Para Cambi (1999: 278), o século 16 foi o momento da fermentação da educação e das instituições educacionais, depois o século 17 veio renovando esse contexto, que se reafirma no século 18 e realiza-se com mais ênfase nos períodos seguintes até os dias atuais.
É possível detectar que muito tempo tem transcorrido até que a educação e a escolarização chegassem organizadas, como se apresentam em nossos dias. É uma longa trajetória, feita de adversidades, lutas e conquistas, que se estendem do ontem para hoje na construção da educação e do sistema de escolarização contemporâneo.
32 Cambi (1999: 242) revela que esse período marcou significativamente o campo social, político, religioso e cultural. Na modernidade se afirmaram importantes elementos que influenciaram na vida social: o Estado territorial e burocrático, a burguesia e a economia de mercado, capitalista. Caracterizou-se como uma época da secularização, do individualismo e da busca pelo domínio da natureza. Nesse sentido, no período considerado moderno, as questões relativas à educação começaram a emergir com mais força, especialmente no continente Europeu.
No período inicial, o processo de escolarização tinha conotação voltada para a moral religiosa. Dentro do ideal da educação religiosa, mobilizam-se, também, forças que procuram a renovação desse mesmo ideal religioso educativo. Esse sopro de renovação interfere no mundo cristão, nos seus ideais e nas formas de ver e perceber o mundo.
Quando houve a explosão da Reforma Protestante iniciada por Lutero2,
na Alemanha, esses ideais cristãos, católicos, foram abalados. Segundo Cambi (1999: 247-248) a Reforma Protestante foi um movimento político-religioso provocador de ruptura na unidade do cristianismo. Isso interferiu não apenas na formação da espiritualidade, mas influiu em todas as dimensões da vida do homem – acabou desvinculando as questões educativas da autoridade divina, da religião, que até então continha a verdade.
A Reforma Protestante aproxima o crente das escrituras, e para isso o cristão precisava estar em contato com os elementos da cultura, por exemplo, a leitura. Assim, coloca Cambi (1999: 249), Lutero via a necessidade de difundir, nos meios populares, essa possibilidade da educação, no mínimo elementar, que se daria nas instituições escolares públicas, norteadas pelos princípios da obrigatoriedade e da gratuidade.
Lutero, com suas ideias, promove uma ruptura da unidade do cristianismo. Com essa unidade balançada e rompida, a Igreja romana vê-se compelida a agir. Sua ação pressupõe uma renovação para difundir a religião católica nos países do
2
Martinho Lutero nasceu num vilarejo da Saxônia (1483-1546), numa família modesta de mineradores. Estudou num mosteiro agostiniano e foi ordenado. Em 1510, viaja para Roma e fica impressionado com a corrupção existente na Cúria Romana e publica em 1517 as 95 teses sobre os abusos da igreja, rompe com Roma e o catolicismo.
33 Novo Mundo - acreditavam ser necessário combater o que entendiam como a heresia protestante.
Para isso, a Igreja católica lança o Concílio de Trento, quando nasce a contrarreforma. A partir das ideias aí contidas, a Igreja católica romana passa a pensar sobre sua função educativa. No que se refere à função educativa da igreja, dentro do movimento da contrarreforma tem destaque importante o surgimento de diversas congregações religiosas para a formação do clero e para a formação dos jovens dos grupos dirigentes (CAMBI, 1999: 256).
Em relação à reforma protestante e à contrarreforma da Igreja romana, Cambi (1999: 256) destaca significativa diferença no que se trata da educação e da escola da época: segundo ele, o pensamento da reforma protestante fixava-se na instrução dos grupos burgueses e populares com a finalidade de criar as condições para a leitura dos textos sagrados. A contrarreforma, com ênfase na obra dos jesuítas, propunha um modelo formativo tradicional, ligado ao modelo social e político da classe dirigente.
Dentro desse contexto da educação religiosa que desejava formar o homem cristão, virtuoso e dirigente, diversas congregações religiosas, movidas pela contrarreforma no século 16, apostaram na educação. Na época foi fundada uma das mais importantes ordens religiosas de cunho educacional: a Companhia de Jesus, dos padres jesuítas. Essa ordem educacional religiosa católica espalhou-se pelo mundo. Os jesuítas difundiram a educação cristã católica, e espalharam seus colégios em toda a Europa, na Ásia, na América e na África.
Para Cambi (1999: 279) “foram os jesuítas que desenvolveram um sistema orgânico de instrução e lançaram os fundamentos da escola moderna”. Os jesuítas observavam em sua pedagogia uma estrutura rígida e hierárquica, refletida nos métodos de ensino e nas condutas. Possuíam estrutura organizada em diversos aspectos, para orientar a educação, e tinham como objetivo muito importante concentrar a atuação na missão cristã: eram missionários difundindo, por meio do instrumento educativo, o catecismo.
34 No que se refere a métodos e condutas capazes de efetivar seus ideais educativos e religiosos, os jesuítas baseavam sua conduta e sua ação no documento conhecido como Ratio Studiorum. Esse importante documento continha as considerações pedagógicas, as representações e diretrizes de um programa formativo de caráter católico que se estendeu a todos os colégios jesuíticos do mundo, espalhando as ideias e um sistema de escola organizada, com métodos pedagógicos definidos.
