualismo desenfreado, é importante lembrar que, desde sempre, o inconsciente humano é habitado por possibilidades agressivas e de morte.
O mesmo autor afirma que desde a infância os impulsos hostis contra o próximo se sujeitam às mesmas restrições, à mesma progressiva repressão quanto às tendências sexuais. Embora sejamos dotados de poderosa disposição herdada para a hostilidade, já quando crianças, ao entrarmos em um mundo de civilização e de linguagem, aprendemos, por exemplo, que o uso da linguagem abusiva é nociva. Mesmo assim, atualmente o que se percebe é que há uma verdadeira negação do apreendido do outro pela via da linguagem e do que se pode compartilhar socialmente.
Não obstante, Bourdieu e Passeron (apud COSTA, 2003) afirmam que não há cultura sem arbitrariedade e imposições de significações, que se legitimam por meio da ação educativa de um outro. Todavia, o arbitrário que existe na cultura é da ordem da necessidade social, para que haja, por meio das representações simbólicas, relações sociais. Assim sendo, na conclusão dos autores, “todo sopro fundador da cultura é violência” (p. 23). Logo, todo ato de transmissão cultural é simbolicamente violento.
Em seu texto de 1932, Freud afirma que é pela grande necessidade de poder e o modo de sua relação com este que o homem traz consigo um desejo de ódio e destruição. Nesse mesmo escrito as pulsões humanas seguem em duas direções, uma que serve para união e a outra para a destruição e morte. Contudo, nenhuma é menos fundamental que a outra, pois, por vezes, ora uma ora outra deverá estar a serviço do homem. Comumente, a pulsão agressiva pode estar a serviço do sujeito quando se presentifica na necessidade de autopreservação. Da mesma forma, a pulsão de vida, dirigida ao objeto de amor, no próprio esforço para manter-se viva, pode agir com agressividade que se apresenta como domínio do outro, por exemplo. Desse modo, o poder da pulsão autodestrutiva, inerente a todo humano, não cessa de querer conduzi-lo ao apagamento do desejo e, portanto, à morte. Todavia, Freud (1932) pondera que não há como eliminar totalmente os impulsos agressivos do homem, mas, não obstante, afirma que há como desviá-los para fins socialmente aceitos, pois para ele a Psicanálise não tem que se envergonhar de ponderar sobre o amor na humanidade ou a falta dele, e complementa que encontra as mesmas
palavras na religião: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Contudo, isso é mais fácil de ser dito do que praticado.
Embora as mudanças de ordem e de regras, que acontecem ao longo da história da civilização, afetem os homens, de qualquer maneira não se pode negar o efeito de tais mudanças no psiquismo humano e, quanto a isso, não há equívoco, pois o processo de civilização trouxe consequências e efeitos diversos na subjetivação humana. A nova ordem social e os novos modelos de estabelecer vínculos têm ressonâncias psíquicas que muitas vezes são devastadoras e intoleráveis, no que diz respeito aos padrões éticos e estéticos que deveriam conduzir a convivência e o desejo do homem.
Na compreensão de Costa (2003), Freud observa que não existe uma pulsão de violência. O que existe é uma pulsão agressiva que pode coexistir perfeitamente com a possibilidade do homem desejar a paz e com a possibilidade de empregar a violência.
Em qualquer atividade humana o desejo está presente e não é diferente nos atos de violência. Quanto a essa afirmação, Costa (2003) pondera que mesmo as atividades destrutivas trazem a marca de um desejo, portanto a violência é o emprego desejado da agressividade, com fins destrutivos. “É porque o sujeito violentado (ou o observador externo à situação) percebe no sujeito violentador o desejo de destruição (desejo de morte, desejo de fazer sofrer) que a ação agressiva ganha significado de ação violenta.” (p. 39).
Freud (1932) se diz um pacifista e, portanto, um inconformado com o exercício da violência entre os homens. Conceituou a sublimação, conceito que guarda íntima relação com os processos inconscientes, como uma das vias que a civilização impõe ao sujeito para assegurar o controle das pulsões (FUKS, 2003).
Assim, o processo de sublimação permite ao sujeito um modo próprio e subjetivo de satisfação pulsional, socialmente aceita, fortalece os laços sociais entre os homens, possibilita mudanças e criações culturais, o que representa, como já dissera Freud, em alguns de seus escritos, uma saída para a humanidade.