A partir desses eventos, a própria modernidade educativa foi ganhando outras ideias e novas ênfases. No século 17, um importante pedagogo, conhecido como Jan Amós Comenius3, em conjunto com seus colaboradores, elabora, de maneira consistente, a ideia de educação universal. Cambi (1999) declara que Comenius foi o sistematizador de “uma pedagogia que relaciona organicamente os aspectos técnicos da formação com uma abrangente reflexão sobre o homem” (p. 281-187). O homem, para Comenius, era aquele do ideal religioso, concebido como microcosmo – manifestação do divino: o ser humano é feito à imagem e semelhança divina e é a mais perfeita criatura da natureza.
A criança humana, ser divino, deveria ser ocupada e receber educação e formação. Essa ocupação e formação deveriam acontecer na escola. Cambi (1999: 288) ressalta que Comenius afirma a necessidade da escola, fazendo uma crítica sobre os métodos de educação e o funcionamento escolar. Para ele, os métodos e a cultura escolar não colaborariam para alimentar as almas com saberes essenciais para a vida e para o trabalho. Cambi diz que a crítica de Comenius referia-se às escolas e ao sistema educativo. Para ele, as escolas não respondiam aos objetivos pelos quais haviam sido criadas, pois se encontravam afastadas dos vilarejos, das pequenas cidades, das aldeias. Não eram constituídas para todos, só para alguns: os mais ricos.
Contrapondo-se ao conceito, Cambi relata que Comenius pensa um modelo escolar. Acreditava que se a escola fosse reformada e organizada, contemplando a diversidade, poderia de fato ser o lugar onde todos seriam plenamente instruídos.
Nela há lugar para os ideais da sapiência, da honestidade e da
3 Jan Amos Komenský (1592- 1670) é considerado fundador da didática moderna. Em sua principal obra, a Didática Magna, coloca suas considerações pedagógicas e didáticas. É o primeiro educador do ocidente a interessar -se pela relação de ensino e aprendizagem, considerando as diferenças entre ensinar e aprender.
35 piedade; a educação se realiza com a máxima delicadeza e doçura, sem nenhuma severidade ou coerção; a cultura dispensada é verdadeira e sólida, não aparente ou superficial, e tampouco cansativa. (CAMBI, 1999: 288).
Assim, entre disputas e transformações nos séculos 16 e 17, a escola foi sendo regimentada, ganhando um lugar no contexto social. No centro de muitas disputas e diferentes opiniões, a escola foi se constituindo, segundo Cambi, estimulada pela revolução cultural e educativa do humanismo.
O período foi marcado por tensões e crises da própria tradição escolástica, que pensava a educação pela fé, pelos ensinamentos da Igreja. Também, essa sociedade foi o lugar em que a burguesia estava em ascensão e o Estado, como elemento centralizador, vinha se firmando no horizonte. O Estado que estava se organizando exigia, cada vez mais, conhecimentos e técnicas específicas para a vida e o trabalho, bem como a formação do cidadão capaz de relacionar-se com o espaço e a atividade pública (CAMBI, 1999: 302).
O autor (1999: 304) coloca que essas questões permitiram à escola, no decurso do tempo, adquirir feições próprias, passando a ser organizada, administrada pelo Estado, capaz de formar o homem cidadão, o técnico, o intelectual. Deixando, aos poucos, de efetuar a formação do homem cristão, prioritariamente católico, para ir formando um cidadão mais pertencente à sociedade civil, isso permitiu que a escola e a educação fossem obtendo um lugar significativo na sociedade.
Assim, dentro de um contexto de transformações sociais e políticas, Cambi (1999: 307) entende que a escola veio se racionalizando, se laicizando e obtendo centralidade na vida do Estado e da sociedade, principalmente europeia. Considera que a estatização da escola foi um salto para pensar a educação que promove o homem, não apenas como sujeito da moral religiosa, mas como cidadão que pertence e exerce influência nos destinos da sociedade. A tendência que marca a escola estatal, a partir do período moderno, se potencializa na formação do sujeito cidadão.
Deste modo, a educação e o processo de escolarização passaram a conter o ideal da vida civil, reafirmando o papel político do processo educativo e a importância
36 da construção da escola na vida da sociedade. A escola, no decorrer do tempo, veio sendo firmada como tendência. Essa tendência de reconhecer a importância da escola com bases sólidas, com métodos, programas e conteúdos definidos, e um ideal que perpassa um longo período.
Esse tempo longo e complexo, lugar em que educação e escola vieram ganhando centralidade na vida social, inicia-se com os primeiros pensadores que propuseram, em diferentes contextos sociais, econômicos e políticos, ideias para a educação e a escolarização pública para todos. Ao que tudo indica, estsa tendência da escola estatal, obrigatória, laica e cada vez mais universalizada vem sendo confirmada, revalidada e intensificada na sociedade contemporânea.